REPORTAGEM
 
Gentes da nossa terra: o Rancho do Merujal
 
No Merujal - da esquerda para a direita: Sr. Manuel, D. Emília, D. Rosa e D. Laurind
São verdadeiros guardiões de parte da nossa história colectiva | TEXTO COM MAIS DE 3700 VISUALIZAÇÕES
 
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O Rancho Folclórico do Merujal fez história, em Arouca e em Portugal. Uma história acompanhada pelo etnógrafo Albano Ferreira que sobre o grupo escreveu inúmeras linhas no semanário Defesa de Arouca. As expressões «autenticidade», «simplicidade» e «puro folclore» caracterizavam incansavelmente a descrição das apresentações do Rancho do Merujal.
A procura por testemunhos vivos sobre as ‘aventuras' do Rancho do Merujal levou-me, há uns dias, serra acima. Conheci o senhor Manuel Tavares, a esposa Emília Campas e a senhora Rosa Tavares que comigo partilharam as memórias que ainda guardam da sua passagem por um dos mais característicos grupos folclóricos de Arouca.
Sabido é que os ranchos folclóricos ‘nasceram' com a grandiosa Feira das Colheitas, quando se assumiu a intenção de «fazer ressurgir as antigas tradições populares». Em 1948 decidiu-se premiar os melhores ranchos que se apresentassem a concurso. Do Merujal chegou, segundo escritos de Albano Ferreira, pelas mãos de Joaquim Campas, «o primeiro rancho folclórico das cimalhas da nossa serra o que havia de constituir, como então constituiu, uma novidade e surpresa», escreveu na rubrica Arouca vista por
dentro, na Defesa de Arouca de 25 de Março de 1972.
"Quem mandava era o de Rossas, o Almeida Brandão. Ele veio pedir-nos para ir, ateimou e nós lá fomos, a pé. Saíamos do Merujal, passávamos por Souto Redondo, Lourosa de Campos e chegávamos à vila. Íamos todos juntos, moços e cachopas, e só chegávamos a casa ao outro dia de madrugada", recorda Emília, de 87 anos.
O Rancho Folclórico do Merujal arrecadou o primeiro prémio no concurso: 800$00. Seguiu-se o Rancho
de Moldes (600$00), depois os ranchos de Fermedo e Canelas (500$00) e finalmente os de Chave e
Rossas (350$00). "Dividimos o dinheiro entre todos. Calhou muito pouco a cada um e naquele tempo dei-o ao meu pai. Eu dancei neste ano. Devia ter 18 anos. Foram tempos bons", conta. Todos se lembram de dançar "O Velho, a Tirana, o Vira de Trempe, o Vira Flor, a Rabela, o Senhor da Pedra, a Rusga" e outras mais ao som "de uma concertina só com uma carreira [harmónica], uma viola, um bombo e ferrinhos".
Segundo Manuel, "em coisa de luxo e de apresentação", o rancho de Chave destacava-se. "Eram os mais
arranjados, mas eles [ilustres jurados] não queriam nada daquilo. Queriam o que era antigo. Nós vestíamos roupa de burel", realça. Sobre a actuação, Albano Ferreira escreveu: «Pois foi um acontecimento na terra ver um rancho da serra (...) dançar modas folclóricas ali, na Praça, em cima do estrado (...). A gente do Merujal colheu fartos aplausos e surpreendeu pela novidade».
A surpresa não se ficou por Arouca. «(...) Pois logo se pensou em exportar um rancho tão autêntico e característico, que haveria de constituir uma novidade onde se apresentasse. E assim havia de acontecer», escreveu Albano Ferreira. Rosa Tavares, hoje com 80 anos, participou com o grupo nos
mais conceituados festivais de folclore da altura. "Fomos a muitos lados: ao Porto, a Aveiro, a Viana do Castelo, a Lisboa", conta. Eis como o etnógrafo arouquense descreveu a presença do Rancho do Merujal e das suas gentes autênticas nestes festivais: «(...) e se aquilo foi, positivamente, uma novidade, não deixou de ser sobretudo uma surpresa, senão mesmo um escândalo ao verse aquela gente bisonha, com os seus trajos de burel, de ver a Deus e a sua maneira de ser, se apresentar, como se tivesse acabado de sair dumas dessas escuras cavernas montesinhas, tímida, desconfiada (...).
A 17 de Agosto de 1957, a Defesa de Arouca voltava a publicar um artigo de Albano Ferreira sobre o Rancho do Merujal, concretamente sobre a sua apresentação no III Festival Internacional de Viana do Castelo. «O nosso grupo do Merujal (...) apresentou-se como o costume na sua indumentária rude de
burel, como serranos que são. (...) apresentou quatro danças, sendo a de grande efeito o ‘Vira de Trempes'. Teve a particular virtude de não ter feito teatro, mas apenas folclore e do bom, do puro», leia-se. Já sobre a apresentação no Porto, no Festival Folclórico «Maio Florido», o Jornal de Notícias publicou na altura: «Este grupo vestido à serrana, com a vestimenta de ver a Deus, apresentou um folclore puro,
dançando na eira em dia de malhada. Dança viva, mexida, espontânea e de um vigor inesperado».
É, todavia, da ida a Lisboa que Rosa Tavares guarda mais recordações. O Rancho do Merujal foi destacado para tomar parte no I Concurso Nacional de Folclore que previa a participação de 80 agrupamentos folclóricos representativos de todo o país. "Foram três dias. Dançámos o primeiro dia e ficamos logo bem. Depois andámos a passear. Eu era solteira e a minha mãe foi comigo para me guardar, não me deixava ir sozinha. Fomos de camioneta e foi a viagem mais bonita que fizemos.
Naquela altura foi uma coisa muito grande", lembra. "O prémio foi o trajo. Deram-nos a roupa, lenços e tudo. Era burel daquele mais fininho", recorda.
No mês em que celebramos o Dia Internacional dos Museus, importa realçar que os museus existem porque há pessoas, há vivências, há histórias contadas e por contar. Hoje damos rosto e voz apenas a alguns dos que guardam histórias e memórias: o senhor Manuel, a esposa Emília, e a senhora Rosa.
Deveríamos dar rosto e voz a muitos outros. Àqueles que são verdadeiros guardiões de parte da nossa história colectiva. Àqueles que viveram parte do passado que hoje nos orgulhamos de ostentar e que não podemos deixar esquecer. Esquecer é morrer. Sandra Gomes (foto: Carlos Pinho)
 
Arouca

Segunda, 18 de Dezembro de 2017

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