“Estórias e Memórias do Ensino em Arouca” no Museu Municipal

“Estórias e Memórias do Ensino em Arouca” é a mais recente exposição patente no Museu Municipal de Arouca e estará aberta ao público até 13 de Abril.  A mostra, inaugurada ontem, sexta-feira, «teve como ponto de partida os episódios do podcast “Naquele Tempo” desenvolvidos no âmbito das provas de Aptidão Profissional (PAP) do Curso Profissional de Multimédia do Agrupamento de Escolas de Arouca pelos alunos Alexandre Tavares e Vitor Gomes, em parceria com o projecto “Idade Maior” do Município de Arouca», refere a organização.

ANTIGAS PROFESSORAS CONTAM COMO ERA NAQUELE TEMPO

Da articulação do projecto escolar multimédia com o trabalho complementar de pesquisa e coordenação do Museu Municipal resultou uma exposição focada numa das vertentes cruciais do progresso social e cultural – a educação, o ensino, o papel da mulher – narrada pelo tratamento documental e enriquecida pelos testemunhos presenciais e em registo digital de cinco antigas professoras arouquenses: Maria do Céu Brandão, nascida em 1927 e natural da freguesia de Tropeço; Maria Fernandes de Almeida, nascida em 1950 e natural de Covêlo de Paivó; Marília Granja Fernandes, nascida em 1941 e natural da freguesia de Moldes; Custódia do Aido Oliveira, nascida em 1954 e natural de Cabreiros; e ainda de Joana Martins, em representação de sua mãe Augusta Martins, nascida em 1949 e natural da freguesia de Moldes.

UMA EXPOSIÇÃO QUE É TAMBÉM UMA FORMA DE RECONHECIMENTO

Esta exposição «junta gerações e é também uma forma do município e da comunidade escolar dizerem obrigado a todos aqueles que ao longo dos anos foram dando contributos ao desenvolvimento concelhio através de partilha de conhecimentos», frisou a vice-presidente da Câmara Municipal, Cláudia Oliveira na abertura do evento, no qual estiveram ainda presentes a direcção do Agrupamento de Escolas de Arouca, professoras Amélia Rodrigues, Ana Isabel Jesus e Helena Rodrigues, o director do Curso de Multimédia, professor Vitor Correia, a coordenadora da Biblioteca Municipal, Isabel Bessa e a coordenadora do projecto Idade Maior do Município, Vânia Gonçalves, entre alunos do curso de Multimédia e participantes no projeto Idade Maior.

ALUNOS ACEDEM À REALIDADE DE OUTROS TEMPOS

«Alunos nascidos no século XXI revisitaram estórias e memórias de cinco professoras que nasceram e lecionaram em Arouca, no século XX. As entrevistas dos alunos a estas cinco professoras que passaram, entre outros lugares, pelas aldeias serranas de Cabreiros, Bustelo, Paços, Regoufe e Covelo de Paivó, permitem-nos ter acesso a histórias de vida, não só das próprias professoras, mas também de muitas crianças, no fundo à realidade de outros tempos», refere a nota informativa alusiva à exposição, cuja apresentação esteve a cargo da coordenadora do Museu Municipal, Ana Cristina Martins, e do director do curso de Multimédia ministrado na Escola Secundária de Arouca.

MEMÓRIAS DO ENSINO

Os primórdios da instrução pública, o combate ao analfabetismo e o progresso social, as vicissitudes da instrução pública feminina, a formação de professores de instrução primária, as mulheres e a educação no Estado Novo e os preciosos testemunhos audiovisuais colhidos pelos alunos junto das ex-professoras que durante décadas ministraram em aldeias remotas de Arouca constituem relevante contributo para a compreensão da evolução do ensino e da educação em Arouca que pode ser apreciado até meados do mês de Abril.

«O LEITE DISTRIBUÍDO NA ESCOLA ERA TIRADO DAS VACAS DO LUGAR E CHEGAVA NUM CANADO»

«Os alunos iam descalços para a escola», recorda a professora Marília Granja Fernandes, que chegou a ter «42 crianças distribuídas por duas salas», aulas que dava apenas a meninas numa altura em que a separação dos sexos era assunto normativo. Maria Fernandes de Almeida tirou a carta em 1979 e «na sua carrinha de caixa aberta levava os alunos a fazer piqueniques e trazia-os às festas da escola da Vila.» Aos 97 anos, Maria do Céu Brandão (na foto de capa, acompanhada pela filha e por uma ex-aluna) destaca os tempos em que foi regente na aldeia de Regoufe de 1955 a 1959. Habitava e tinha o Posto Escolar no interior do Complexo Mineiro – «era tratada como uma rainha», confessa, recordando ainda a forma como «os alunos eram bem-educados». Custódia Oliveira «chegou a ter 33 alunos de todas as classes». «O leite distribuído na escola era tirado das vacas do lugar e chegava num canado. Mais tarde o leite passou a vir em pacotes», conta a professora natural de Cabreiros.

Tempos de lousas de ardósia no lugar de cadernos e de recreios onde os pequenos alunos jogavam à macaca, ao prego, ao pião, às escondidas e ao lencinho. Tempos em que vencer como mulher era um desafio de todos os dias e não estava ao alcance de todas.

«A IDEIA DE ENTREVISTARMOS APENAS MULHERES NÃO FOI UMA DECISÃO ALEATÓRIA»

Entusiasta do projecto multimédia que culminou nesta apresentação pública, o professor Vitor Correia explicou os contornos em que o mesmo se realizou.

«Os nossos alunos têm trabalhado em colaboração com o Projecto Idade Maior. A ideia de entrevistarmos apenas mulheres não foi uma decisão aleatória. Tem a ver com o facto de muitas delas terem exercido a sua profissão no Estado Novo, onde, como todos sabemos, a profissão de professor, ou até de qualquer outra profissão, estava vedada a muitas delas.  A norma era haver uma sociedade mais machista. Portanto, são poucos os casos daquelas que conseguiram chegar a essa profissão», referiu o docente.

«Os alunos, finalistas do curso, agarraram o projecto e, em articulação com o Museu Municipal e o projeto Idade Maior, chegamos a esta exposição que dá a conhecer muito daquilo que foram as circunstâncias em que se foi fazendo a escola em Portugal e, essencialmente, no nosso município», acrescentou Vitor Correia, que agradeceu ainda a cooperação e a disponibilidade de todos os intervenientes. Manuel Matos/RV (texto e fotos)

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