O ano político que agora termina fica marcado, a nível nacional, por uma espécie de exercício de sobrevivência. Entre crises sucessivas, anúncios de reformas e a sensação persistente de que o essencial continua a ser adiado, fez lembrar o tempo em que Sócrates construiu uma maioria absoluta sobre uma mentira escrita em cartazes (os famosos 150 mil empregos, que nunca ninguém viu), ou, mais recentemente, a promessa de Luís Montenegro de resolver os problemas do SNS em 60 dias. Quando se está em campanha, tudo é possível. Quando se é poder, tudo é impossível, porque estava pior do que se dizia. Por outro lado, quando as coisas são olhadas a partir de Lisboa, tudo parece urgente. Quando o são a partir de Arouca, nem sempre tudo parece tão prioritário. O que também nos leva a outra observação interessante: o PSD prometeu consignar o troço que falta da Via Estruturante em Fevereiro deste ano, assim como inscrevê-la nos Orçamentos de Estado. Quem se lembra? Mas não é tanto a distância entre poder e oposição que nos importa, antes a que nos é imposta entre Lisboa e nós. E é nessa distância — não apenas geográfica, mas sobretudo política — que se constrói uma parte importante da leitura deste ano.
Em Arouca, como em grande parte do interior, a política não se mede tanto por debates ideológicos ou jogos parlamentares, mas pela proactividade e pela acção concreta, para resolver os problemas mais ou menos correntes: os acessos aos lugares e aldeias, os serviços que se querem de proximidade, a promoção de um envelhecimento activo e em comunidade, a criação de condições para que a economia se robusteça. Todavia, fazendo o balanço entre o que recebemos do Estado e o que tivemos de fazer por nós, o ano confirmou aquilo que já sabíamos: o discurso sobre a coesão territorial continua a ser mais eficaz em campanhas, discursos e anúncios do que em obras e acções concretas, orçamentos e medidas aplicadas.
A nível nacional, falou-se muito de estabilidade. Mas estabilidade, para territórios como Arouca, só faz sentido se significar previsibilidade no investimento, continuidade nas políticas públicas e respeito pelas especificidades locais. Caso contrário, é apenas uma palavra confortável para quem governa a partir de gabinetes com vista para os grandes centros urbanos, onde o Estado nunca falha, verdadeiramente. Por cá, quando um serviço fecha ou uma obra atrasa, a alternativa é a ausência ou o termos de ser nós a desenrascar-nos.
Ainda assim, seria injusto dizer que nada se mexeu. Arouca continua a afirmar-se em áreas onde o poder local tem sido determinante: turismo de natureza, valorização do património geológico e cultural, eventos que projectam o nome do concelho para lá das montanhas. O problema é que estas conquistas, embora relevantes, não resolvem as necessidades estruturais (ou a necessidade mais estrutural): de que adianta fazermos o nosso trabalho, se nos continua a ser negado um acesso condigno?
O ano político também mostrou um certo cansaço democrático. A participação cívica parece encolher à medida que cresce a sensação de que as decisões já estão tomadas algures, longe, e que o poder local vive frequentemente condicionado por fundos, programas e calendários que não controla. Em Arouca, como noutros concelhos, a política municipal continua a ser o nível de poder mais próximo das pessoas, mas continua, também, e apesar das delegações de competências, a ver-se, em muitos casos, limitado na sua margem de manobra.
Há, no entanto, algo que este ano deixou claro: os territórios que resistem são aqueles que não desistem de pensar-se. Arouca não fica à espera de decisões centrais; é um município com identidade, recursos e resiliência. Falta, muitas vezes, que essa vontade encontre eco em políticas nacionais menos uniformes e mais sensíveis à diversidade do ‘país real’.
Assim, talvez o melhor resumo do ano político (e, ao mesmo tempo, desejo para o próximo) seja este: enquanto o país continuar a ser pensado a partir de um mapa desigual, concelhos como Arouca continuarão a viver entre a resiliência e a frustração. A política, quando olhada a partir das montanhas, ganha outra nitidez. Perde ruído, mas deixa expostas falhas. Talvez fosse útil que, no próximo ano, quem decide passasse mais tempo a olhar o país a partir daqui — onde a política não é abstrata. É quotidiana.
Aos leitores do RODA VIVA, o desejo de um feliz Natal e de um próspero Ano Novo.
(texto publicado na edição impressa do RODA VIVA jornal de 2025.12.18)