Abril, mês da Primavera e da Liberdade

Abril é para mim o mês mais bonito do ano. Os pássaros cantam e voam livres pela natureza, bebericando nos riachos e contemplando o verde das árvores enquanto relaxam atentos. Alguns iniciam uma tarefa árdua, mas profícua, construindo ninhos para as novas vidas que se avizinham. As árvores e outras plantas cobrem-se de flores coloridas que embelezam a alma, e apaziguam aqueles que as observam com atenção.

O frio vai desaparecendo aos poucos, o sol espreita com mais intensidade, o mar acalma e as montanhas verdejantes iluminam-se.

A Primavera é uma espécie de magia onde até o nosso humor melhora, se estivermos disponíveis para a sentir e observar. É um tempo de renovação e de crescimento.

Foi também em Abril, naquela bela Primavera, que a coragem decidiu sair à rua. Homens e mulheres romperam com um regime ditatorial e opressivo, onde as vozes do povo se calavam e retraiam. A Revolução dos Cravos, a 25 de abril de 1974, marcou esse momento de viragem, ficando para sempre como o dia da Liberdade.

Hoje, mais de 5 décadas depois, é importante lembrar que a Liberdade não é um dado adquirido, é uma construção contínua. É preciso continuar a defendê-la, sobretudo a liberdade de expressão e de pensamento, que só se concretiza plenamente numa sociedade que sabe refletir criticamente.

É aqui que a educação assume um papel central. Mais do que transmitir conteúdos, a escola deve ensinar a pensar, a questionar, a interpretar o mundo. Quando os currículos se afastam desse objetivo, arriscamos formar cidadãos menos preparados para exercer a sua liberdade de forma consciente.

Quando se discute retirar Saramago de leitura obrigatória no secundário não estamos apenas perante uma questão curricular. Saramago não é apenas literatura, é pensamento crítico, é questionamento, é desconforto. E é precisamente esse desconforto que uma democracia madura deveria proteger, não eliminar. Uma escola que não incomoda, não educa verdadeiramente. Uma escola que não desafia não forma cidadãos, forma apenas repetidores. Retirá-lo do percurso obrigatório pode ser lido como o receio de confrontar os alunos com ideias que obrigam a pensar mais fundo, a discordar, a duvidar.

Seremos verdadeiramente livres quando todos tivermos voz, mas também quando a soubermos usar com consciência, com justiça, e com responsabilidade.

Seremos livres quando questionarmos, quando duvidarmos, quando procurarmos compreender antes de aceitar, quando não tivermos medo de pensar contra a corrente, de interpretar o mundo e de não aceitar respostas fáceis. A liberdade não vive apenas no direito de falar, mas na capa cidade de pensar criticamente de forma a contribuir para o bem-estar coletivo.

Temos de estar todos muito atentos pois há quem queira fazer sua, a nossa liberdade. E já agora, façamos um “Ensaio sobre a cegueira” (in Saramago). Lara Pinho

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