Não teremos mais connosco o Padre Peres na sua presença física, sorridente e próxima.
Intuímos pela razão, sem preconceitos, que não nascemos um dia apenas para morrer anos depois. Não teria sentido viver apenas e só o intervalo entre estes dois momentos. Aqueles de nós que temos fé na mensagem de Jesus de Nazaré sabemos que “a vida não se perde, apenas se transforma” ou se vai transformando até à plenitude de Vida. Para nós, o Padre Peres passou os umbrais do tempo para a Casa do Pai”. Na “esperança que não engana”, consumou-se tudo aquilo em que ele acreditava: não há uma fronteira que seja de ruptura entre o Aquém e o Além.
Permanece bem vivo entre nós o testemunho do seu exemplo!
Nos tempos de escuridão que são os nossos, aqui e agora, ressoam, as palavras do Mestre: “há que colocar a luz no candeeiro e não debaixo do alqueire para que ilumine a casa toda” (Mat.5-15).
Eu tive a felicidade de, no percurso da minha vida pessoal como presbítero, primeiro, e depois como professor, ter entre os meus amigos o Padre Peres. Uma energia que brotava de sólidas convicções nos ligava, nos fraternizava, nos preenchia; uma sintonia com a Boa Nova de Jesus Cristo, o “Judeu Marginal”, entendida como fonte de sentido e de compromisso; o entendimento de que a Igreja é um organismo vivo, animado pelo Espírito Santo – um organismo organizado e não apenas uma organização.
A dimensão presbiteral, entendida e vivida como sucedâneo da essencial condição de baptizado, manifestava-se na vida pessoal e no serviço pastoral do Padre Peres. Ele nunca foi um mero “funcionário de Deus”, nem um mercenário que transformasse o altar num balcão de serviços religiosos. Viveu na abertura a propostas pastorais emergentes e renovadoras. Não se instalou no imobilismo de formulações doutrinais doutros tempos, num passado que o Vaticano II convidara a reevangelizar e renovar. Tinha na sua biblioteca títulos seleccionados que lia: eu pude testemunhar que ele os lia porque os sublinhava. Não foi um Padre dado a clericalismos. Foi um padre próximo que sabia ouvir a todos.
O Padre Peres não era perfeito, naturalmente, mas o vento do Espírito em tempos de mudanças profundas agitava-o. Preparava as homilias atento aos sinais dos tempos. Percebia-se que tinha nítida a noção de que a Igreja nasce da Palavra e cresce pela Palavra proclamada.
Nos últimos tempos visitei com frequência o Padre Peres no Lar da Misericórdia aonde se recolheu, por doença, após cumprir a última missão que lhe foi confiada: pároco da vila de Arouca e de outras paróquias vizinhas. Partilhávamos momentos de oração, de evocação de memórias, de experiências e também momentos de desabafos.
Nos últimos dias falei-lhe de Deus, Pai de Misericórdia, regaço acolhedor para todos os Seus filhos. Ele entendia e emocionava-se. Apertávamo-nos as mãos. Ele apertava a minha mão com a energia física que ainda lhe restava e não a queria largar…
O Padre Peres deixa-nos a responsabilidade de o continuar… E eu agradeço ao Senhor o dom da sua vida e da sua amizade.
P.S. – Declaração de interesses:
Conterrâneo do Padre Peres, o autor deste texto é um presbítero da Igreja católica. Por ter pedido a dispensa do celibato para poder casar, foi “reduzido ao estado laical”, “dispensado das obrigações inerentes ao estado clerical” e o seu nome apagado da lista doa presbíteros da Diocese do Porto. Seguidamente dedicou-se ao ensino e foi professor efectivo do liceu Alexandre Herculano, no Porto, até à data da aposentação. A. Teixeira Coelho