As eleições de 18 de maio permitem elaborar um novo mapa eleitoral, com novos mosaicos e novas tendências, com uma acentuada crise dos partidos do arco da governação. Estes resultados permitem várias leituras, a partir de escalas muito diferenciadas, que vão desde o local ao distrital, do nacional ao europeu.
Estes resultados só podem ser interpretados, se tomarmos como linha de análise os problemas reais, que no dia a dia, afetam cada um dos portugueses; seja na dificuldade de acesso a uma habitação digna, a um trabalho justo e regulado, a uma saúde eficaz e humana, a uma educação e justiça de qualidade para todos. Destaco o problema do custo das mobilidades intermunicipais e regionais, a sua fraca qualidade e ausência em muitas das nossas vilas e concelhos. Uma das causas da fragilidade da coesão territorial.
O concelho de Arouca é um exemplo dessa falta de mobilidade interna e externa, da sua fraca qualidade e sua inacessibilidade a muitas famílias. Lembrar que muitas famílias, estudantes e idosos continuam a recorrer ao “táxi” como única possibilidade de transporte para se deslocarem ao Centro de Saúde, ao Banco, à Farmácia, à Escola, aos serviços públicos e até ao mercado para fazer face às coisas da vida doméstica.
Enquanto a governação socialista na Câmara de Arouca propunha e muito bem o imposto municipal em valor máximo, a direita neoliberal comandada pelos jovens do PSD/PPD e CDS/PP votavam contra e acusavam a presidente Margarida Belém de impor impostos aos arouquenses. Os impostos são um dos instrumentos mais importantes, para promover maior equidade social e justiça económica, permitem também implementar políticas redistributivas que garantem a todos sem excepção a mesma possibilidade de mobilidade social, promoção educativa e qualidade de vida. Contudo, a forma como deles fazemos uso, deve merecer um sério e rigoroso escrutínio político.
A construção de “pontes de vidro”, ou equipamentos turísticos (hotéis, parques temáticos, praias fluviais, equipamentos de elite) não são uma forma de garantir o futuro das novas gerações nem a sustentabilidade dos territórios locais.
As desigualdades no concelho de Arouca ainda continuam profundas e estruturantes. A estrutura económica de algumas freguesias continua muito frágil e quási inexistente, perante outras, que pela sua proximidade aos serviços públicos e às acessibilidades macroeconómicas viram a sua estrutura social e económica modernizar-se e evoluir para um patamar de desenvolvimento económico considerável. Estamos a falar de freguesias com uma estrutura demográfica mais jovem e activa, com uma mão-de-obra qualificada e com formação de valor acrescentado. Mas, também existem freguesias com territórios sociais e ambientais em perda acelerada, sem grande capacidade de se reposicionar e reorganizar de forma a combater a ruína, o envelhecimento, a perda populacional, o vazio e a desesperança. A estrutura económica de Arouca inclina-se para a zona da Farrapa, desligando-se do restante território. A Vila perde economia e ganha em retórica turística e em ficção histórica.
A presidente Margarida Belém quando dá continuidade às políticas de promoção turística já definidas e programadas no Plano Estratégico Concelhio (mandato da Presidência Zola, 1995), “resolve” de forma fictícia alguns destes problemas, criando a sensação de que tudo vai bem no “reino de Alice”. Infelizmente, os seus mandatos excessivamente coloridos em torno da propaganda turística, são a prova de que o concelho não conseguiu mobilizar, nem recentrar a economia nos territórios.
A economia turística trouxe a esses territórios capacitação e empreendedorismo, mas não promoveu uma economia resiliente, capaz de fabricar bens materiais a partir do local para o global. A economia local não soube valorizar a mão-de-obra jovem e qualificada, não implementou nichos de inteligência aplicada ao território. Vejamos o caso do Geoparque Arouca transformado numa agência de promoção turística e política.
A nossa Câmara não preparou a estrutura económica e ambiental para dar resposta aos problemas que a economia turística levanta em contextos locais de baixa densidade. A introdução de grandes equipamentos hoteleiros e de desporto de elite, serão factor de desequilíbrio na lei da oferta e da procura imobiliária e no acesso à habitação e à terra por parte dos locais residentes. Um problema grave para a sustentabilidade social, económica e demográfica da Vila de Arouca, se não forem acompanhados com políticas municipais de justiça social e coesão territorial. Urgente a implementação de uma política de solos municipais para a promoção do direito à habitação e ao lugar em benefício dos locais. A possibilidade de uma taxa municipal para aqueles que querem investir na área do alojamento turístico e hoteleiro.
Os resultados das eleições de 18 de maio também permitem leituras e conclusões a nível concelhio. Em Arouca o cenário sofreu algumas alterações. O PSD em aliança com CDS/PP registam preponderância numérica com 53,51% dos votos (= 6.941 votos), dando sinal de uma clara subida em relação aos 44,08% (= 5.919 votos) de 2024; o PS desce dos 24,52% em 2024 para os 16,54% de 2025. Mantém-se a regra de um eleitorado convicto do voto no PSD/CDS para as eleições nacionais, ao mesmo tempo que recusa o PSD local, retirando-lhe o seu apoio; enquanto o eleitorado arouquense quebra o seu vínculo de confiança com o PS de Margarida Belém e António Tavares. Nas últimas eleições autárquicas o PS conseguiu 50,32% dos votos, enquanto o PSD/CDS/PPM obtiveram 41,27% dos votos. Estamos perante uma situação em que o eleitorado que vota convictamente no PSD para as eleições nacionais (Assembleia da República e Presidência da República), recusa de forma categórica as propostas e, respectivos candidatos para o governo municipal. Esta situação coloca algumas interrogações. A primeira, não terá o PSD personalidades com carisma e competência para disputar e agregar o seu eleitorado base? Quando personalidades locais, com méritos profissionais na saúde, no associativismo, sector social e no sector empresarial: casos de Victor Brandão, Manuel Artur Miler e Fernando Mendes. Qual a razão de este deslaçar entre eleitorado e partido? Qual a razão que impede que figuras com esta dimensão humana e social não possam disputar as eleições e destronar o PS em Arouca? Figuras com provas dadas na sua vida profissional e no ativismo cultural e social. Porque será que o eleitorado que vota convictamente no PSD a nível nacional não se sente motivado para votar no PSD local. Penso que o grande problema está na máquina do PSD, na origem do PSD, nas famílias que dominam o PSD. Um PSD refém do passado e dos interesses não merece a confiança do seu próprio eleitorado. Será também mérito do PS. Claro que sim, mas não podemos ignorar as asneiras, as incompetências, as mediocridades e os abusos que habitam nesse partido. Fernando Matos Rodrigues (foto: Avelino Vieira)