Bem sabemos que, hoje, as coisas são mais as percepções que temos (ou nos mostram) sobre elas, e que estudos há-os para todos os gostos e tendências de opinião. Ainda assim, e sabendo tudo isto, vale a pena pensar sobre o que nos diz um relatório europeu sobre dinâmicas sociais da juventude.
O Jornal de Notícias de 7 de Maio publica uma reportagem em que mostra, com base neste estudo, que, «afinal os jovens rurais não querem fugir para a cidade». Contrariamente à tendência, ou à percepção de tendência, mais de 76% dos jovens inquiridos para este estudo afirmam que querem permanecer nas suas terras (rurais) de origem. Longe vão os tempos em que os mais jovens contavam o tempo para poderem sair para as universidades, com a ideia de não voltarem e, pior do que isso, com o preconceito de acharem que os outros os iriam achar parolos, campónios ou «da aldeia», com toda a carga negativa que aqui possamos colocar.
Hoje, a questão que se coloca já não é sobre a identidade dos territórios, mas sobre as condições que oferecem (ou não) para reter os mais jovens. Se não houver um investimento estruturante, que incida sobre as acessibilidades e os transportes, as condições de emprego, a inclusão e a possibilidade de uma participação activa na comunidade, em educação/formação e em serviços públicos de proximidade, o despovoamento fica facilitado. Se houver, os jovens qualificados são os primeiros a afirmar que querem permanecer.
De facto, é sobre a mobilidade que surgem as maiores preocupações. Sem uma rede de transportes públicos robusta e sem ligações rodoviárias decentes (e Arouca é um bom exemplo de como é difícil «dar a volta» a estas dificuldades), o acesso ao emprego torna-se, como podemos ler na reportagem, «limitado e desigual». Por isso, ou apesar disso, estes jovens «aceitam deslocar-se para trabalhar ou estudar, mas querem manter as raizes no território».
Por outro lado, é apontada ao Estado uma «visão burocrática» sobre este assunto, com poucas medidas de apoio e falta de uma abordagem diferenciada (personalizada) a estes casos. O Estado Social é mais frágil nos territórios do interior. Pela falta de serviços, pela distância a que estes acabam por ficar, pela falta de infraestruturas, por tudo o que já vimos, e sabemos.
Em suma, é na questão das acessibilidades que tudo se resume. No caso concreto de Arouca, facilmente o sentimos ou temos, pelo menos, essa percepção. Se os movimentos pendulares fossem mais fáceis, se as distâncias fossem reduzidas, se as condições de deslocação fossem melhores, não só esses movimentos pendulares seriam mais fluidos, como seria possível investir de forma mais assertiva, ganhar outra dinâmica económica, atrair outros níveis de investimento, e, com isso, potenciar a fixação de jovens.
As questões em torno da Via Estruturante já não são de paternidade (ou maternidade). Já não são sobre quem faz o quê. Já não são sobre o que se está a fazer e o que será feito para que ela seja, efectivamente, uma realidade. As questões são, de facto, estruturantes. São todas essas questões que se colocam (e que se resolvem, mesmo que passo a passo) depois da sua conclusão. O pensamento político e o pensamento de cada um de nós tem de deixar de ser a quatro, oito, doze anos, tem de deixar de estar focado em ciclos eleitorais, em que os seguintes optam por demolir tudo o que está para trás e projectam construir algo a (e de) curto prazo. Temos de pensar de forma estruturante, estratégica, de olhos no futuro. Pensando onde e como queremos estar daqui a 20, 30, 40 anos, e o que temos de fazer para lá chegar. Colhendo, a 5, 10, 15 anos, os frutos normais de uma semente bem germinada. De outra forma, continuaremos todos a sofrer deste mal. O de não querermos tirar a nossa raiz da terra onde ela se fixou, mas termos todas as forças a puxarem-nos em sentido contrário.