Como manter viva uma associação?

No passado dia 8 de agosto decorreu o tradicional Grande Prémio de Atletismo de Rossas, organizado pela Associação Unidos de Rossas, que vai já na sua 47ª edição. Contou com mais de 1000 atletas inscritos, sendo que, destes, quase 800 participaram na prova rainha cuja partida teve como cenário de funco a Câmara Municipal de Arouca. Esta é a prova de atletismo em estrada mais antiga do distrito de Aveiro e uma das mais antigas do país.

Chegar à 47.ª edição de uma prova como o Grande Prémio de Atletismo de Rossas é, por isso, muito mais do que repetir um evento durante 47 anos. Significa que, ao longo de quase meio século, houve pessoas que permaneceram, algumas desde o início, e outras que se foram juntando, dando continuidade a um projeto que atravessa gerações.

Mas, apesar do aumento do número de atletas, tem-se vindo a constatar ao longo dos anos uma diminuição drástica do apoio ao associativismo. A isso juntam-se uma burocracia crescente e dificuldades cada vez maiores na obtenção desses apoios. Organizar uma atividade implica hoje cumprir um conjunto de exigências, autorizações e procedimentos que representam uma carga cada vez mais pesada para estruturas que sobrevivem essencialmente graças ao voluntariado.

Como se não bastasse, este ano o custo de cada garrafa de água sobe, 10 cêntimos graças ao sistema “Volta” e foram mais de 3000 utilizadas. Sendo a água essencial à vida e indispensável para os atletas, este que parece um simples aumento, torna-se mais um grande encargo adicional a somar aos sucessivos aumentos nas outras despesas que este tipo de atividades requer. Este é apenas um exemplo das dificuldades associativas, entre muitos outros que existem no concelho de Arouca. É caso para dizer: “Ó tempo, Volta para trás…”.

Mas as dificuldades do associativismo não são apenas financeiras ou burocráticas. Também mudou a forma como participamos na vida associativa. 

Durante décadas as associações foram espaços privilegiados de encontro, conversas, convívio, participação ativa e construção de uma identidade coletiva. No exemplo acima, para a realização do Grande Prémio de Atletismo, os jovens juntavam-se para pintar os dorsais, então feitos em papel autocolante. Hoje, esse encontro já não é necessário: os dorsais são impressos e têm um chip. Ganhámos em eficiência, rapidez e facilidade de organização, mas perdemos, pelo caminho, alguns dos pretextos que nos obrigavam a estar juntos.

Não faria sentido querer voltar aos dorsais pintados à mão, mas talvez faça sentido perguntarmo-nos como podemos aproveitar aquilo que a tecnologia nos oferece sem perder aquilo que sempre constituiu a verdadeira força das associações: as pessoas. 

É, por isso, urgente questionarmos: quem mantém vivas as associações locais e durante quanto tempo será possível fazê-lo, e em que moldes?

Nenhuma associação sobrevive apenas da boa vontade de quem insiste em mantê-la viva. Valorizar o associativismo não pode resumir-se a elogiar as associações quando conseguem encher uma rua, organizar uma festa ou trazer mil pessoas a Arouca. É preciso valorizá-las também nos restantes dias do ano, quando as bancadas estão vazias e alguém continua, muitas vezes silenciosamente, a trabalhar para que no ano seguinte tudo volte a acontecer.

Essa valorização exige também um verdadeiro apoio institucional às associações, capaz de reconhecer não apenas os eventos que organizam, mas o papel que desempenham na construção das comunidades. Porque uma associação não organiza apenas provas, festas ou atividades. Cria relações, aproxima gerações, mobiliza pessoas e constrói um sentimento de pertença.

Talvez, por isso, a pergunta não seja apenas quanto custa manter uma associação viva. A pergunta é: quanto custaria às nossas comunidades deixá-la morrer?

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