Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses prepara mês de Agosto com cultura popular

Fundado em 1945, o Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses dedica-se à recolha, preservação e divulgação da etnografia e do folclore, estando a sua origem ligada às primeiras edições da Feira das Colheitas. É um dos grupos fundadores da Federação de Folclore Português e proprietário das revistas “Rurália” e “Cultura Popular”. A par das danças e cantares, o grupo trabalha e divulga a antiquíssima polifonia vocal tradicional da região de Arouca, conhecida como cantas (a duas vozes) e cramóis (a três vozes). Elemento do rancho há mais de 40 anos, Isidro Castro é o presidente da Direcção do Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses.
Em entrevista ao RODA VIVA, revela algumas actividades do 39.º Festival Internacional de Folclore de Arouca, marcado para o mês de Agosto, e fala sobre os desafios que se colocam à associação.


Aproxima-se a data de um dos maiores eventos organizados pelo Conjunto Etnográfico de Moldes: o Festival Internacional de Folclore de Arouca. O que prevê a programação deste ano?
A 39.º edição do Festival Internacional de Folclore de Arouca vai realizar-se de 15 a 17 de Agosto. Serão três dias dedicados à cultura popular. Estamos ainda a ultimar a programação, mas podemos adiantar as principais actividades. Vamos iniciar o festival no feriado, 15 de Agosto, na nossa freguesia, com um espectáculo de cavaquinhos, que terá lugar no Centro Cultural e Recreativo de Moldes. Na sexta-feira à noite, vamos para o centro da vila, para a Praça Brandão de Vasconcelos, onde vai decorrer um espectáculo de música tradicional. O sábado, último dia do festival, vai começar com o desfile etnográfico pelas principais ruas do centro histórico de Arouca e terminará com o espectáculo de folclore no Terreiro de Santa Mafalda, no qual estarão representados diferentes pontos do Norte do país, nomeadamente Resende, Gondomar, Arcozelo e Miranda do Douro. A vertente internacional será assegurada por um grupo espanhol. São trabalhosos os dias de preparação do festival, que, pela sua dimensão e custos associados, tem vindo a ser coorganizado com o Município de Arouca, contando também com o apoio da Junta de Freguesia de Moldes.

Tem sido amplamente divulgado o papel do grupo na preservação e valorização do canto popular polifónico. Como é que é feito este trabalho?
Além do património natural e geológico que tão bemdistingue Arouca, há uma matriz rural que nos identifica e diferencia. O canto popular polifónico, conhecido em Arouca como “botar cantas”, é apenas uma parte dessa matriz, um património imaterial que importa preservar e valorizar. E nesse campo, o grupo tem vindo a trabalhar em várias frentes: nas apresentações de corais que fazemos, não só em Arouca, mas também um pouco por todo o país e que têm originado um interesse cada vez mais notório por parte do público que assiste, que realça o facto de se cantar à capela, sem qualquer acompanhamento instrumental; na organização do Encontro de Vozes, que conta já com seis edições; e na transmissão oral das cantas aos mais novos, no âmbito da participação no projeto educativo “Botar Cantas na Escola”, promovido pelo Museu Municipal de Arouca. O Conjunto Etnográfico de Moldes é também um dos cerca de 60 grupos associados da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, que foi constituída para formalizar a candidatura que levou à entrada, em Dezembro de 2023, do Canto a Vozes de Mulheres no inventário nacional do Património Cultural Imaterial Português.

O que distingue o Encontro de Vozes de outros eventos ligados ao canto?
O elemento diferenciador é a presença de grupos informais, ou seja, de grupos que não estão organizados em contexto associativo e que não fazem apresentações regularmente. A cada edição, lançamos o repto aos habitantes de determinadas aldeias para que se voltem a juntar para cantar e que depois mostrem o resultado no Encontro de Vozes. O desafio tem sido aceite com alguma relutância, mas tem tido resultados muito positivos e interessantes, na medida em que quem tem participado neste evento, quer voltar a fazê-lo na edição seguinte. É inegável que os grupos informais se têm afirmado, com a sua simplicidade e autenticidade, a cada edição. Com esta dinâmica, pretendemos alertar e sensibilizar a comunidade para a riqueza da polifonia tradicional, colocando o foco e o protagonismo nas pessoas que ainda sabem estes cantares, que outrora faziam parte da vida quotidiana das aldeias. E após seis edições, podemos afirmar que esse objectivo foi claramente atingido. Alguns grupos de mulheres que se juntaram e apresentaram pela primeira vez no Encontro de Vozes, participam agora noutras dinâmicas relacionadas com o canto popular polifónico, como é o caso das Cantadeiras de
Adaúfe e de Regoufe, apenas para dar alguns exemplos. O Encontro de Vozes é, pois, um importante contributo para a valorização e preservação da polifonia tradicional da nossa região e do “Cancioneiro de Arouca”, e um evento revelador da importância das comunidades locais na sua salvaguarda.

A salvaguarda é também uma das premissas do projecto educativo “Botar Cantas na Escola” promovido pelo Museu Municipal de Arouca. Que balanço faz da vossa participação?
É um contributo valioso para a preservação, valorização e disseminação do canto popular polifónico e foi lançado em boa hora. É um projeto que exige disponibilidade e generosidade por parte das cantadeiras do Conjunto Etnográfico de Moldes que, nos últimos dois anos lectivos, foram à escola, uma vez por semana, ensinar as crianças a botar cantas, nesta que é uma das mais nobres manifestações da cultura popular. É um esforço que está a dar frutos, porque é notório o orgulho com que aquelas crianças cantam e é também visível a partilha genuína, não só das cantas, mas também de afectos, entre cantadeiras e alunos. Por tudo isto, o balanço é extremamente positivo. Esperamos que o projeto tenha continuidade, não só na escola de Moldes, mas também em outras escolas do concelho, envolvendo outros grupos de cantadeiras.

Que desafios se colocam hoje ao associativismo no geral e ao Conjunto Etnográfico de Moldes e à sua área de actuação em particular?
Hoje, ser dirigente associativo é, por si só, um grande desafio. Ser dirigente numa associação que trabalha o folclore, a etnografia e a cultura popular, tidos, não raras vezes, como o parente pobre da cultura, é ainda mais desafiante. Captar o interesse dos jovens para estas áreas é cada vez mais difícil, porque, por um lado, as distrações, chamemos-lhe assim, são mais que muitas, e, por outro, porque alguns ainda entendem o folclore e a etnografia como algo pouco nobre. Ainda assim, temos vários jovens no corpo artístico que são já a segunda e terceira geração de cada família, num testemunho que tem passado de pais para filhos e depois para os netos. Um outro desafio é resistir às tentativas de interferência no grupo, que parecem querer levar-nos a ser apenas mais um grupo de folclore, igual a tantos outros. Apesar disso, temo-nos mantido fiéis ao folclore que foi apresentado nas primeiras participações do grupo na Feira das Colheitas, continuando a apresentar modas antiquíssimas como o Verdegalo, a Cana Verde D’oito, o Corre-corre ou a Cana Real das Canas.

Como é presidir a um rancho que em 2025 celebra 80 anos?
80 anos são um “peso pesado” e uma responsabilidade enorme. Conseguir que o grupo, após tantos anos, se mantenha fiel aos princípios que estiveram na sua origem, quando se organizava apenas para ir actuar na Feira das Colheitas e depois, já na década de 50, com uma actividade regular, é um dos maiores desafios. São oito décadas preenchidas com inúmeras actividades e eventos, revistas e artigos, milhares de participações em manifestações etnográficas de norte a sul do país e também no estrangeiro, quarenta edições (faz em 2025) do Festival Internacional de Folclore de Arouca e alguns trabalhos discográficos, com destaque para o CD “Cantas e Cramóis”, editado em 2001, e para a o CD “A Serra a Cantar e a Dançar”, este último para comemorar os 70 anos do grupo, em 2015. Estamos orgulhosos do caminho percorrido até aqui na preservação e valorização das nossas tradições e costumes. Um caminho trilhado com a colaboração de todos os que, ao longo de quase 80 anos, integraram o corpo artístico e os órgãos sociais e cujo contributo é de um valor inestimável.

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