Museu Municipal de Arouca acolhe “Arte com Alma” de Isabel Cardoso

Há sonhos que escolhem o momento certo para nascer. Para Isabel Cardoso, natural de Alvarenga e profissional da área social e educativa, esse momento traduz-se em 19 obras com volume, textura e sentimento. A artista plástica autodidata acaba de apresentar ao público a sua primeira exposição temporária, intitulada “Arte com Alma”, que está patente no Museu Municipal de Arouca até ao próximo dia 6 de Setembro.

No momento de abertura, a presidente da Câmara Municipal de Arouca, Margarida Belém, saudou a autora e destacou a dinâmica cultural da instituição, sublinhando a importância de o município continuar a abrir as portas do seu museu e da sua biblioteca à promoção e à divulgação do trabalho criativo dos talentos arouquenses.

Uma autodidata apaixonada pela via artística

Depois de anos de trabalho na agitada cidade do Porto, Isabel Cardoso escolheu o regresso a Terras de Santa Mafalda. Foi neste regresso às origens, e à sua nova residência, no Burgo, que o seu impulso artístico ganhou nova dimensão, um impulso criativo que a artista tem de conciliar com a sua actividade profissional numa Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) na sede do concelho.

A arouquense assume-se com naturalidade como artista plástica autodidata, um processo experimental e de aprendizagem que, contudo, lhe permitiu «desenvolver uma linguagem visual própria e contemporânea.» O seu trabalho caracteriza-se pela «exploração contínua da matéria, da pintura e do relevo, conferindo uma dimensão tridimensional e uma forte identidade às suas composições», refere a organização.

Definindo-se através de valores como «determinação, solidariedade e expressividade», a arouquense encara a arte como um espaço de diálogo, reflexão e encontro. Através das suas obras, Isabel Cardoso «partilha um olhar sensível sobre a condição humana, abordando temas profundos como a espiritualidade, a memória, o tempo, a transformação e a busca pelo equilíbrio.»

«Esta exposição é exactamente aquilo que eu sou, é a minha vida»

O percurso de Isabel Cardoso ficou marcado pela descontinuidade dos estudos. A necessidade de prestar assistência prolongada à sua mãe, vítima de uma doença grave, forçou-a a deixar a escola para trás. Porém, a intensa sensibilidade para as questões humanas fortaleceu-se com o tempo e incitou o renascimento da veia artística. Afinal, contou a autora ao Roda Viva, os apelos da arte já se faziam ouvir na infância, altura em que os seus desenhos a carvão eram enviados para concursos pela sua professora primária, Olga Valente.

Após esse hiato forçado, a força criativa intensificou-se na idade adulta. «A minha reacção expressou-se em muita energia, fé e espírito de superação», partilha a autora, que encontrou na criação artística uma forma de moldar emoções e conferir sentido estético à existência. «Interajo muito com artistas nacionais e estrangeiros», acrescentou.

“Arte com Alma” marca o primeiro aparecimento público. «Esta exposição é exactamente o meu “eu”, a minha personalidade, a minha forma de ser, a minha vida. Sinto-me uma pessoa alegre, sensível e solidária, mas também determinada na busca dos caminhos que quero», confessa.

«Achei que devia ter a minha própria identidade como artista»

Distanciando-se da pintura tradicional, Isabel Cardoso foca o seu trabalho na riqueza táctil do relevo. «Não tenho especial apetência pela pintura, ou seja, em trabalhar apenas as tintas. Para mim, o relevo dá outra visão à obra, é algo diferente daquilo que estamos acostumados a ver. Eu achei que devia ter a minha própria marca, a minha identidade como artista, marcar a diferença. Sei que as pessoas vão estranhar, pois o relevo que acaba por preencher a tela, dá sombra, dá altitude, dá volume à obra», explica.

Quando sente que a obra está concluída? Isabel Cardoso responde: «Sou exigente comigo própria. Por vezes arranco quase tudo o que tinha feito e volto a fazer até sentir que expressei o que pretendia. Creio que as obras em relevo transmitem melhor a diversidade da realidade e do nosso mundo interior. De uma lado temos uma visão, do outro temos outras, o relevo responde melhor a essa pluralidade de olhares. As obras dão muito trabalho, mas dá-me gosto fazê-las», explicou.

Através de uma linguagem visual sensível, a exposição aborda valores universais como a dor, o amor, a transformação e a esperança. Isabel Cardoso acredita que a sua arte funciona como um espelho de vivências comuns: «Todos temos essas passagens na vida.»

Motivada pelo impacto deste primeiro aparecimento público, a profissional e artista natural de Alvarenga assume já o desejo de levar o seu trabalho a novos espaços de exposição. MMS/RV

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