Miguel Brandão novo presidente da Academia de Música de Arouca: «Temos mais de 250 alunos e queremos manter o elevado padrão de ensino»

A Academia de Música de Arouca (AMA) encerrou o ano lectivo 2025/2026 com o Concerto Final das Classes de Teatro e Orquestra de Sopros do Festival de Música de Arouca 2026. O evento, que celebrou o talento dos jovens estudantes, ficou marcado por um momento de profunda emoção colectiva: a proposta de nomeação dos professores Ramiro Fernandes e Edgar Soares como Sócios Honorários da instituição. O momento de homenagem, participado também pela vice-presidente da Câmara Municipal, Cláudia Oliveira, premeia a dedicação à instituição, à formação de sucessivas gerações de músicos e ao fortalecimento do tecido cultural arouquense.

O espectáculo final combinou a expressão dramática e a música. Perante uma plateia composta por familiares, amigos e entusiastas da cultura, os alunos demonstraram o rigor técnico e a sensibilidade artística que caracterizam o ensino da AMA, instituição cultural e artística fundada em 1991. Recorde-se que, mais tarde, no ano letivo de 2000/2001, iniciou oficialmente o funcionamento da sua escola de música com autorização do Ministério da Educação.

MIGUEL BRANDÃO SUCEDE A 25 ANOS DE DIRECÇÃO DE EDGAR SOARES

Anterior vice-presidente da instituição, Rui Miguel Soares Brandão é desde há dois meses e meio o novo presidente da direcção da AMA. O actual presidente já possuía uma ligação estreita à Academia de Música de Arouca enquanto docente e membro da direcção pedagógica. O novo líder institucional assumiu funções no dia 30 de Abril, sucedendo a Edgar Soares, que encerrou um ciclo histórico de 25 anos consecutivos na liderança administrativa da instituição. A transição marca o fim de um dos períodos mais longos e estáveis da história da AMA, que antes de Edgar Soares tinha sido também liderada por Zeferino Brandão.

ENTREVISTA

RODA VIVA ouviu o novo rosto da AMA, Miguel Brandão, quanto ao presente e ao futuro da instituição.


Agora que está na qualidade de presidente da AMA, que balanço faz do Festival de Música de Arouca que encerrou o ano escolar?

«Com emoção! Esta foi a oitava edição do Festival de Música de Arouca, embora não o tenhamos realizado em anos consecutivos, ora devido ao COVID, ora a constrangimentos de ordem orçamental que surgem por vezes. O Festival acarreta custos e embora o Município, a União de Freguesias de Arouca e Burgo e outras entidades nos apoiem, nem sempre é possível. No ano passado não realizamos o Festival e este ano optámos por um formato diferente. O evento costumava culminar com um concerto que juntava a parte coral que envolvia também o Grupo Coral de Urrô, o Orfeão de Arouca, por vezes, também a dança, associados a uma orquestra grande onde se misturavam também as cordas e os sopros e alguns grupos de instrumentos ou de artes que não tinham tanto protagonismo.»

Dividiu o Festival 2026 em dois grandes momentos…

«O Festival tem sempre a duração de uma semana e este modelo foi também uma forma de uniformizar a intervenção dos alunos. Optamos por dividir o Festival em dois concertos, para não ficar um espectáculo muito grande. Tivemos um primeiro concerto em que actuou o coro, acompanhado só ao piano, e a orquestra de cordas, que assim puderam mostrar de outra forma ao público o trabalho que fazem. No segundo espectáculo tivemos o teatro, que é uma oferta relativamente recente da Academia, e terminou com a orquestra de sopros, que é, digamos, o grupo maior e mais imponente para fechar em grande esta actividade. Agradeço a envolvência de vários formadores, o Hélder Antunes, no teatro, o maestro César Freitas, no coro, e o maestro Luciano Freitas, nas orquestras de cordas e sopros.»


Acaba de herdar uma missão cultural e artística que conta mais de três décadas. Como está a sentir este novo peso institucional?

«Gerir a instituição é uma responsabilidade muito grande, mas eu sou o presidente da Academia de Música de Arouca, eu não sou o dono da Academia. Sou o presidente porque alguém tem que ser, mas é toda uma equipa a trabalhar. Sem este sentido de equipa não seria possível. Nós temos cerca de 30 professores, temos vários colaboradores, temos mais de 250 alunos, trabalhamos em articulação com dois agrupamentos de escolas, o de Arouca e o de Escariz. Estamos em perfeita sintonia também com o município e com outros parceiros e temos ainda a tutela do Estado, que proporciona um financiamento através do Ministério da Educação. Só com estas parcerias é que nós conseguimos levar a missão da Academia para a frente porque, de facto, é muito difícil.»

Em que ponto estão os financiamentos da AMA?

«A Academia não se faz só com boa vontade. Nós damos aqui muito do nosso tempo de forma gratuita, mas sem dinheiro as coisas não podem acontecer porque é preciso pagar aos professores e aos colaboradores. De dois em dois anos há um contrato de patrocínio que é estabelecido com o Estado e todos os anos os prazos são mais do que ultrapassados pelo Estado. Nós estamos já no final do ano lectivo, realizamos esta actividade de encerramento e ainda não sabemos quando vai ser a próxima candidatura. Provavelmente em Agosto é que a vão lançar para nós podermos concorrer para sabermos as verbas a que temos direito. Mas, neste momento, nós já temos os alunos matriculados para o próximo ano lectivo.»


Dava muito jeito que o Ministério da Educação fosse mais célere…

«Exactamente. Imagine que o Ministério resolve não financiar ninguém. O que é que nós fazemos com os 40 alunos que já estão inscritos? Essa é a grande responsabilidade que nós temos, conseguir financiamento para podermos proporcionar em tempo útil às crianças a possibilidade de aprenderem música, porque a música é um direito que todos devem ter.»


É um homem das artes, da música e do teatro, um criativo. Vai privilegiar um plano de continuidade ou pretende introduzir inovações na orgânica e nos projectos da instituição?

«A nova direcção já teve algumas reuniões. Onde há pessoas é natural que surjam ideias diferentes. Fiz parte de várias direcções da qual o professor Edgar Soares era o presidente, estivemos sempre em perfeita sintonia e remamos sempre para o mesmo lado em prol da Academia. Por isso é que o barco vai no bom caminho. A nova direcção tomou posse a 30 de Abril e como o ano lectivo estava quase no fim, a nossa prioridade foi concluir o plano anual de actividades. Vamos fechar este ciclo e depois reunir com calma. Vamos analisar, vamos projectar coisas e tentar introduzir uma ou outra novidade. Estou certo de que pessoas importantes para a Academia como o professor Ramiro Fernandes e o professor Edgar Soares estarão receptivos a novas ideias que surjam da parte desta direcção e nos ajudarão se forem solicitados.»

Evocou estas duas figuras históricas da AMA. No final do espectáculo a AMA prestou-lhes uma homenagem pública…

«Uma homenagem pública inteiramente merecida por tudo aquilo que fizeram e deram à instituição à qual agora presido. O professor Ramiro Fernandes e o professor Edgar Soares são duas figuras incontornáveis da cultura arouquense e de quem devemos seguir o exemplo. Tivemos neste espectáculo muitos alunos jovens, eles também devem ser conhecedores destas coisas, da história e da obra de pessoas que fizeram coisas válidas para a Academia de Música de Arouca e para a nossa terra. Se houver um que lhes siga o exemplo, já é muito proveitoso.»


Desde Setembro de 2023 que a AMA transferiu as suas actividades da antiga Casa dos Magistrados para o Bloco C da Escola Básica de Arouca. Edgar Soares sempre sonhou com uma casa própria para a AMA. Este ideal mantem-se?

«O desejo de sede própria era um sonho da direcção anterior e bem personalizado na pessoa do seu anterior presidente, o professor Edgar. Nós temos de facto um terreno, nós temos de facto um projecto que já foi aprovado na Câmara Municipal. Falta o melhor, que é o financiamento. E o financiamento ainda é considerável. Nunca poderíamos avançar sem ter o apoio de muitos parceiros. Teríamos que ter muito apoio do município, mas também não chega. Teriam que caber aí candidaturas a ser aprovadas. É um processo bastante difícil. Nós neste momento estamos a equacionar com calma se vamos de facto por esse caminho, se temos esse apoio para podermos dar passos firmes ou se temos que enveredar por uma reformulação das instalações actuais.»

O espaço disponível na Escola Básica de Arouca satisfaz as necessidades da AMA?

«Estarmos inseridos dentro da escola onde os alunos frequentam as outras disciplinas é uma vantagem muito importante. Mas para continuarmos ali, o próprio edifício também tem que sofrer reformulações muito importantes, quer em número de salas, quer na forma como estão dimensionadas. A própria entrada da Academia [Rua das Corredouras] não está ajustada às necessidades, não entra lá uma carrinha, não entra uma ambulância … O tempo dirá o caminho que vamos seguir. Seja de uma forma ou de outra, criar ou ampliar e melhorar as nossas instalações continua a ser o nosso sonho. Queremos manter o elevado padrão de ensino da Academia e de gerir os seus projectos culturais», concluiu o novo presidente da direcção, Miguel Brandão. MMS/RV (fotos: AMA)

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