Um ano sem recriação histórica

A notícia do cancelamento da Recriação Histórica de Arouca em 2026 merece reflexão. No mês em que o evento se realizaria, regresso a um artigo que escrevi em julho de 2022, onde defendia que a Recriação Histórica poderia ganhar com uma organização bienal. A ideia, ainda atual, não pretende reduzir a atividade cultural do município ou diminuir a importância da Recriação. Julgo que um evento da dimensão deste, com carácter anual, corre o risco de sobrecarregar participantes, tornar-se demasiado monótono e levar à reprodução de algumas fórmulas.
Uma recriação histórica exige tempo (e dinheiro). Tempo de investigação, construção da narrativa e dos conteúdos ou até tempo para divulgação e mediação cultural. Implica envolver escolas, associações e agentes culturais. E implica tempo, muito tempo, de muitas pessoas que, fazendo-o anualmente, são sobrecarregadas. Como escrevi em 2022, a Recriação não pode ser uma feirinha e cria valor por transformar história em educação social e por contribuir para a construção de memória e identidade comunitária. Assim, uma periodicidade bienal poderia permitir edições mais cuidadas, inovadoras e ambiciosas, reduzindo fadiga organizativa, aumentando a expectativa pública e reforçando o envolvimento associativo.
É compreensível que a decisão de espaçar um dado evento traga o receio da perda de continuidade, presença mediática ou impacto económico. Mas é aí que o cancelamento de 2026 pode, paradoxalmente, ser uma oportunidade para estimar o impacto do evento.
Estamos habituados a discutir eventos culturais via perceção ou tradição. Avaliamos, a sentimento (ou conveniência), se trazem muita gente, se fazem comércio, se tornam o território mediático ou se mobilizam a comunidade. Mas, não menosprezando a perceção, acreditar não basta para orientar a atuação política. Se existe elevado investimento municipal, via recursos financeiros, humanos ou logísticos, devemos perguntar qual o impacto de uma iniciativa.
As perguntas são simples de formular (naturalmente limitadas e de difícil resposta): Qual o investimento público e como evoluiu? Qual o retorno económico (via restauração, comércio ou alojamento)? Quantos visitantes tem e quantos pernoitam e/ou regressam? Que recursos humanos são mobilizados? Quantos o fazem voluntariamente? Qual o impacto na identidade local e na preservação do património imaterial? Que valor público é produzido por euro investido? Para este e outros eventos, ter estas respostas seria conhecimento para decidir bem.
Não se trata de uma análise economicista da cultura, mas antes reconhecer a importância da cultura como política pública, potenciando cada euro nela investido. Numa base de transparência, olhar, numa análise multicritério, para estes impactos económico, turístico, social, cultural, mediático e ambiental, ajudaria a perceber melhor o valor gerado.
Tal como defendia em 2022, continuo a acreditar que existe mérito numa lógica de alternância, entre uma Recriação Histórica mais forte nos anos ímpares e um outro evento âncora nos anos pares. Um evento contemporâneo capaz de reunir iniciativas que hoje existem de forma mais dispersa, como o Sons da Praça, o Festival de Folclore ou o FARA, que explorasse a música, a dança, o teatro, a criação artística e a promoção de workshops e relação com a comunidade. Seria uma boa oportunidade de promover o turismo do conhecimento, cruzar artes e de dar espaço à inovação das associações do concelho. Vejam-se exemplos em territórios similares a Arouca, como o Santarcangelo Festival, em Itália, ou o KoresponDance, na Chéquia.
Este ano é, por isso, um ano sem Recriação Histórica que permite avaliar o seu impacto, preparar o regresso com ambição e desenhar uma agenda cultural integrada robusta.

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