Da aldeia de Cabreiros para o mundo da Poesia

Octogenário de gigante vivacidade, Fernando Martins Alves esteve mais uma vez em Arouca para apresentar o seu mais recente livro de poesia intitulado “Fases”, uma obra dividida em dois volumes (“Fases I” e “Fases II”) «por sugestão da editora», confessou. Em finais de Maio de 2023, o escritor nascido na aldeia serrana de Cabreiros esteve na Biblioteca Municipal de Arouca para expor a sua criatividade poética patente em “Do Raiar ao Crepúsculo”. Voltou agora, novamente acompanhado por sua amiga Conceição Lima, conhecida professora e especialista na divulgação de poesia na Rádio Vizela, a quem coube, mais uma vez, dissertar sobre o autor e sua nova obra.

«Sou cego, mas vejo longe»

O autor, filho de pais agricultores, nasceu na aldeia serrana de Cabreiros em 1939, muito novo partiu para Peso da Régua e daí para a cidade do Porto onde se instalou e foi funcionário público, depois de ter abandonado o seminário por força de uma doença que lhe foi tirando a visão.  Casou e tem um filho, mas a música e sobretudo a poesia tomaram conta da sua personalidade resiliente e inspiradora, apesar da perda da capacidade de ver fisicamente o mundo. «Sou cego, mas vejo longe. Vejo para dentro e vejo para fora», diz, com naturalidade desafiante.

Dos cantares de Cabreiros à superior análise de Conceição Lima

Agora, na Biblioteca D. Domingos de Pinho Brandão, a capacidade e a sensibilidade poética do autor voltaram a dominar a sessão realizada a 6 de Setembro, uma iniciativa do município que esteve representado pela vice-presidente da Câmara Municipal e vereadora da Cultura, Cláudia Oliveira. «Um autor de origem serrana, com muito talento e apreço às artes. Apesar das dificuldades, Fernando Martins Alves é para nós um exemplo na forma de encarar a vida», frisou a autarca. Precedida da actuação de um grupo de cantares de Cabreiros, Tebilhão e Candal, a pormenorizada interpretação da apresentadora Conceição Lima foi lição excelente sobre a poesia e o poeta.

A vida como matéria-prima

«Em todos os livros que conheço do Fernando, a vida é a matéria-prima com que faz todos os poemas. Ele aproveita tudo o que lhe toca, uma memória, uma flor que conheceu, pessoas que marcaram a sua vida, brincadeiras, o pai e a mãe, os afectos… É nas vivências que ele vai colher todas as razões que trás para a sua poesia. Muita a gente o faz, pois é verdade, só que nem todos o conseguem fazer poeticamente. Ele põe o diário de vida ao nosso serviço, põe o diário de vida à nossa leitura através da poesia. Portanto, a vida feita em poesia. Nem sempre de alegria, nem sempre de malandrice, nem sempre de dor, mas é a vida tal qual ela é», realçou.

«Saber a biografia de um poeta não é obrigatório, mas eu sou como o David Mourão Ferreira, que dizia, não é indispensável, não é absolutamente obrigatório que se saiba a biografia de um autor, mas é muito importante que se saiba porque a biografia é como uma lanterna que vai à frente, ela vai pondo luz no nosso caminho e é isso que temos neste livro. Ela vai permitir-nos entrar em cada poema com mais facilidade», explicou ainda Conceição Lima.

A vida como um triângulo… aberto

Mais do que fases de vida, Conceição Lima distingue faces do mesmo autor. «Fernando Martins Alves faz emergir uma outra personagem. Há como que uma personalidade nova que vai aparecendo nos seus livros. O que é que os distingue? O Fernando Alves é um educador, um sonhador, um homem que abraça, que evoca, que surpreende, que acolhe, que vive…, mas, no volume dois, aparece outra personagem, o malandreco, uma espécie de alter ego. São fases da vida do poeta, é certo, mas são faces da mesma moeda. É um mesmo eu que se expande. Ele escreve para questionar, escreve para surpreender o outro, quando surpreende o outro, surpreende-se, quando escreve também quer olhar e questionar o mundo. O outro e o mundo parece-me que são os dois ângulos de um triângulo de que ele será um terceiro vértice, em que se mostra completamente aberto», acrescentou.  

Falar declamando

A oradora deixou ainda outras luzes sobre o autor natural de Cabreiros. «É um poeta que vive do passado amando o presente, não consegue viver no presente sem ter o passado à sua volta. É isso que o faz evocar memórias e afectos do passado, e depois apresentar muita reflexão com a capacidade de questionar o que está à sua volta e fazer com que os outros que o leem questionem.» Sempre à escuta da inspirada análise da amiga Conceição Lima, Fernando Martins Alves, contudo, não palestrou, antes “falou” para a plateia bem agarrado à poesia que ama. No lugar do discurso, foi declamando aquilo que era e é o seu bem precioso: poemas. Um modo de estar e de ser intrinsecamente poético que foi exibido ainda nas declamações complementares de Nelson Neves e Sílvia Aguiar, pessoas próximas do autor. MMS/RV (texto e fotos)

Nélson Neves
Sílvia Aguiar

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