Os incêndios rurais do nosso descontentamento

As lições aprendidas relativas a incêndios rurais de nada nos servem porque teimamos em as ignorar. De nada servem os relatórios de peritos nacionais e internacionais se não estivermos disponíveis para tomarmos as medidas propostas em sucessivas Comissões. Continuamos a despejar dinheiro e a multiplicar verbas para meios e mais meios de combate a incêndios. Após o maior dispositivo de combate a incêndios rurais estar no terreno e no primeiro grande incêndio do ano, o de Vouzela, o Estado Português sente necessidade de activar o Mecanismo Europeu de Protecção Civil e outros acordos bilaterais. Porque é que apesar do reforço substancial em recursos humanos, viaturas e meios aéreos, nada parece resolver o problema crónico da substancial área ardida portuguesa relativa à área ardida europeia. O ditado é velho, não é por colocarmos mais dinheiro em cima do problema que vamos resolver o problema. No primeiro grande teste à capacidade do dispositivo, ele falha. Como tem falhado nos anos transactos. Não é o reforço de meios aéreos e a formação da própria frota da Força Aérea que irão apagar grande incêndios. Se fosse uma questão de meios de combate, já não teríamos o problema dos incêndios resolvido? E por que será esta incongruência? Porque estamos a olhar para o lado errado do problema e a apostar tudo, ou quase tudo, no cavalo errado.

Enquanto nos entretemos com gestão de interesses corporativos, falta vontade política para levar por diante uma verdadeira reforma no território rural. Após cada anúncio de uma reforma inédita da floresta e de ordenamento do território, logo o fumo se dissipa e fica esquecida na gaveta. Por exemplo, a reforma do regime sucessório permanece em banho maria até ao momento. Outras medidas aparecem de forma atabalhoada, sem noção da realidade, apenas como forma de irmos buscar algumas verbas do PRR a Bruxelas. No entanto, depois perdem-se em burocracias e candidaturas ao longo de anos. Tanto é que a execução no terreno é apenas uma pequena parte do que estava planeado. As verbas não chegam à floresta e por conseguinte perdemos oportunidades de gestão essenciais para gerar economia e gerir combustíveis.

Com este panorama organizacional e operacional iremos continuar, certamente, no pódio dos países com maior área ardida, porque, simplesmente, apenas protegemos aldeias, deixando a floresta arder à vontade.

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