Anabela Sousa: um ano de história e superação na liderança da UD Fermedo

Passou um ano desde que Anabela Sousa assumiu a presidência da União Desportiva de Fermedo, inscrevendo o seu nome na história do futebol local. Ao tornar-se a primeira mulher a liderar os destinos do clube, que conta já com 34 anos de existência, a dirigente quebrou barreiras num universo predominantemente masculino. Trata-se de um marco histórico na actividade desportiva da freguesia, sendo Anabela Sousa apenas a quarta personalidade a ocupar o cargo máximo da instituição, sucedendo ao histórico Álvaro Ferreira e, mais recentemente, a Pedro Cirne e Miguel Ângelo Quintas.

Gerir a UD Fermedo é assumir a responsabilidade por uma das mais dinâmicas unidades desportivas do concelho. Na última época, o clube mobilizou onze equipas divididas por todos os escalões de formação — desde os mais jovens petizes até aos juniores —, sem esquecer as equipas de seniores e veteranos. Toda esta estrutura compete sob a égide da Associação de Futebol de Aveiro, exigindo uma forte componente logística e financeira para manter o foco vincado na formação desportiva e humana dos jovens da região.

Presidente exalta equipa de trabalho

Em entrevista de balanço ao RODA VIVA, a presidente sublinhou que este primeiro ano representou um teste inédito de liderança. Rectificar e aprender com os erros, superar carências, aperfeiçoar a gestão e conciliar as exigências do cargo desportivo com a vida pessoal e familiar são desafios que a dirigente procura transpor sempre a pensar na melhor versão para o clube. Contudo, Anabela Sousa exalta a componente colectiva da missão e destaca a forte determinação e o espírito de compromisso da sua equipa de trabalho, uma estrutura focada em cuidar de todos os sectores vitais do clube e que tem sido o pilar fundamental para garantir a estabilidade e o crescimento contínuo da UD Fermedo. No contexto da 5ª edição do Torneio Álvaro Ferreira, Roda Viva voltou a falar com a dirigente fermedense.


ENTREVISTA

Que balanço faz deste seu primeiro ano de experiência directiva?

«Não é um trabalho fácil, mas há muita gente que me ajuda. Foi um ano muito difícil porque foi um ano de aprendizagem. Comecei do zero e não tinha experiência de tudo o que a gestão do clube envolve. Antes, eu era apenas uma espectadora, uma mãe a ver os filhos a treinar ou a jogar. Há uma grande diferença entre a minha visão de fora e a minha visão de dentro. Por exemplo, quando há reclamações temos que estar atentos, há erros que acontecem e o que nós queremos é resolvê-los para que tudo corra bem, embora nem sempre o consigamos.»


Sente-se mais preparada para enfrentar o segundo ano de mandato?

«Sim, sinto. Sou melhor em acções do que com as palavras. Os atletas da UD Fermedo, da formação aos seniores e aos veteranos, são a razão de ser dos nossos projectos e todos merecem o meu maior respeito. Eles estão a dar a cara por uma instituição. Eu dou a cara como presidente, mas são eles que dão a cara dentro do campo, são verdadeiros guerreiros.»


Graças a uma promoção administrativa, o clube participou pela primeira vez na sua história na 1ª divisão distrital. Não correu bem…

«Participar foi uma decisão ponderada por toda a gente, mas a palavra final foi minha e estou aqui para assumir. Tínhamos preparado a equipa para a 2ª divisão, mas se não fossemos disputar a 1ª divisão distrital não teríamos esta experiência de um escalão superior. Apesar de termos perdido quase todos os jogos, temos atletas que deram tudo de si para que continuássemos até ao fim, nunca baixaram os braços nem desistiram. É com estas pessoas que podemos contar. Claro que nem tudo foi perfeito, tivemos atletas que saíram, outros que estiveram lesionados, mas aqueles que estiveram em campo foram sempre verdadeiros guerreiros.»


Durante a época foram lançados vários jovens da formação na equipa principal…

«Sim, e foi gratificante. Alguns têm recebido propostas de outros clubes, não sei qual vai ser a decisão deles, mas seja qual for a decisão que tomem, espero que sejam felizes e se lembrem sempre que o Fermedo foi a casa deles.»


Há atletas que já vestiram as cores da UD Fermedo e que se têm evidenciado noutros palcos. O Tiago Portugal, o Bruno Cruz, a Lara Lisboa …

«O Tiago esteve no nosso torneio a tirar fotografias com os nossos atletas. Ele está numa equipa grande [FC Porto], é campeão e é também um grande ser humano. É também um bocadinho nosso, merece um miminho do Fermedo. O Bruno também esteve no nosso torneio, na cerimónia de entrega de prémios, até entregou o prémio ao pai, que é o treinador dos juvenis. Para nós é muito gratificante reconhecer estes atletas que cresceram na UD Fermedo. Eles são a prova de que vale a pena sonhar, são referências para os nossos atletas.»


E a Lara? A primeira atleta da UD Fermedo na selecção sub-15 da AF Aveiro …

«A Lara é uma óptima menina, uma óptima jogadora, tem grande maturidade, é uma das caras do nosso Fermedo. Ela trabalha muito, tem muita garra. Jogou pelos iniciados, pela equipa feminina e pela selecção.»

A UD Fermedo estreou uma equipa feminina sub-15. O projecto é para continuar?

«No início não foi fácil, muitas meninas jogaram futebol pela primeira vez. Tivemos muitas derrotas, mas aquilo que nos interessa é que elas cresçam desportivamente e, sobretudo, como pessoas. Temos muita gente a procurar-nos. Aumentar o número de equipas femininas é algo que ainda temos que ver.»


A UD Fermedo é o único clube do concelho com uma equipa de veteranos no campeonato distrital, a Liga Masters.

«A época não correu como pretendiam, houve muitas lesões, mas é de louvar o trabalho que fizeram durante a época. É mais um aspecto da nossa dinâmica desportiva. Peço desculpa às minhas equipas porque eu nem sempre consigo estar presente nos jogos de todos os escalões. Também sou mãe e gosto de acompanhar os jogos dos meus filhos, mas apoio sempre todos os nossos jogadores. Mesmo não estando presente, eles estão sempre no meu coração. Mas tento estar em todo o lado.»


Em que ponto está a preparação da nova época da equipa sénior, novamente na 2ª divisão?

«Já estamos a preparar a próxima época. O treinador continua a ser o Tiago Casanova. Ele não teve o melhor campeonato, mas acredito imenso no potencial dele. Ele é o braço direito da direcção, juntamente com o Alcides, o André, o Emídio… são pessoas com quem temos de contar sempre. É normal haver divergências, mas isto é um grande trabalho de equipa e as resoluções são sempre tomadas em prol da UD Fermedo.»

A UD Fermedo tem crescido como um dos polos de futebol no concelho e tem a formação certificada pela FPF. Como vê esta capacidade de mobilização?

«Toda a logística dá bastante trabalho, mas compensa ver os nossos atletas felizes a fazerem aquilo que gostam. A nossa formação está certificada com três estrelas. Esta época, os nossos iniciados conquistaram a subida à divisão de Honra, os juniores foram ao playoff e estiveram perto da subida à divisão de Elite. Contamos com o imprescindível apoio dos pais, sem eles não conseguiríamos.»


Está a destacar os pais como bons parceiros…

«Os pais acompanham os filhos para todo o lado, nunca desistem nem deixam os filhos desistirem dos seus sonhos. Temos pais que são directores de equipa e eles fazem um óptimo trabalho. A direcção, as equipas técnicas, os pais sempre estiveram presentes. Obviamente, nem tudo é perfeito neste processo, mas vamos procurando rectificar os erros que surgem. A vida é uma aprendizagem. Temos ainda a ajuda de pessoas que conhecem bem o clube como o senhor Álvaro Ferreira ou o senhor Alberto Oliveira, os presidentes anteriores Pedro Cirne e Miguel Quintas …»


Conta também com outros parceiros…

«Não sou eu nem apenas os elementos a direcção que levamos o clube para a frente. Obviamente, não posso esquecer os patrocinadores da UD Fermedo. Sem eles não teríamos clube. Isto não é tudo um mar de rosas, a UD Fermedo tem muitos gastos para assegurar toda a sua actividade. Aos parceiros que já citei, junto ainda o apoio da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal. Por exemplo, ultimamente procedemos a várias obras de beneficiação nas instalações, entre elas o gabinete médico, e foram concretizadas com mão-de-obra da casa, dirigentes e pais colaboraram, tivemos um grande apoio em material da empresa Portugal Alves, das tintas Neuce, da drogaria de Escariz…»


Ter apenas um relvado [campo de Resumil] e um minicampo de futebol de cinco para tanta dinâmica não é frustrante?

«Realmente, manter esta logística é muito difícil. Vamos tentar chegar ao coração daqueles que estão mais próximos de nós a nos ajudar. Fazermos aumentos das nossas estruturas sem apoio é muito difícil. Vamos continuar a tentar, pois sentimos uma enorme necessidade de aumentar o nosso espaço.»


Como decorreu a 5ª edição do Torneio Álvaro Ferreira? Envolveu dois fins-de-semana e mais de sessenta equipas…

«Claro que nem tudo é perfeito, mas fazer este torneio dá-me uma grande sensação de alegria. Tivemos um feedback muito positivo dos clubes participantes. Foi também a primeira vez que as nossas equipas tiveram mais ênfase ao venceram alguns dos escalões – petizes, benjamins A e juvenis. Há um sinal óbvio de que a nossa formação está a evoluir, por detrás há todo um bom trabalho dos nossos treinadores.»

O conhecimento e a experiência do coordenador de todo o futebol, Tiago Casanova, são essenciais em todo este processo…

«O Tiago é uma pessoa fundamental no clube. Ele é a pessoa que tem mais trabalho devido às múltiplas funções que desempenha, na relação com a logística, os treinadores, os pais, a formação e o futebol sénior. Reconheço que é muito cansativo para ele, mas ele quer sempre mais e melhor pela UD Fermedo.»


Tem a sua vida familiar, tem três filhos, toma conta do clube. Que paixão é esta que a move?

«Fizeram-me este desafio e aceitei. Agora que estou dentro da gestão do clube, encaro-o de outra forma. Sinto o maior carinho por todos os atletas que vestem a camisola da UD Fermedo. O nosso ideal é que eles cresçam mais e melhor na UD Fermedo. A postura e a confiança dos pais também é importante neste processo.»


Mulheres à frente do futebol. Sente que há ainda algum tipo de preconceito?

«Ver uma mulher à frente do futebol às vezes é difícil de engolir. Há pessoas que duvidam, mas eu estou na UD Fermedo para mostrar que as mulheres também são capazes. Não sou de deitar abaixo tão facilmente. Tenho um compromisso com o clube e vou levá-lo até ao fim. Não sou pessoa de desistir», concluiu a presidente da UD Fermedo, sempre muito emotiva e sentimental na forma como fala do clube do seu coração. MMS/RV

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