Distorções eleitorais

O momento campanha eleitoral é propício a um ambiente político e mediático agitado. Essa envolvente, que estamos a viver, faz com que a resposta social nas urnas fique centrada na perceção da realidade e não apenas em elementos factuais da realidade. Atualmente, com os media tradicionais debilitados e as redes sociais, a dimensão “perceção” ganha relevância democrática. Ter noção destas distorções, estruturais ou circunstanciais, é uma boa ajuda a um voto consciente.
No caso específico destas eleições legislativas, concorrem ainda outros fatores que ajudam a baralhar o voto e deveriam merecer resposta – com um sistema eleitoral mais robusto.
Estes fatores passam, por exemplo, por se confundir (deliberadamente) o eleitor de que não se trata de uma mera eleição legislativa – que elege deputados de um parlamento, com poderes legislativos – mas que se trata da eleição de um primeiro-ministro.
Além disso, do ponto de vista estrutural, existem círculos eleitorais de dimensão muito desigual, sem círculo de compensação.
Isso faz com que tenhamos – em termos de voto “líquido” – opções diferentes para um eleitor de Lisboa (com escolha praticamente plena) ou Portalegre (que funciona quase em círculo uninominal).
Um efeito muitas vezes amplificado pelos dados conhecidos de sondagens, em que cada eleitor toma a sua decisão de voto não apenas pela adesão às ideias de um dado partido, mas também em função da dinâmica de mobilização social percecionada.
A estes efeitos somam-se dois outros. Primeiro, a regra constitucional, legítima, de que cada deputado é deputado da nação e, após eleito, representa todo o país e não o distrito por onde foi eleito – quebrando o vínculo territorial do eleito.
Segundo, a distorção entre o que são círculos eleitorais (distritais), outras unidades administrativas e dinâmicas territoriais.
Por exemplo, os votos dos arouquenses elegem deputados pelo círculo de Aveiro, onde a maioria dos concelhos do distrito pertence à zona Centro (NUTS II), enquanto Arouca pertence à Grande Área Metropolitana. Poderia ainda dar outros exemplos, como as próprias plataformas políticas. Em que, no fundo, cada eleitor é chamado a optar entre listas pré-estabelecidas pelos partidos políticos, uma pré-seleção de menos de 2% da população (número de portugueses filiados em partidos).
Para lá destas questões, estruturais e de processo eleitoral, existem outras distorções de circunstância – não menos relevantes. A primeira é simples de entender: o viés dos media ou atenção. Este fenómeno resume-se ao facto de que posições mais extremadas provocam mais interação e, por isso, têm maior projeção. Com as redes sociais o problema agudizou-se, sendo que não apenas aumentou a projeção
sem “curadoria” editorial, como os algoritmos privilegiam essas publicações mediáticas. O efeito mediático cria a perceção de mobilização. Isso leva-nos a uma consequência complementar: o efeito bolha e viés de aprovação. A estrutura das redes sociais está montada para aumentar o tempo de permanência dos utilizadores nessa aplicação. Para isso, o algoritmo dá maior destaque às publicações com que concordamos, em detrimento de outras mais plurais ou com opiniões políticas e sociais mais distantes. Isso agudiza o natural viés de aprovação, que nos faz procurar factos e opiniões que
sejam alinhados com as nossas ideias, e cria ainda um efeito bolha, em que parecemos rodeados de pessoas iguais e de opinião similar.
Soma-se outro efeito de distorção, não tão aplicado nesta eleição: o efeito incumbente – que explica a tendência a reconduzir quem está no cargo. O efeito na origem da limitação de mandatos e agudizado com a promoção pessoal, via comunicação institucional, dos titulares de cargos públicos.
Ter conhecimento das distorções é um primeiro passo para um voto racional e consciente. E para que a escolha não venha contaminada de fatores estruturais e circunstanciais que afetam a nossa perceção e influenciam o resultado do voto individual.

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JOSÉ CARLOS SILVA