Padre António Peres: in memoriam

No Evangelho, o Senhor diz a certo momento que «as árvores se conhecem pelos frutos». No que ao Padre Peres diz respeito, não posso dizer que tenha tido oportunidade de conhecer a árvore, na medida em que a pessoa que encontrei era já um homem muito debilitado, física e mentalmente. No entanto, porque, como pároco, me tem cabido a tarefa de percorrer várias das estradas que ele percorreu antes de mim, um pouco por todo o lado tenho reconhecido os seus frutos, o impacto que calou fundo no coração de tantos homens e mulheres destas terras de Arouca. E assim, como um puzzle, peça a peça, vai-se reconstruindo a imagem de um pastor que o foi à imagem do Bom Pastor.
Recordar o Padre Peres é recordar, em primeiro lugar, um homem culto, que soube envolver-se nos movimentos culturais do seu tempo. Recordo, a mero título de exemplo, a sua participação no Conselho de Redacção da Revista Poligrafia, publicada pelo Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão, ou o seu papel na organização do I Congresso sobre a Diocese do Porto, ocorrido precisamente em Arouca, de 5 a 8 de Dezembro de 1998. O Padre Peres era um homem com uma sensibilidade particularmente apurada para a arte em geral e para a conservação do património. Mas nem só de arte se fez a sua erudição. Foi bem longe daqui que soube que o Padre Peres era um profundo conhecedor da teologia e, particularmente, da Teologia da Libertação. Que ele, a bem dizer, soube pôr em prática, não nas suas expressões exacerbadas, mas no seu núcleo fundamental: lutar pela libertação de todo o ser humano e do ser humano todo, nas suas dimensões pessoal, espiritual e comunitária. Foi essa a marca que o Padre Peres deixou em tantas paróquias do nosso concelho, a começar pelas mais afastadas do centro. Sendo um homem culto, o Padre Peres não era um homem elitista. E assim foi possível vê-lo percorrer toda a zona do concelho que vai de Moldes a Janarde, de Covelo de Paivó a Rio de Frades, zelando pela dignidade das celebrações (em tudo o que diz respeito ao canto – e como ele gostava de cantar e de ensinar a cantar bem! –, às leituras e a tudo o resto que à liturgia concerne); foi possível vê-lo preocupando-se com a seriedade da catequese, acompanhando os jovens, individualmente ou em grupo, formando o Povo de Deus em geral, particularmente através dos Cursos Bíblicos que organizou. Foi possível vê-lo exigindo o rigor na administração de dinheiros e foi possível vê-lo com baldes de massa ou de tinta na mão, construindo e reconstruindo o património religioso, tão necessário à vida das comunidades. Muito mais importante ainda: foram muitas as pessoas que encontraram nele um amigo, um confidente, um conselheiro, um aliado nas horas difíceis. No fundo, foram muitos os que nele encontraram um padre como um padre deve ser.
O Padre Peres nunca teve vida fácil. Por mais do que uma vez, foi-lhe pedido que assumisse missões pastorais em momentos muito delicados da vida das paróquias para onde foi enviado. Arrisco-me a dizer que, por mais de uma vez, lhe coube estar onde poucos (ou ninguém) quereriam estar. E ele perseverou. Na segunda metade da década de 90, veio para as paróquias da Vila e de Santa Eulália. Responsabilidades maiores, trabalhos maiores. Uma vez mais, meteu mãos à obra. O que, ontem como hoje, gera resistências. Ao preparar este texto, ocorreu-me que se aplica à visão pastoral do Padre Peres aquela famosa frase que Nietzsche coloca nos lábios do louco, n’A Gaia Ciência: «Cheguei cedo de mais». Quando o vento é adverso, nós, padres, travamos lutas por fidelidade à Igreja, por obediência ao bispo ou à própria consciência. Na paróquia de Santa Eulália, houve algo mais. Porque o Padre Peres, sendo daí natural, não olhava para Santa Eulália apenas com o olhar com que o pastor olha para o rebanho que lhe foi confiado, mas sobretudo com o olhar com que o filho olha para a sua mãe.
Finalmente, quando a saúde já não o permitia mais, o Padre Peres passou a ser a rectaguarda, não sei se sobretudo pastoral ou se sobretudo humana e sacerdotal, dos padres com quem vivia. E, por fim, retirou-se para a Santa Casa da Misericórdia, como seu capelão, onde viveu serenamente os seus últimos anos, onde foi respeitado e estimado com todo o carinho por quem dele cuidou, onde nunca deixou esmorecer o seu sorriso. E isto eu próprio testemunhei.
De João Baptista, disse Jesus que ele era uma «lâmpada que ardia e brilhava». Por tudo o que tenho visto e ouvido, acho que o Padre Peres também foi assim: uma vela que ardeu e brilhou e que, agora que a cera acabou e a chama se apagou, deixa no coração de tantos um enorme clarão. Padre José Pedro

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