Crónica em três partes

EXPOSIÇÃO RE/DESCOBRIR HELENA CARDOSO

No dia 29 de julho estive na inauguração da exposição “Re/Descobrir Helena Cardoso”, com curadoria de Maria Bruno Néo e Luís Mendonça, na Biblioteca de Gaia. Mais do que uma mostra de design ou do (longo e excelente) trabalho desta artista portuense, a exposição reflete sobre os ofícios tradicionais, a ruralidade e também sobre a emancipação feminina. É um trabalho que vai do têxtil ao quotidiano. Do trabalho do campo à modelação da paisagem. Um trabalho sobre pessoas.

Este projeto inclui referências ao trabalho das artesãs arouquenses Dobalinho – de quem tenho, desde criança, memória de ver trabalhar. À margem da inauguração, e ali um pouco mais longe de Tropeço, foi bom conversar com estas minha vizinhas Cristina, Emília e São. Senti a urgência de preservar e transmitir este seu saber, como um emigrante sente, ao longe, saudades da sua terra e da sua cultura. Entre referências a teares e outros artefactos, a exposição visita também outros pontos da serra da Freita (como o burel das artesãs de Arões), em saberes e territórios com grande afinidade cultural com o nosso concelho.

Lamento que a exposição não passe por Arouca. Assim, recomendo vivamente a sua visita em Gaia, até final de setembro, ou futuramente num município limítrofe.


OS INCÊNDIOS (OUTRA VEZ)

Seria impossível escrever algo este mês sem tocar no tema, embora os incêndios, infelizmente, não sejam uma novidade ou uma surpresa. Ano após ano, vemos a repetição de um padrão que leva décadas, em que 2005, 2015, 2016 e 2017 persistem na memória. Este ano, como em tantos outros, arderam terrenos, poupanças e projetos.

Queimou-se a esperança de quem, cada vez mais envelhecido, ainda resistia. “Vimos, uma vez mais, parte do nosso concelho a ser devastado pela fúria das chamas”, escreveu a presidente da Câmara. A exaustão do momento justificará a resignação subjacente à afirmação, mas não pode moldar o futuro. A ausência de gestão florestal, o abandono rural (também acelerado por estes eventos) e a falta de políticas estruturais tornam cada verão uma ameaça. Sabemos que é necessário um investimento sério na economia da floresta e um planeamento multiescalar – que deve ser alavancado e coordenado, por exemplo, com investimentos na transição energética (parques solares e eólicos). Pensar apenas em imposições regulamentares crescentes levará apenas ao abandono de terrenos, à proliferação de espécies invasoras e à continuação da destruição cíclica do território – com eventos cada vez mais frequentes e com maior gravidade. É de mudar com o que aprendemos. É hora de agir.


O ESPAÇO PÚBLICO A QUEM SERVE?

Um casamento recente trouxe à discussão o uso do espaço público, num paralelo local com outras discussões ocorridas este ano em Veneza ou nas praias da Comporta. As reservas de espaços públicos implicam inevitavelmente críticas e, anacronicamente, levam à valorização do espaço público. Se uns argumentam que promovem a região, atraem investimento e projetam Arouca; outros afirmam que são uma limitação ao acesso público e uma elitização de lugares comunitários. Penso ser um debate saudável que deve ir além de um só evento – (re)pensando o que é o acolhimento ou até o espaço e a sua vivência. Como afirmou Paula Teles no JN, “o metro quadrado mais valioso da cidade (…) é o do chão, onde caminhamos.” Não tenho conclusões definitivas, mas assinalo como positiva a reflexão conjunta.

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