Despovoamento e desertificação: porquê distinguir?

Quando ouvimos falar nos “problemas do interior”, o conceito de desertificação vem à baila. Com frequência, a desertificação é apresentada como sinónimo da perda de população no interior. E é certo a formulação lata de “desertificação” inclui também o conceito de diminuição da população. Mas considero que, formulando o fenómeno desta forma lata, trazemos ambiguidade a um problema que é mais específico.

Comecemos pelos conceitos específicos. Desertificação é um processo ambiental que implica a degradação dos solos e vegetação, resultado de práticas inadequadas ou à recorrência de incêndios. Despovoamento é um fenómeno demográfico que implica a saída de pessoas de um território, diminuição da população ativa e da massa crítica do território. Ora, quando ouvimos falar de desertificação geralmente quer-se dizer que existem menos pessoas (jovens) no interior. Não distinguir despovoamento e desertificação tem o inconveniente de remeter a discussão para a métrica da população. Não é, necessariamente, uma questão de números. 

Vejamos os problemas que podem estar associados a cada conceito. Poderemos ter um aumento da população num território rural e, ainda assim, assistir à sua desertificação, se essa população usar o território como simples dormitório ou for na sua maioria não ativa, deixando o território sem uma gestão/ utilização adequada. Por outro lado, com as tecnologias atuais na agricultura e floresta, é possível reduzir a população (incluindo a ativa) sem que isso implique desertificação. Isto porque pode continuar a existir uma gestão eficiente do potencial do território, ainda que com menos gente. Por fim, sem uma gestão adequada dos solos e paisagem, podemos ter desertificação ambiental mesmo com aumento populacional.

Em simultâneo, diga-se, um fenómeno de desequilíbrio social e económico – mesmo que sem despovoamento ou desertificação – pode não garantir qualidade de vida, resultando numa espécie de “feudalismo moderno”, com emprego e economia, mas com benefício de poucos. O território estará vivo, viverão os mesmos por lá, mas uns quantos viverão piores. 

Assim, confundir despovoamento e desertificação pode levar a políticas erradas, tratando um problema como sendo outro. Se a métrica for a quantidade de população, podemos deixar de lado a qualidade ambiental, os ecossistemas, ou desvalorizar a capacidade/ massa crítica social e económica. Se a métrica for o uso do solo, poderemos não compreender fenómenos de desigualdades, dinâmicas migratórias ou vulnerabilidades demográficas. Cada fenómeno exige indicadores próprios e distinguir é chave para ter respostas eficazes. Assim, poderemos ter uma aposta na digitalização, infraestrutura de transportes ou serviços de rede como estratégia de combate ao despovoamento, e estratégias de agricultura regenerativa, gestão florestal ativa ou serviços de ecossistema como estratégias de combate à desertificação. 

A ambiguidade – no conceito, na discussão e na resposta – não ajuda a encontrar soluções. Por isso, importa distinguir para garantir que a estratégia de resposta é adequada.


A ler: Labor market impacts of AI: A new measure and early evidence [https://www.anthropic.com/research/labor-market-impacts]

A Anthropic, uma empresa de referência no setor da IA, analisa neste artigo como a Inteligência Artificial poderá afetar o mercado de trabalho; quem ganha, quem perde e que riscos existem na concentração de poder e/ou rendimento. A leitura ajuda a perceber que, tal como nas políticas rurais, é essencial assegurar que o valor do progresso tecnológico não fica capturado por poucos e serve a todos.

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