Para um amigo

Faleceu no dia 5 de Janeiro de 2026 o Toni Coelho. O seu funeral, realizado na Igreja de Moldes, na tarde do dia 6 de Janeiro, juntou largas centenas de pessoas. A pedido de vários amigos, e em jeito de (muito incompleta) homenagem, publica-se aqui, na íntegra, a homilia proferida na celebração.

No final da sua Regra Pastoral, o papa São Gregório Magno convidava e exortava um amigo a prestar-lhe esta companhia espiritual: «No meio das tempestades da minha vida, conforta-me a confiança de que tu manter-me-ás à superfície sobre a tábua das tuas orações e, se o peso das minhas culpas me abater e humilhar, emprestar-me-ás a ajuda dos teus méritos para me elevar». Quem assim escreve está consciente de que sozinho não será capaz de se manter de pé: precisa do apoio de um amigo. Sozinhos, perdemo-nos. Um amigo é como uma estrela que brilha na escuridão das nossas noites. Um amigo levanta-nos. Mesmo que não saiba como. É a maior beleza da amizade: não se inventa nem planeia, simplesmente acontece.

A amizade é feita em partes iguais de apoio e de exemplo. É próprio da amizade o amigo prestar apoio ao amigo. E é também próprio da amizade querer imitar o amigo. Quem ama deseja tornar-se semelhante ao amado, para poder ser «amável» para o amigo: não quer ser igual a ele, antes quer crescer com ele e com ele aprender a dar o melhor de si mesmo. «Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, aí estará também o Meu servo» (Jo 12, 26), diz Jesus, imediatamente antes de abraçar a Sua hora. «Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a Meu Pai» (Jo 15, 15), dirá Jesus, já em plena Última Ceia, àqueles que O seguiram até àquela hora. No Evangelho de São João, a relação íntima com Jesus, o «saber o que Ele faz», o «conhecer [através d’Ele] o que Ele ouviu a Seu Pai», é descrito em termos de amizade. Ser amigo de Jesus é apoiar-se n’Ele e querer imitá-l’O, porque se está interiormente preenchido por Ele. Isto não se explica, simplesmente vive-se.

«Senhor nosso Deus, que destes ao Vosso servo Toni a graça de Vos servir no sofrimento de uma longa enfermidade, concedei que, tendo ele seguido a Cristo nos passos da Sua Paixão, com Cristo receba o prémio da glória celeste» (Ritual das Exéquias). Aos olhos de quem vê de fora, esta prece é chocante: como pode o «sofrimento de uma longa enfermidade» ser uma «graça»? Aos olhos do amigo, isto simplesmente é assim. Ao Toni foi dada a graça de uma assombrosa vida interior. Ele quis-se amigo de Jesus, com tudo o que isso implicou. E Jesus mostrou-lhe o Seu bem mais valioso, abriu para ele o Seu tesouro mais íntimo: o caminho da cruz. Vista de fora, a cruz é apenas sofrimento absurdo. Vista pelos olhos do amigo, a cruz é o ápice do amor; e a entrega da vida depois de longa luta é o amor consumado. «Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23, 46): há aqui uma alegria profunda, absoluta, indizível. Só o Amigo pode mostrar isso ao Seu amigo. O Toni aprendeu a abraçar a hora de Jesus nas pisadas da primeira que O seguiu: a sua Mestra foi Maria.

Houve ainda outro tesouro que foi aberto para o Toni: a sede. «Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse: “Tenho sede”» (Jo 19, 28). Os que estavam em torno da cruz, achando que Jesus falava da sede física, correram a levar-Lhe à boca uma esponja embebida em vinagre. Jesus não quis aquilo, pois não era essa a Sua sede. A Sua era a sede que já se tinha manifestado no encontro com a samaritana: a sede de Se dar para saciar os outros (cf. Jo 4, 7-10). O Toni sofreu longamente, muito mais tempo do que até os médicos que o acompanharam poderiam supor. Foi, sem sombra de dúvida, um lutador. Visto de fora, alguém poderia pensar: «Ele tinha uma grande força de viver». Achar que era apenas isso que o movia, uma «grande força de viver», é não acertar no alvo. É dar tiro ao lado. Pois não era meramente a força de viver que o movia. O Toni não foi um egoísta obstinado, que sacrificasse tudo e todos por mais uns minutinhos cá. Ele não se sujeitou às dores tremendas, aos tratamentos prolongados, às sucessivas operações, apenas para obter mais um ano, um mês, uma semana, um dia ou uma hora sequer de vida. O Toni foi uma das pessoas mais incrivelmente generosas que alguma vez conheci. Visto pelos olhos do amigo, percebe-se que não era o desejo de viver por viver que o movia: movia-o, isso sim, a sede de se dar. Para ele, ultimamente, o tempo de vida, em si mesmo, já não interessava nada: interessava, isso sim, ter tempo para se dar. O foco já não era ele próprio, a sua sobrevivência física, o foco eram os outros. O foco era a sede de mostrar Jesus aos outros. Só assim se compreende a peregrinação a Paris… Como Jesus, o Toni amou e deu-se até ao fim. Os Evangelhos registam que, depois de manifestar a Sua sede, Jesus deu um grito, palavras que ninguém percebeu, antes de mergulhar no silêncio. Essas palavras inarticuladas eram ainda expressão da Sua sede de Se dar: mesmo quando fisicamente já não era possível mais, o desejo gritou mais forte. Até nisso…

«Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro» (Sir 6, 14). Sortudos somos nós, porque Deus nos deu este homem! Sortudos somos nós, que no Toni encontrámos um filho, o marido, um pai, um irmão, um familiar, um funcionário, um patrão, um colega, um educador e, sempre, um amigo. «Quem o encontrou, descobriu um tesouro».

Toni, nunca o tratei por tu nem o Toni o fez comigo. Não foi precisa essa informalidade para que nascesse entre nós uma profunda amizade. Não se explica, simplesmente aconteceu. Hoje, porém, pela primeira e única vez, vou tratá-lo por «tu», para te dizer, com as palavras do nosso Mestre: Toni, amigo,«muito bem, amigo bom e fiel. Porque foste fiel nas coisas pequenas, ser-te-ão confiadas as grandes. Entra na alegria do teu Senhor» (Mt 25, 21). E, Toni, por favor, no reino da luz e da paz, lembra-te destes teus amigos, que são tantos e sentem tanto a tua falta. Padre José Pedro

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