A saúde mental não pode ser um fogo de artifício político

Em outubro passado escrevi neste jornal um artigo de opinião sobre a saúde mental onde manifestei apreço pelo projeto “Quinta Social Inclusiva e Comunitária”, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que estaria a decorrer na Quinta do Reguengo. Esta iniciativa acolheu pessoas com doença mental, entre os 18 e os 65 anos, com o objetivo de desenvolverem competências pessoais, sociais e profissionais, com vista à sua integração social. Era um projeto importante, necessário e que poderia fazer a diferença no concelho de Arouca.

No entanto, nesse mesmo artigo deixei também um alerta: temia que este fosse mais um projeto com data marcada para terminar, sem garantias de continuidade.

Infelizmente, foi exatamente isso que aconteceu.

Assim que terminou o prazo do financiamento (dezembro de 2025), a Câmara Municipal de Arouca não deu continuidade ao projeto. Os técnicos e os utentes foram simplesmente mandados para casa. Foi mais um projeto, entre tantos outros, que acabou, mais uma esperança que se desmoronou.

Entretanto, as obras na Quinta do Reguengo continuam [foto], o que significa que o projeto terminou antes mesmo de estarem concluídas todas as intervenções previstas para o espaço. Ainda mais grave: não foi assegurada a continuidade do trabalho técnico especializado que estava a ser desenvolvido.

A reabilitação psicossocial das pessoas com doença mental exige continuidade. Não pode ser interrompida a meio sem consequências sérias para a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida de quem dela depende. A saúde mental tem de ser tratada com a mesma seriedade que qualquer outra área da saúde.

Imagine que fraturava o fémur e, por isso, ficava com a mobilidade comprometida, necessitando de um processo de reabilitação para voltar a andar. Imagine que começava os tratamentos num espaço preparado para esse efeito, com profissionais especializados e que, de repente, quando ainda nem sequer tinha recuperado a capacidade de andar sozinho, lhe diziam simplesmente para ir para casa, sem qualquer continuidade no tratamento.

Qual seria a consequência?

É exatamente disto que estamos a falar. A diferença é que os problemas de saúde mental não são visíveis como uma fratura no osso, mas necessitam da mesma continuidade de cuidados.

Como se não bastasse, no passado dia 9 de janeiro foi promovido pela Câmara Municipal um evento de encerramento do projeto, como se o fim de uma resposta social desta importância fosse motivo de celebração.

Se queremos verdadeiramente uma sociedade mais justa, o apoio às pessoas com doença mental e às suas famílias não pode terminar com o prazo de um financiamento ou com o ciclo de um mandato autárquico.

Os arouquenses merecem compromissos firmes e duradouros. Não fogos de artifício momentâneos.

A saúde mental é um investimento na dignidade humana, e a dignidade humana não tem prazo de validade.

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