Anabela Sousa juntou coragem e muita vontade de ajudar para dizer sim ao convite que lhe foi endereçado para assumir a liderança da UD Fermedo. A nova presidente fica já para a história do futebol na freguesia por ser a primeira mulher em tais funções, ela que é apenas o quarto dirigente no cargo máximo do clube fundado há 33 anos, na sucessão do histórico Álvaro Ferreira e mais recentemente de Pedro Cirne e Miguel Ângelo Quintas. Um cargo desportivo de peso numa das maiores unidades desportivas do concelho, que mobiliza anualmente uma média de 230 atletas de todos os escalões do futebol, com fortíssima componente de formação, dos petizes aos juniores, e dos seniores aos veteranos, todos eles filiados na Associação de Futebol de Aveiro. Forte determinação e confiança numa equipa de trabalho que cuida de todos os sectores da vida do clube são atributos frisados pela presidente, num teste inédito de liderança que tem de conciliar com a vida familiar e profissional. Depois de ter já noticiado a sua eleição em Maio último, RODA VIVA voltou a falar com Anabela Sousa, que nos transmite os ideais que projecta para os dois anos de mandato na coletividade desportiva da freguesia de Fermedo. O arranque da pré-época está marcado para 18 de Agosto.

Tinha alguma experiência anterior em cargos directivos?
«Não. É a primeira vez. Eu tenho dois filhos a jogar na formação do clube, um nos juvenis e outro nos benjamins e quando fui desafiada para assumir a direcção não consegui dizer não. Embora eu não seja natural de Fermedo, já vivo aqui há 16 anos, acompanho o clube e sempre que eles precisavam, eu vinha ajudá-los em todos os torneios, estive sempre aqui com eles.»
Não receou tomar a frente de um clube que comporta já muita logística?
«Para mim é impensável largar o clube. O Miguel Ângelo [presidente anterior] disse-me que gostava que fosse eu a presidente, falou-me nessa perspectiva. Eu tenho apoio de muito boa gente, eu tenho uma equipa incrível. Posso dizer que as pessoas que eu escolhi para a minha lista são pessoas que agarraram este desafio como eu o agarrei, de coração e, para mim, isto vale tudo, está acima de tudo. Espero que nestes dois anos consigamos que a União Desportiva de Fermedo seja ainda maior.»
Foi convidada, não tinha experiência interna do clube. O que lhe deu força para avançar?
«Nós temos o Tiago Silva [Casanova], que tem sido o nosso coordenador de futebol. Ele era para sair este ano, mas nós falámos com ele e ele aceitou este convite de braços abertos, tanto que vai ser ele o nosso treinador da equipa sénior. O Tiago é incansável aqui no clube, é também o vice-presidente desportivo da direcção e vai acumular esta função com as de treinador do plantel sénior e coordenador da formação. Temos ainda o André Silva, outro vice-presidente, o Manuel Alcides, nosso tesoureiro, o Emídio Santos, nosso secretário… Temos connosco pessoas incansáveis e eu posso dar graças a Deus por isso. Temos um presidente da Junta de Freguesia [Alberto Oliveira, também presidente da Assembleia Geral da UDF] fantástico, sempre disponível para ajudar. Tenho comigo pessoas que me aconselham a fazer as coisas.»
Nota-se que está muito entusiasmada e confiante. É também um caso de paixão?
«Toda a paixão que pode existir. Digo-lhe mais. Fui eleita no dia 26 de Maio e no dia seguinte já estava a pedir à senhora presidente da Câmara Municipal se me podiam emprestar tendas para o nosso Torneio Álvaro Ferreira.»
Num desporto que é maioritariamente masculino, como encara o facto de ser uma mulher a liderar o futebol?
«Tenho três filhos, todos menores. E tenho também a minha família e amigos, que são incansáveis e apoiam-me muito nesta situação. Muita gente fica fascinada com o facto de a presidente do clube ser mulher e dizem-me que é preciso ter coragem. Na verdade, é preciso ter coragem e sou sincera quando digo que nestes dois anos de mandato vou lutar sempre com todo o amor que tenho pelo clube. Sempre. E não vou deixar que nada nem ninguém afecte a nossa convivência e o nosso trabalho, nada. E naquilo que eu puder, vou sempre apoiar toda a gente.»
Tem homens e algumas mulheres nos órgãos sociais da UDF…
«Há muitos homens em cargos de liderança, mas as mulheres, às vezes, têm outro tipo de intuições. A grande maioria da minha equipa são homens, mas também tenho nela mulheres que também abraçaram este projecto com todo o amor, também têm filhos aqui a jogar. Quase toda a gente que está na minha lista tem filhos a jogar na UD Fermedo. E elas também estão muito motivadas. Eu acho que o facto de ser mulher ainda dá mais gosto, dá mais pica, porque queremos mostrar que também somos poderosas.»

A direcção começou o mandato com um grande teste: pôr em marcha o IV Torneio Álvaro Ferreira, que é fundador e sócio nº1 da UDF. Dois fins-de-semana, mais de 60 equipas… Que balanço faz?
«Digamos que foi uma entrada fenomenal. Correu muito bem. Recebemos muitos bons feedback, dando-nos os parabéns pela organização, pela limpeza, pela simpatia com que recebemos os nossos visitantes. Tenho que dar muitos parabéns à minha equipa, que foi incansável, e também aos clubes que participaram nesta quarta edição do torneio.»
A UDF tem sido o único clube do concelho a promover este tipo de torneios. Tem um significado especial?
«Há aquele dinamismo especial. O nosso coordenador de futebol, Tiago Silva, já tem experiência de outras dinâmicas e quis implementá-las na UD Fermedo. Tem sido uma pessoa incansável neste processo, na coordenação e na vertente técnica. Ele lançou o projecto, já na altura do ex-presidente Pedro Cirne. O torneio é uma justa homenagem a quem fundou o clube e durante muitos anos o presidiu, sendo ainda hoje presidente do Conselho Fiscal. Organizações desta dimensão obviamente dão muito trabalho, mas vamos dar continuidade ao torneio que homenageia este histórico dirigente. Não podemos descartar pessoas como esta e outras que têm dirigido e ajudado a UD Fermedo, fizeram e fazem muito por nós. Sei que se nós precisarmos deles e se lhes ligarmos por algum motivo, eles são os primeiros a dar-nos a mão. E essas pessoas, na minha opinião, têm de ser sempre lembradas.»
Desde a fundação, há 33 anos, é apenas o quarto presidente da UDF, depois de Álvaro Ferreira, Pedro Cirne e Miguel Ângelo Quintas. Que significado tem para si?
«É verdade, apenas quatro presidentes. Para mim é uma honra muito grande fazer parte deste projecto. Neste momento estou muito orgulhosa daquilo que nós temos e daquilo que nós iremos conseguir ao longo deste projecto. Garanto que vamos lutar muito pela UD Fermedo.»

Como está a organização da próxima época?
«A equipa sénior está praticamente contratada, o nosso treinador e coordenador do futebol Tiago Silva tem liderado o processo. Outro dos objectivos é apostar nos nossos jovens da formação. Nós temos aqui miúdos que estão na UD Fermedo desde os petites até aos juniores. Por isso, acho que é impensável despachar esses miúdos. Eles são parte da casa e é um respeito muito grande para nós termos miúdos da formação neste momento a jogar nos seniores. Tanto para nós e também por respeito aos pais deles. Se eles confiaram em nós para estarmos a formar os filhos deles, nós agora também temos que apostar neles para os ajudar. Voltaremos a contar também com uma equipa de veteranos no campeonato da AF Aveiro.»
A UDF é um dos grandes pólos do futebol de formação no concelho. Que metas aponta neste capítulo?
«A formação é um dos pilares do clube e obviamente é para continuar. Continuaremos a dinamizar a formação, abrangendo todos os escalões, petizes, benjamins, infantis, iniciados, juvenis e juniores, acompanhados pelas respectivas equipas técnicas. Estamos a pensar também na formação em psicologia na ligação com os pais e os atletas e, angariando os meios necessários, poder proporcionar futuramente novas experiências às crianças, por exemplo através da participação em torneios de referência fora do nosso concelho.»
A UDF é um pólo aglutinador? Também atrai atletas de freguesias vizinhas?
«O facto da UD Fermedo ter uma escola de formação com muitas equipas é muito importante não só para esta parte do concelho, mas também acaba por aglutinar crianças e jovens de freguesias vizinhas, do nosso concelho e de fora do concelho. É uma oportunidade para muitas crianças que às vezes não encontram outras oportunidades. Temos sempre muitos atletas, fazemos sempre um bom acolhimento e sentem-se bem aqui.»
Necessita de recursos humanos e financeiros significativos, mas como é ter apenas o Campo de Resumil para suportar toda esta actividade desportiva?
«Face aos nossos projectos, preocupa-nos muito a insuficiência de instalações para a dinâmica que temos. Há uma necessidade urgente, há muito que precisamos de mais um campo. Já estamos a trabalhar nisso. Vamos ver o que é que vamos conseguir para este mandato. E precisamos também de aumentar as nossas instalações, com prioridade para o aumento do número de balneários. Conforme as coisas estão e tendo em conta a nossa dinâmica é mesmo muito complicado fazer a gestão dos espaços, dos treinos diários e dos jogos ao fim-de-semana. Precisamos desta ajuda, vamos ver se conseguimos chegar ao coração da Câmara Municipal. Nós já estamos a “chatear” o nosso Presidente da Junta e claro que vamos “chatear” também a nossa Presidente da Câmara. Porque nós queremos que a nossa formação cresça.»
Que mensagem quer deixar?
«A única coisa que eu quero é agradecer de fundo do coração a todos os meus colegas que estão na UD Fermedo. Mais que colegas, são amigos que eu vou levar para a vida. Quero agradecer também ao nosso presidente da Junta, Alberto Oliveira, à presidente da Câmara, Margarida Belém, e à vereadora Cláudia Oliveira, pelo apoio que nos deram assim que iniciamos funções com a organização do IV Torneio Álvaro Ferreira. Ter o apoio das pessoas é para mim muito importante.» MMS/RV