Estudar mais para ganhar menos?

Durante anos, venderam-nos uma promessa simples: estuda, entra na universidade, tira um curso e terás um futuro melhor. Era quase uma fórmula matemática. Quanto mais estudasses, mais oportunidades terias. Hoje, essa equação parece estar cada vez mais longe da realidade.

Nunca houve uma geração tão qualificada em Portugal. Nunca tantos jovens tiveram acesso ao ensino superior. E, no entanto, nunca foi tão comum encontrar licenciados a receber salários que mal chegam para pagar uma renda, a viver em casa dos pais até aos 30 anos e a procurar no estrangeiro aquilo que não encontram no seu próprio país.

Perante este cenário, muitos passaram a dizer que universidade perdeu utilidade. No entanto, essa conclusão é precipitada.Os dados continuam a mostrar que, em média, quem possui formação superior têm melhores perspetivas de emprego, menor risco de desemprego e salários mais elevados ao longo da vida. Além disso, há profissões fundamentais para a sociedade — médicos, engenheiros, professores, advogados ou investigadores — que simplesmente não existiriam sem ensino superior.

Reduzir a universidade a uma fábrica de trabalhadores é um erro. O seu valor vai muito além do salário. A universidade ensina a pensar, a questionar, a analisar problemas complexos e a compreender melhor o mundo.

O problema não está na universidade, mas na crescente incapacidade do mercado de trabalho para recompensar o investimento que ela exige. Diz-se aos jovens que o conhecimento é a chave para o sucesso, mas muitos descobrem que um diploma já não garante estabilidade, independência financeira ou progressão profissional.

Esta contradição é particularmente evidente quando vemos licenciados altamente qualificados a aceitar empregos abaixo das suas competências ou a emigrar para países que valorizam melhor o seu trabalho. Ao mesmo tempo, algumas profissões técnicas, durante muito tempo menosprezadas, oferecem hoje salários e oportunidades que muitos diplomados invejam.

Portugal encontra-se, assim, perante um paradoxo. Nunca investiu tanto na formação dos seus jovens, mas continua a perder muitos deles para o estrangeiro ou para a desmotivação. O problema não é haver demasiados licenciados; é existir uma economia que continua a depender de salários baixos e de setores com reduzida valorização da qualificação.

Por isso, a questão não deve ser se a universidade vale a pena. Vale. O conhecimento continuará sempre a ser uma das ferramentas mais poderosas de progresso individual e coletivo. A verdadeira questão é outra: porque é que uma sociedade que incentiva os jovens a estudar cada vez mais continua incapaz de lhes oferecer oportunidades à altura desse esforço?

Enquanto essa pergunta permanece sem resposta, a promessa de que estudar garante um futuro melhor continuará a soar menos como uma certeza e mais como uma esperança e uma questão de sorte… Jacinta Cunha

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