Natural da freguesia de Moldes, o fotógrafo Carlos Teixeira, de 43 anos, volta a assinar a capa da revista Vogue, agora na edição de Julho. Com 14 anos de carreira dedicados à fotografia de moda, o profissional recorda o percurso escolar que começou na Escola Secundária de Arouca e ganhou forma num curso pós-secundário em Espinho, cidade onde hoje reside e mantém o seu gabinete profissional.
O percurso além-fronteiras consolidou-se com publicações de prestígio internacional como a Harper’s Bazaar, Elle, Glamour e L’Officiel. Contudo, é a colaboração regular com a Vogue Portugal, revista americana considerada a “bíblia da moda” presente em vários países, que o fotógrafo destaca com especial orgulho.

Campanhas para grandes marcas
A par da actividade profissional associada aos principais centros de moda europeus, o fotógrafo português tem desenvolvido também campanhas publicitárias para marcas globais de renome nos sectores de vestuário e estilo de vida, incluindo insígnias como Balmain, Chanel, Louis Vuitton, Dior, Calzedonia, Intimissimi, entre outras.
Apesar da sua intensa vida profissional, Carlos Teixeira mantém uma ligação constante a Arouca. Esse vínculo deve-se aos laços familiares e ao facto de a sua esposa, também arouquense, trabalhar numa IPSS da vila. Em entrevista ao RODA VIVA, o fotógrafo partilhou a sua visão da arte, os bastidores e os desafios do universo da moda. «Encontrei na fotografia a paixão que mudou a minha vida», sublinha o profissional, cujo trabalho continua a projectar o talento nacional no panorama da moda global.
ENTREVISTA
Como e quando é que enveredou pela fotografia?
«O interesse pela fotografia, surgiu quando estava a frequentar um Curso Profissional de Comunicação Marketing, Publicidade e Relações Publicas em 2002, em Espinho. Tinha uma disciplina na qual começamos a abordar a área da fotografia. Na altura estávamos a transitar do analógico para o digital, e de certa forma esta novidade captou-me a atenção. Foi o início deste longo percurso.»
Há quantos anos é profissional? Porquê a especialidade da moda?
«Sou fotógrafo de moda há cerca de 14 anos. A moda foi algo que realmente me fascinou desde a primeira experiência que tive. Houve um momento quando terminei o meu curso, que eu tinha a certeza que queria seguir a área da fotografia, mas não sabia ao certo em que área especifica na fotografia. Então comecei a experimentar as várias áreas, atá que após um workshop com um fotógrafo de moda em Barcelona, descobri realmente que era isso queria seguir. Foi um click.»
Foi difícil avançar nesta carreira?
«Sim, no Inicio foi muito complicado. É difícil entender qual o caminho que temos que seguir, quais os passos a dar, como encontrar as oportunidades. Foram muitas as questões que coloquei, e foram muitas as dúvidas que surgiram, é o momento em que pomos em causa se realmente vale a pena todo esse sacrifício. Mas quando realmente gostamos do que fazemos, nada mais importa, apenas lutar por aquilo que queremos e agarrar todas as oportunidades.»
Hoje, tem outra maturidade e mais experiência…
«Neste momento eu sei que tudo é possível, que as nossas metas, os nossos sonhos acabam por se realizar. Algumas demoram mais a surgir, mas acabamos por as realizar, apenas temos que acreditar em nós, nas nossas capacidades e continuar a trabalhar para conseguir superar cada dia, cada desafio. Persistência, dedicação e equilíbrio são valores sempre presentes na minha vida pessoal e profissional.»

Faz trabalho autónomo ou, geralmente, por “encomenda” da imprensa especializada?
«Eu sou freelancer, tenho a minha própria empresa, sou contratado para cada trabalho específico, seja ele comercial (marcas de roupa, publicidade, etc.) ou editorial (revistas de moda). Por outro lado, tenho representante, agência, em três países – França, Itália e Espanha – na qual gerem uma parte do meu trabalho. É daí que surge grande parte do meu trabalho fora de Portugal.»
O que representa para si a arte da fotografia?
«A fotografia é uma forma de arte que me permite contar histórias, criar beleza e expressar uma parte de mim. Quando fotografo, sinto-me livre e completamente presente no momento. É uma forma de comunicar aquilo que muitas vezes é difícil colocar em palavras. Através da fotografia, procuro transmitir emoções, sensações e criar algo que fique para além daquele instante. Na fotografia de moda, não vejo apenas roupa ou imagem, vejo uma oportunidade de criar uma narrativa, uma atmosfera, uma identidade. A fotografia é a minha forma de olhar para o mundo e de mostrar aos outros um pouco daquilo que vejo e sinto. Amo o que faço, e talvez seja isso que a arte representa para mim, ter a liberdade de transformar aquilo que imagino e sinto em algo que os outros também possam sentir.»
Tem uma predilecção especial pelos motivos humanos?
«Sim, sem dúvida. Tenho uma grande predilecção pelo elemento humano. Para mim, fotografar uma pessoa vai muito além da sua imagem ou da sua beleza. Interessa-me aquilo que ela transmite, a sua expressão, a sua presença e a emoção que pode existir num simples olhar ou gesto. Na fotografia de moda, gosto de criar beleza, mas também procuro que exista uma ligação, uma emoção e uma história. Cada pessoa traz algo único para a imagem, e é essa singularidade que me inspira. No fundo, é através das pessoas que consigo dar vida às histórias que quero contar.»
É certamente um mundo exigente…
«Muito exigente, sem dúvida. Mas que vale sempre a pena.»

Quando sente que tem a fotografia ideal, aquela foto que o preenche? É a vertente técnica? É o conteúdo?
«É o conjunto de várias coisas. Para mim, a fotografia ideal acontece quando tudo se encontra: a luz, a composição, a pessoa e, acima de tudo, a emoção. A vertente técnica é importante, claro, e faz parte do meu trabalho, mas não é aquilo que, por si só, me preenche. O que realmente procuro é uma imagem que me faça sentir alguma coisa. Pode ser um olhar, um gesto, uma expressão ou simplesmente um momento difícil de explicar. Quando olho para uma fotografia e sinto que ela tem alma, que transmite uma emoção e conta uma história sem precisar de palavras, é aí que sinto que encontrei a fotografia que procurava. A técnica ajuda-me a chegar até lá, mas é o conteúdo, a emoção e aquilo que a imagem consegue transmitir que fazem com que uma fotografia me preencha verdadeiramente.»
Tem ideia em quantas publicações já expressou os seus trabalhos?
«Não consigo na verdade, são muitas as revistas que tenho em arquivo, onde consigo ver toda a minha evolução como fotógrafo, memórias que ficaram para sempre. Foram muitas as experiências, ao longe destes 14 anos, que guardo todas elas com muito carinho. Tenho trabalhos publicados na Vogue Portugal, Vogue Espanha, Vogue Arábia, Vogue Ucrânia, Vogue Singapura, bem como em outras revistas de moda também muito conhecidas, tais como Harper’s Bazaar, Elle, Marie Claire, Glamour, de vários países.»
Sendo a Vogue uma revista de topo internacional, o que representa para si conquistar capas e interiores.
«É o sonho de qualquer fotógrafo, e foi o meu principal objectivo desde de decidi seguir fotografia de moda. É uma meta muito difícil de alcançar, ter essa oportunidade, mas sempre acreditei que chegaria lá. É uma sensação incrível, é o momento que paramos e reflectimos, que todo o nosso esforço, dedicação e trabalho não foi em vão.»
No mundo da moda, que dimensão de importância assume a fotografia.
«A fotografia tem um papel muito importante na moda, é onde criamos algo especial, onde contamos histórias, onde damos vida e essência de tudo o que é criado pelos designer de moda. A fotografia terá sempre um papel muito importante nesta área, mesmo com o surgimento da inteligência artificial que, a meu ver será um elemento complementar e não uma substituição. A essência está no olho de cada fotógrafo.»
O que procura no modelo durante a sessão fotográfica?
«O que procuro num ou numa modelo vai muito além da beleza ou da aparência. Procuro presença, personalidade e, acima de tudo, autenticidade. Gosto de sentir que existe algo verdadeiro na pessoa que está diante da minha câmara, algo que possa ser explorado e transformado numa imagem com emoção e identidade. Durante uma sessão fotográfica, valorizo muito a entrega, a confiança e a capacidade de criar uma ligação. Para mim, a fotografia é também um trabalho de cumplicidade entre o fotógrafo e o modelo. Quando essa ligação acontece, tudo se torna mais natural e conseguimos ir além da pose. Procuro aquele olhar, aquele gesto ou momento inesperado que torna a pessoa única. É aí que, para mim, começa a surgir algo especial e a fotografia ganha vida.»
É, certamente, uma arte que exige grande investimento em tecnologia e formação…
«Sim, sem dúvida. É importante estarmos sempre actualizados, mas o investimento é elevado.»

Que desafios lhe coloca o mercado da fotografia?
«A fotografia está em constante evolução e temos que acompanhar, se não ficamos para trás. Temos que estar a par das tendências, do que se está a criar no momento. Como mencionei anteriormente, agora temos a era da inteligência artificial, que é algo extraordinário, mas que pode ser usado de forma correcta ou não. É algo que temos que saber lidar e interagir, saber o que podemos ou não fazer com ela, mas essencialmente estar cientes que não podemos parar.»
Tem algumas referências no mundo da fotografia?
«Sim tenho várias, tais como Tim Walker, Helmut Newton, Peter Lindbergh, Steven Meisel. Estes são apenas alguns deles.»
Para ver
Muitos dos trabalhos realizados pelo conceituado fotógrafo arouquense, além das respectivas edições da especialidade, podem ser apreciados no seu sitio web oficial Carlosteixeiraphotographer.com ou no Instagram @studiocarlosteixeira. MMS/RV