E, de repente, não damos conta de o Verão terminar. Porque o calor permanece. E chegam as Colheitas. Vamos encontrando os cestos mais cheios, as bancas mais compostas, o milho, as uvas, as vindimas. Os animais saem à rua, aprumados, para os concursos e para os desfiles. Os produtos da terra vão colorindo as ruas. Arouca prepara-se, engalana-se para a Feira das Colheitas.
Mas nem sempre pensamos no que aconteceu antes. A semente, lançada à terra. A planta, que precisou de ser regada e cuidada. A erva daninha, que teve de ser arrancada.
A preocupação com a chuva que não veio, ou com a chuva em demasia. O trabalho repetido, invisível, de quem cuidou, todos os dias, de algo que apenas meses mais tarde haveria de dar fruto. É tudo isto que a Feira das Colheitas nos diz.
Porque também ela se resume neste ciclo. Alguém a semeou, há mais de oitenta anos. Alguém a foi cuidando, ao longo dos tempos. Alguém esperou, ajustando-a aos objectivos e aos tempos. E, agora, colhemos. E chamamos todos para a mesa. É isto, a Feira das Colheitas. A celebração do que a terra nos dá, e das mãos que trabalham para que ela o dê. A festa dos agricultores, dos seus produtos, dos seus animais. Um balanço alegre de um ano de trabalho árduo.
A Feira das Colheitas cresceu. Como a semente, que deu origem à planta, e agora dá fruto. Ganhou outras ambições. Toca outras áreas, com os concertos de cada dia. Mobiliza mais gente. Arouca enche-se. Reencontra-se. Acolhe. Celebra-se. E o que colhe? Desde logo, o desafio essencial de ter um evento grande que procura manter-se fiel ao que lhe deu origem. E outro – o da memória que queremos deixar: uma festa que acontece em Setembro, ou uma terra que se veste com traje de festa, para celebrar o momento de colher?
Setembro tinha, para nós, outros cheiros, outros sabores, outras cores. O cheiro dos livros novos, e do regresso às aulas. A cor da fruta madura nos campos. O sabor das uvas, durante a vindima. Mas também o milho a secar, os carros carregados, as mãos sujar. E as vozes de quem trabalhava, a cantar. Talvez seja uma espécie de nostalgia, mas uma nostalgia que não é vontade que tudo volte a ser como era. Antes, formas de percebermos que alguma coisa importante pode ter ficado e estar a ficar para trás. E talvez uma dessas coisas seja a proximidade com a terra.
A Feira das Colheitas não é, nem deve ser, uma recriação histórica. A agricultura mudou. A economia mudou. Arouca mudou. As pessoas mudaram. E a própria festa foi mudando, acompanhando os tempos. Mas isto não significa que tenha abdicado ou tenha de abdicar das suas raizes. Antes, talvez seja necessário simplificarmos, para depois voltarmos a acrescentar. Criarmos espaços para que os mais novos, os mais jovens, possam perceber melhor que esta dinâmica é, no fundo, a dinâmica da nossa própria vida. Este ano, comemoramos o Ano Internacional da Mulher Agricultora, e se é o mote ideal para perspectivarmos este trabalho que se faz a cantar, este poder decisivo do feminino, é-o também para voltarmos a pôr as mãos na terra. Porque, hoje, queremos que tudo aconteça depressa. Queremos, se possível, colher antes mesmo de plantar. Mas a terra não o permite. A terra ensina-nos a paciência de esperar. Ensina-nos que não basta semear, é preciso cuidar. E que não basta cuidar para podermos colher. E que não basta colher, é preciso partilhar. É isto, ser comunidade.
Uma comunidade constrói-se semeando. Ideias, oportunidades, educação, cultura, confiança. Depois, cuidando. Das pessoas, dos lugares, dos projectos, dos mais novos e dos mais velhos. Até podermos colher. E não guardar o fruto apenas para uns poucos, mas partilhá-lo. Com todos. É isto que a Feira das Colheitas nos deve lembrar. Que a colheita começa muito antes de Setembro. Começa quando alguém acredita que vale a pena semear. Celebremos, portanto, o essencial. Semear. Cuidar. Colher. E partilhar.
(foto: Avelino Vieira)