Homenagem merecida, políticas insuficientes

A cerimónia de entrega das medalhas de mérito municipal, grau ouro, aos Bombeiros Voluntários de Arouca, Fajões e Nespereira é, em si, um ato justo e merecido. Ninguém de boa-fé pode negar o valor desta homenagem, nem o papel destas corporações no nosso concelho.

Os bombeiros são, por norma, os primeiros a chegar e, quase sempre, os últimos a sair quando o pior já passou. Respondem por vezes onde mais ninguém quer estar. Com chuva, com fogo, com risco, com dor, com urgência, com perdas. E fazem-no com um sentido de missão que envergonha muita gente que ocupa cargos públicos apenas para aparecer.

Por isso, sim: a medalha merece aplauso.


Mas o que não merece aplauso é a tentativa de transformar um gesto simbólico num certificado de coerência política.

Porque há uma pergunta que não pode ser evitada: quantos anos de apoio real valem uma fotografia bem composta?

Durante quatro anos, o Município teve em mãos uma oportunidade concreta de ajudar os bombeiros naquilo que verdadeiramente importa: regalias sociais, apoio à vida familiar, proteção enquanto cidadãos, estímulos ao voluntariado. E o que aconteceu? Aconteceu aquilo que se tornou hábito em demasiadas matérias essenciais: o assunto foi sendo empurrado com a barriga.

Convém não confundir: o Regulamento de Regalias Sociais já existia, é verdade, mas era tão fraco e tão pouco funcional que, por vários motivos ligados à sua própria construção e eficácia, na prática quase não permitia aos bombeiros beneficiar dele. Foi precisamente por isso que se propôs a sua revisão: para tentar passar do “faz de conta” ao apoio real.

O que esteve em cima da mesa foram propostas para o melhorar, incluindo propostas apresentadas pelos Bombeiros, pela oposição, discutidas publicamente e sujeitas a contributos que refletiam a realidade de quem vive o voluntariado na pele. Depois disso… silêncio.

O regulamento ficou encostado, praticamente “em arquivo”, durante quase quatro anos. Não por falta de urgência. Não por falta de necessidade. Mas por falta de vontade política, ou por uma visão perigosa: a de que os bombeiros podem esperar.

E quando finalmente, perto do final de 2025, o Município decide avançar, a verdade é que o resultado ficou muito aquém do que se ambicionava, do que se propôs e do que foi defendido em discussão pública. Ou seja: atrasou-se durante quatro anos… para se aprovar algo fraco, curto e pouco transformador.

Isto não é valorização. É gestão de aparência.

Ora, um bombeiro não vive de medalhas. Vive da capacidade de conciliar trabalho, família, saúde, riscos e disponibilidade quase permanente. Um bombeiro voluntário não precisa de elogios: precisa de condições. Precisa de um Município que não confunda política com cerimónia. Precisa de apoio que faça diferença no fim do mês, no apoio aos filhos, no respeito pelos sacrifícios e no incentivo ao voluntariado.

A incoerência é ainda maior quando se olha para pormenores que não são pormenores. Em 2024, foi atribuído um apoio de 5 euros para ajuda na alimentação aos bombeiros que estavam de prevenção aos incêndios no âmbito do programa DECIR. Em 2025, esse apoio foi retirado.

O que é isto? Planeamento? Estratégia? Respeito?


Não. Isto é o contrário de tudo isso. É instabilidade, improviso e sinal político errado. Porque quando o Município oscila desta forma, a mensagem que passa é simples: “hoje ajudamos… amanhã logo se vê”.

E não se trata de uma crítica gratuita. Trata-se de uma questão de seriedade. Um Município que fala em mérito tem de praticar coerência. E um Município que condecora bombeiros não pode tratar as regalias sociais dos bombeiros como se fosse um assunto secundário, dispensável ou adiado para quando houver tempo.

É impossível separar esta realidade do que o concelho viveu em 2025. O último grande incêndio foi, mais uma vez, um teste ao território e às pessoas. Foi, também, um daqueles momentos em que a política é obrigada a olhar para o espelho: perante o fogo, o discurso dissolve-se. Fica apenas a realidade. E nessa realidade, quem segura Arouca são, muitas vezes, os bombeiros.

Talvez por isso agora se tenha sentido a urgência do gesto. Talvez se tenha percebido que havia demasiado a justificar perante a população. Talvez se tenha decidido que era tempo de retribuir.

Mas retribuir não pode ser só uma noite de palco e medalhas. Retribuir é garantir que o respeito existe antes da urgência, e não apenas depois dela.

No dia seguinte, a comunidade viveu outro momento relevante: a transição de comando dos Bombeiros Voluntários de Arouca.

A saída do Comandante José Gonçalves deve merecer o respeito de todos. Falamos de 47 anos dedicados aos bombeiros, cerca de 10 anos em funções de comando, uma vida ao serviço do socorro e do Concelho. O seu percurso não precisa de propaganda para ser reconhecido. Precisa apenas de respeito.

Há serviços que não cabem numa cerimónia: ficam gravados numa comunidade inteira. Muito obrigado, Comandante José Gonçalves.

A entrada do novo Comandante Sérgio Azevedo, bem como a subida do anterior adjunto Marco Ferreira a segundo comandante, mantendo-se a adjunta Marta Ferreira, dá sinais de continuidade e experiência. Desejo-lhes sinceramente sucesso, porque o Concelho precisa de estabilidade operacional, liderança firme e comando preparado para o que aí vem, seja em incêndios, seja em emergências, seja na proteção civil do dia-a-dia.

Mas há uma última verdade que não podemos continuar a ignorar: o problema não é apenas local. O Poder Central tem falhado ao longo de anos com os bombeiros voluntários. Foram-se perdendo regalias, diminuindo reconhecimento, fragilizando direitos, incluindo aspetos ligados à reforma e ao estatuto social do voluntariado. Portugal habituou-se a depender de voluntários em matérias de alto risco e alta exigência, e depois trata-os como se fossem um “recurso barato”.

Isso é injusto. E isso é perigoso.

Concluo com uma ideia simples: a medalha é merecida. Mas medalhas não apagam quatro anos de gaveta. E não podem ser usadas para disfarçar aquilo que falhou: o apoio concreto, a coerência política e a valorização em tempo útil.

Os bombeiros merecem respeito. Mas merecem sobretudo decisão, justiça e medidas com impacto real, não apenas cerimónias quando a pressão pública aumenta. Pedro Bastos (deputado municipal CDS Arouca)

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