Terá a morte a última palavra no itinerário da existência do ser humano? “Acreditamos na ressurreição”, repetimos maquinalmente.
São alguns os equívocos acerca do entendimento desta palavra, porque ela não é, para os cristãos, uma conclusão de qualquer raciocínio. Ao pronunciá-la, o pensamento foge-nos mais para o que aconteceu com Lázaro ou com a filha da viúva de Naim do que para o que aconteceu com Jesus Cristo.
A Criação é um dinamismo que tem a sua origem e a sua sustentação no Criador, Fonte da Vida. Podemos, assim, falar da vida como uma “criação contínua”, com rumo ao encontro, definitivo e consumado, com o Criador.
Somos chamados à vida em função de um projecto definido na Pessoa de Jesus Cristo e já “consumado” na sua Páscoa: Paixão, Morte e Ressurreição. “Ele é a imagem de Deus, o Invisível, primogénito de toda a Criação, porque nele foram criadas todas as coisas” (Colos 1.15). Em cada um de nós descobrimos “apelos”, “vestígios” ou “sinais” dessa marca original que se manifesta nas nossas aspirações mais profundas, naquilo que somos e que tantas vezes ignoramos ou recusamos assumir. E, por isso, derrapamos para alternativas de que o cepticismo ou a recusa da busca de sentido são eloquente manifestação.
Nesta compreensão das nossas existências balbuciamos algo que nos ajuda a perceber e a viver o que designamos como a nossa “ressurreição com Cristo.”
Nas palavras luminosas de S. Paulo, o Cristão vive numa relação pessoal com Jesus Cristo, que, por sua vez, ’vive em nós o que falta à Sua Paixão’.
Este entendimento configura a nossa fé, que não é meta, mas ponto de partida para um percurso orientado pela Palavra do “Filho de Deus”. Por alguma razão os primeiros cristãos eram chamados e se entendiam a si mesmos como “os da Via”.
Em que acreditamos, afinal, nós, os cristãos? “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, mesmo que morra viverá e aquele que vive e crê em mim, não morrerá para sempre” (João, 11,25), palavras de Jesus.
Ressuscitaremos com Cristo. “Ressuscitar com Cristo” é actualizar a sua Páscoa, fazendo da nossa conduta um processo de “sobrevivência”, um caminho de transformação pessoal na libertação de todas as formas de escravatura , de morte, que desfiguram a imagem que o Criador plasmou nas suas criaturas: respondendo ao ódio com o amor, à violência com a mansidão, à vingança com o perdão, ao instinto do poder com a paz; é, enfim, acreditar que “nos cemitérios só existem as pessoas que lá se deslocam”, como escreveu Bento Domingues. Numa palavra: é percorrer trilhos de libertação resistindo aos tiques de idolatria que nos escravizam a cada passo.
A vida do Cristão é uma “passagem”, uma Páscoa vivida na Esperança activa da Vida Plena que “já” aconteceu em Cristo, mas que “ainda não” se consumou, mas se vai consumando nele, no Cristão.
Seres inacabados, seres em construção, vamo-nos configurando com Jesus Cristo, o projecto segundo o qual fomos criados. A. Teixeira Coelho