Festival da Castanha de Arouca

O Festival da Castanha está de volta a Arouca. Num momento em que o evento se renova a cada ano, vale a pena recuar no tempo, recordar como tudo começou e refletir sobre a evolução da sua essência.

Para compreender a sua génese, é preciso recuar até 2011. Antes desse ano, Arouca vivia um hiato cultural marcante: após a efervescência da Feira das Colheitas, o concelho entrava numa espécie de “hibernação” até à época natalícia. Foi precisamente no rescaldo de umas Colheitas que surgiu a ideia de mudança. Juntei-me a dois amigos – o Joaquim Alves (“Quim Albano”) e o Nuno Costa (“Picasso”), empresário da restauração – para preencher essa lacuna cultural no Outono. A escolha do tema foi natural, visto que Arouca era e continua a ser reconhecida como a “terra da castanha”, embora lhe faltasse um evento cultural e gastronómico focado nesta identidade. Para concretizar o projeto e obter o apoio da Câmara Municipal de Arouca, criámos uma parceria com uma das associações mais antigas do concelho: a Casa do Povo de Arouca.

A primeira edição decorreu a 11 e 12 de novembro de 2011, tendo como palco o pátio interior do Convento, sob uma tenda transparente que deu uma moldura única ao evento. A vertente gastronómica contou com um restaurante criado na Sala dos Arcos, onde a castanha era a rainha. Na música e na dança, estabeleceu-se uma parceria com a Casa do Povo para workshops de danças tradicionais, enquanto no plano musical o evento contou com o apoio de grupos amigos como os Fonte na Pipa (música popular de Coimbra) e os Andarilhos (música do mundo do Douro). Em termos de sustentabilidade, decidimos arriscar num bilhete pago de valor simbólico, algo pouco comum em Arouca, com o objetivo de tornar o festival autossustentável, o que acabou por ser um verdadeiro sucesso.

Imagem da primeira edição do Festival (2011)

Na segunda edição, em 2012, a autarquia reforçou o suporte financeiro e o festival passou a ter entrada gratuita. Esta alteração democratizou o acesso à cultura, embora ainda hoje questione se não deveríamos ter mantido o modelo de sustentabilidade inicial, pautado por uma cultura acessível, mas valorizada. Já em 2013, na terceira edição, os três ideólogos “saíram de cena”, passando a organização inteiramente para a Casa do Povo e o Município de Arouca, sendo que o resto é história.

Ao longo dos seus anos de existência, o festival cresceu significativamente, transitando de um conceito focado na música e dança tradicionais para uma mostra abrangente. Esta evolução incluiu música tradicional e folk de referência onde, além dos grupos folclóricos locais, passaram pelo palco nomes como Retimbrar, Pé na Terra, Sebastião Antunes, Diabo na Cruz, Dazkarieh, Uxukalhus e Celina Piedade, só para citar alguns. Paralelamente, agregou atividades diversificadas como showcookings, feira de produtos agrícolas, magustos, workshops, teatro e concursos.

Como projeto que nasceu do associativismo e da cidadania, é gratificante ver o Festival da Castanha transformar-se num dos marcos anuais do concelho. No entanto, o seu crescimento traz desafios que merecem uma reflexão crítica para preservar a sua essência. Quanto à inclusão da comunidade e restauração, importa recordar que o festival inicial foi pensado para os arouquenses – ao contrário da Feira das Colheitas, que visa também mostrar Arouca para o exterior -, pois o objetivo nunca foi criar uma “Feira das Colheitas 2.0”. Por isso, preocupa notar uma menor adesão da restauração arouquense no programa oficial e o facto de a Casa do Povo de Arouca, entidade cofundadora, já não integrar a organização.

No que toca à estrutura do programa, o alargamento para quatro dias por vezes passa a sensação de querer “encher” a agenda para transmitir grandiosidade, sendo exemplo disso os dias com pouca densidade de oferta (como anúncios de prémio isolados) que poderiam ser integrados noutros momentos. Já sobre a dimensão geográfica e o calendário, a dispersão espacial (“da Praça ao Museu”) perde eficácia se não houver mobilização suficiente. Além disso, a proximidade temporal à Feira das Colheitas retira-lhe impacto, pelo que o evento ganharia mais em realizar-se em meados de Novembro, como na data original. Por fim, relativamente à identidade propagada, o forte crescimento ancorado em encontros nacionais de caravanistas trouxe público, mas nos últimos anos o festival tem perdido algum do fulgor do aconchego comunitário inicial.

Em conclusão, projetos que nascem da sociedade civil e ganham escala pública são um motivo de orgulho para a nossa terra. O Festival da Castanha é hoje património de todos os arouquenses. O Festival está aí: aproveitem!

Outros Artigos de Interesse

Opinião

O “velho” Casarão

ALEXANDRE DUARTE: «Envolto em grande mistério e em teorias da conspiração típicas de uma imaginação fértil como só os adolescentes têm»
Opinião

Como manter viva uma associação?

LARA PINHO: «Ganhámos em eficiência, rapidez e facilidade de organização, mas perdemos, pelo caminho, alguns dos pretextos que nos obrigavam a estar juntos»
Opinião

A colheita

IVO BRANDÃO: «Uma comunidade constrói-se semeando. Ideias, oportunidades, educação, cultura, confiança»