O fogo já percorre a nossa paisagem há milhares de anos, com o qual temos uma relação de amor e ódio, de empregado e de patrão. Muitas espécies animais e vegetais evoluíram e adaptaram-se em consonância com os ciclos de fogo, estabeleceram estratégias de sobrevivência ao fogo e são estimulados pela passagem do fogo. Este é um facto indesmentível em Arouca, Portugal ou no resto do mundo.
Posto este preâmbulo, importa referir que os incêndios florestais a que temos assistido e a dimensão da área ardida só espanta quem não anda no mundo rural e não observa o abandono a que está entregue. Claramente, e já escrevi por várias vezes, temos um problema de falta de gestão, decorrente de vários factores, e uma produtividade primária elevada. Esta produtividade primária elevada resulta de temperaturas favoráveis e disponibilidade de água para o crescimento de ervas, arbustos e árvores. Se cada vez mais temos menos pessoas nesses territórios rurais com capacidade para fazer gestão de combustíveis, os chamados matos, vamos ter todos os anos uma elevada disponibilidade de matos para alimentar o próximo incêndio que escapar ao sistema de combate. É inevitável. Também é inevitável que quanto mais eficiente seja o sistema de combate, consiga resolver o incêndio nos instantes imediatos. Assim, se nada for feito, o próximo incêndio que escapar, e acabará por escapar, será mais devastador e com maior dimensão. É o que temos assistido ao longo dos anos, apesar da eficiência do sistema de combate na resolução de incêndios na primeira intervenção. Aqui convém salientar que temos assistido, desde há uns anos a esta parte, à priorização para a defesa de pessoas e bens e a uma secundarização do combate florestal. E por este caminho temos perdido a batalha da redução da área ardida. Claro está que tem trazido o problema da perda das oportunidades de combate no interior da floresta e uma ampliação dos incêndios. Quiçá, se não estará na hora de dividir o sistema de combate com cariz de protecção civil e combate iminentemente florestal?
Da parte da gestão dos espaços rurais, conhecida como a parte da prevenção, o empenho e os meios não têm sido os mesmos. Os factores que contribuem para a falta de gestão também são muito mais complexos e envolvem especialmente a ausência de economia das actividades rurais que permitam remunerar de uma forma digna as pessoas dispostas a gerir e a rentabilizar o seu tempo nesses territórios cada vez mais despovoados. E não se iludam sobre medidas para chamarem pessoas para viverem nessas áreas do nosso território interior. Esse objectivo nunca será conseguido e nunca conseguiremos regressar ao passado das aldeias cheias de vida. Desta forma e observando esta inevitabilidade, temos de dignificar o trabalho de quem ainda resiste nesses territórios e desenvolve as diversas actividades ligadas à agricultura, pecuária, pastorícia, apicultura, floresta, turismo, etc. Quem atribui valor económico a uma certa actividade cuida e gere. Pelo contrário, uma atividade que não remunere condignamente quem dela depende, será abandonada a curto prazo. É o que se passou na agricultura envolvente às aldeias, nas áreas florestais e nas áreas agrícolas emaranhadas no interior da floresta. De alguma forma, foram substituídas por actividades mais rentáveis ou simplesmente abandonadas.
Por outro lado, quando ocorrem graves incêndios florestais, assistimos ao circo da legislação compulsiva, da constituição de comissões e da formulação de uma panóplia de programas de apoio, definidos e construídos nas metrópoles, à revelia de qualquer contributo das principais vítimas do abandono do meio rural. Já existem estudos e planos suficientes, basta cumprir o que está nesses documentos. Já para não falarmos dos “especialistas” das redes sociais, com as histórias de conspirações, com a culpa exclusiva de incendiários, com o bode expiatório do eucalipto, com a mirabolante ideia do lítio e outras histórias da carochinha. Basicamente, como já referi atrás, estamos perante um problema sociológico e de economia. Se não formos capazes de o resolver, teremos cada vez mais incêndios com redobrada dimensão e um mundo rural entregue à sua sorte. E nada adianta querermos soluções simplistas para problemas complexos, porque pura e simplesmente a realidade não segue esse guião. Infelizmente, conforme se constata pelo pós-incêndio e pelas medidas já conhecidas, queremos que iguais estratégias resultem em diferentes resultados. Não sei se é ignorância ou simplesmente burrice. (foto: Avelino Vieira)