O dilema do pai do bombeiro

Em pleno verão, o país volta a arder. As imagens de chamas a consumirem matas, casas e vidas enchem os noticiários e redes sociais. Cada um á sua maneira, sofre com o resultado de tal drama. Os que estão longe e gostariam de ajudar, os que estão perto e desejariam que tudo fosse para longe.

Em cada foco de incêndio, estão os rostos cansados mas determinados dos bombeiros que, ano após ano, enfrentam o inferno com mangueiras nas mãos e coragem no coração.

É tempo de falar, não só da tragédia das chamas, mas da solidariedade que se acende quando tudo parece perder-se – e das contradições humanas que esse cenário evidencia.

Há uma grandeza silenciosa no trabalho dos bombeiros.

São, sempre, voluntários e abnegados seres. Homens e mulheres que largam os seus empregos, as suas famílias, o conforto do lar, para servir uma comunidade inteira. São tudo isso, sem o merecido reconhecimento que só nestas horas se legitima.

Há, aqui, um profundo ato de humildade: o reconhecimento de que a vida do outro importa tanto quanto a própria. Quando alguém decide vestir a farda dos bombeiros, não o faz por vaidade ou lucro.

Fá-lo por um sentido de propósito maior. Fá-lo por uma inquestionável empatia pelo seu semelhante.

Num país onde os incêndios ganham proporções quase épicas e a estrutura de resposta continua insuficiente, esse ato de entrega é ainda exponenciado.

Mas há um outro lado. O lado de quem sofre em silêncio.

Esse é o dilema do pai ou da mãe quando vê o próprio filho colocar-se em perigo para salvar outras vidas.

Pensa, primeiro, no filho. Seria desumano negar. Pensa no toque do telefone fora de horas, no som das sirenes a rasgar a madrugada, na imagem da farda suja de fumo a entrar porta adentro. E, no íntimo, nasce um sentimento que muitos relutam em admitir: um certo egoísmo.

A vontade de o querer a salvo, de desejar – ainda que por um segundo e com culpa – que não vá, que fique, que alguém o substitua.

Esse egoísmo não é vergonha: é amor. É a forma primária e visceral de proteger o que é nosso. Mas a maturidade moral começa quando esse amor particular aprende a conviver com o bem comum.

O pai que ama o filho bombeiro, vive numa dupla contabilidade emocional: sofre por um, agradece por muitos; teme pela vida dele, sabe que, por causa dele, outras famílias dormirão em paz. E é nessa tensão que se mede o verdadeiro alcance da solidariedade. É um turbilhão de sentimentos que só quem vive sabe descrever.

Talvez estejamos a ver ao contrário. Talvez o verdadeiro egoísmo seja dos que esperam que os outros façam o trabalho duro, os que se encolhem à sombra da crítica, enquanto alguém corre para o mato em chamas.

Ter um filho bombeiro é duro, sim. Implica medo, ansiedade, noites sem dormir. Mas é, também, um orgulho difícil de descrever. Porque ele – ou ela – escolheu servir. Escolheu dar.

O país precisa de mais gente assim. Precisamos resgatar a noção de comunidade, de responsabilidade coletiva. E talvez, ao vermos os bombeiros em ação, devêssemos pensar mais em “abraçar uma missão”.

Afinal, que sociedade queremos construir, senão uma onde os nossos filhos se orgulhem de cuidar dos outros, mesmo quando isso implica sacrifício?

A cada incêndio, arde um pouco da nossa floresta. Mas também se revelam as nossas prioridades. Que o fogo nos ensine a valorizar quem escolhe apagar mais do que as chamas – aqueles que, com humildade, se levantam pela vida, pela terra, pelos outros.

Mesmo quando o mundo parece arder à volta. Carlos Barbosa

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