O mundo de muletas

Há cerca de três meses que preciso do apoio de muletas para conseguir caminhar. Aquilo que parecia ser uma intervenção relativamente simples, com recuperação rápida, acabou por transformar-se numa pausa forçada. E, em pausa, rapidamente percebi que, mais do que dois apoios, mais do que a limitação física, carrego duas lentes para olhar o mundo de outra forma. Se, por um lado, encontro os que se movem para ajudar, antes mesmo de me olharem nos olhos, encontro, por outro, os que preferem olhar e observar como me desenrasco. Do meu lado, balanço entre a fragilidade de quem precisa de ajuda e a força de quem já vai estando adaptado à nova forma de locomoção. Se houve momentos em que me abriram portas, cederam lugares, esperaram, com paciência, que eu subisse os degraus, um a um, houve também olhares desviados, passeios bloqueados, indiferença pela ‘condição’ (afinal, ele pode esperar de pé pela vez dele, como qualquer um). Percebi, assim, que a minha lentidão não está sintonizada com um mundo desenhado para andar depressa, para quem nunca tropeça, para quem nunca pára. Percebi que talvez não haja maldade verdadeira, mas apenas esquecimento, desatenção, uma espécie de egoísmo confortável de quem não precisa de se justificar, porque, afinal, ‘não é nada connosco’.

Passou-me pela memória, nesta lentidão que convida à soltura de pensamentos, uma entrevista de Umberto Eco, em que, em menos de um minuto, nos explica, ‘direitinho’, o que são o ódio e o amor, e o que cada um promove. O amor é selectivo, restritivo, se amamos alguém exigimos retorno, e não pluralidade. Já o ódio é generoso, caloroso, une as pessoas umas contra as outras. Por isso, os políticos o usam com frequência. Um governo nunca nos pede que nos amemos uns aos outros, antes que morramos na luta contra o inimigo. Então, a única forma de escaparmos do ódio, segundo Eco, não é o amor, mas o humor.

Se a sociedade se organiza de forma a apagar os que caminham mais devagar – literal ou metaforicamente – está, ainda que sem intenção explícita, a cultivar terreno fértil para o ressentimento. O mundo vai esquecendo os que caem, para que os que correm não sejam atrasados. E quem tropeça, tropeça duas vezes: uma no chão, outra na negligência alheia. Então, talvez o remédio seja rirmo-nos de nós mesmos, antes que outros o façam, e convidando os outros a fazê-lo, antes que o não façam.

E se a rua é um campo minado, que dizer das redes sociais? Também aqui, Eco teve uma palavra a dizer sobre o assunto. «As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho, e não faziam nenhum mal à comunidade. (…) Imediatamente os calávamos, enquanto hoje eles têm o mesmo direito de palavra do que um prémio Nobel. É a invasão dos imbecis». A estupidez tornou-se viral, e já não falamos apenas na falta de inteligência, mas na ausência de filtro, de responsabilidade, de vergonha.

Pelas ruas e praças digitais, não temos muletas que nos amparem. Aliás, esses espaços, que poderiam e deveriam ser de diálogo, são trincheiras, «nós contra eles», em vez de «nós com eles». E se na rua ainda podemos contar com alguém que nos segure a porta, nos ceda o lugar e nos ampare antes mesmo de nos olhar nos olhos, nas redes, não só não nos olham, como nos fecham a porta na cara com gosto, nos ocupam o lugar com ironia estúpida e não nos olham ou amparam, mas antes agridem.

Três meses depois, e com mais alguns na mira, penso que talvez o mundo precise de mais tropeços e de mais quedas. De mais pausas forçadas e de mais tempo para olhar em redor. Porque o tempo do outro, esse tempo invisível e lento, pode ainda ser de outra coisa que não do ódio. Talvez do amor. Ou do humor. Talvez do esforço, da presença, da coragem para olharmos, vermos e observarmos para além de nós mesmos.

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