Porque continuamos a aceitar que os nossos jovens tenham de partir?

No artigo passado terminava este espaço defendendo que pensar Arouca não é preparar apenas o próximo mês, mas começar hoje a construir o futuro, porque há desafios que não se resolvem num mandato nem em quatro anos, resolvem-se quando existe a coragem de fazer as perguntas certas e, sobretudo, quando deixamos de aceitar como inevitáveis problemas que se repetem há demasiado tempo. Talvez seja precisamente esse o maior desafio que hoje enfrentamos, voltarmos a questionar aquilo que, por força do hábito, deixámos de discutir.

Há perguntas que, por serem repetidas durante tantos anos, acabam por deixar de provocar reflexão, talvez a mais preocupante seja esta: porque continuamos a aceitar com normalidade que tantos jovens saiam de Arouca para estudar, trabalhar ou construir família e que tão poucos consigam regressar? O problema já não está apenas na partida, essa sempre existiu e continuará a existir, o verdadeiro problema está na dificuldade em criar condições para que voltar seja uma opção real e não apenas um desejo e, assim, durante muito tempo habituámo-nos a olhar para esta realidade como uma consequência inevitável da evolução da sociedade, da proximidade aos grandes centros urbanos ou da procura de melhores oportunidades, mas talvez tenha chegado o momento de perceber que um território não perde população apenas porque as pessoas partem, perde-a quando deixa de ser suficientemente atrativo para que alguém escolha viver nele. Arouca possui hoje condições que muitos territórios gostariam de ter, tem qualidade ambiental, segurança, património, natureza, uma localização privilegiada entre o litoral e o interior e uma identidade que continua a distinguir-nos, no entanto, continuamos a assistir à dificuldade de acesso à habitação, à escassez de transportes entre freguesias, à existência de património devoluto sem utilização e à incapacidade de transformar estas vantagens em oportunidades concretas para quem gostaria de viver e trabalhar no concelho.

Talvez o maior desafio da próxima década não seja apenas criar emprego ou aumentar o número de habitantes, talvez seja criar um território onde um jovem casal consiga imaginar o seu futuro, onde um arouquense emigrado sinta vontade de regressar, onde um profissional possa trabalhar à distância sem abdicar da qualidade de vida e onde uma família escolha Arouca não apenas pelo que ela é hoje, mas sobretudo pelo que acredita que poderá ser amanhã, este não é um desafio exclusivo de nenhuma instituição, de nenhum executivo ou de nenhum mandato, exige capacidade de antecipação, planeamento e coragem para pensar para além das soluções imediatas, porque recuperar população demora muitos anos, mas perder a capacidade de atrair novas gerações pode acontecer quase em silêncio.

Um território começa a envelhecer muito antes de perder população, começa a envelhecer quando deixa de ser escolhido! E, por isso, talvez devêssemos começar a medir o sucesso de Arouca de uma forma diferente, não apenas pelas obras inauguradas, pelos investimentos anunciados ou pelos visitantes que recebemos, mas também pelo número de jovens que decidiram ficar, de famílias que escolheram regressar e de crianças que voltarão a encher as nossas escolas, porque, no final, o futuro de um território nunca será decidido pelas estatísticas de hoje, mas pelas escolhas que conseguirmos influenciar nas próximas gerações. Acredito que tenha chegado o momento de começarmos a olhar para alguns dos grandes desafios de Arouca de uma forma diferente, não para encontrar respostas fáceis, mas para fazer as perguntas que durante demasiado tempo fomos adiando, porque é muitas vezes dessa reflexão que nascem as mudanças mais importantes e será precisamente sobre essas perguntas, uma de cada vez, que pretendo continuar a escrever nos próximos artigos. Valter Cruz

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