SOCIEDADE
 
Círculo Cultura e Democracia leva iniciativa a Santa Maria do Monte
 
«Apesar, ou talvez por causa da dureza da vida, as pessoas conviviam mais entre si», reflexões do debate “Arouca de ontem e de hoje - a terra e as gentes”
 
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No passado dia 24 de Junho o Círculo Cultura e Democracia promoveu a sua primeira actividade fora da vila de Arouca: o Centro Cultural Recreativo e Desportivo de Santa Maria do Monte acolheu no seu salão o último "Serão do Círculo", cujo tema foi "Arouca de ontem e de hoje - a terra e as gentes". No final, para contentamento de todos, um impulso generoso do grupo de cantares da terra permitiu que este serão de tertúlia encerrasse com duas cantas de Santa Maria do Monte, interpretadas pelos elementos presentes.
Em seguida apresenta-se uma síntese do que foi abordado.
Arouca viveu sempre na sombra do Mosteiro, do qual dependia economicamente. Contrariamente a muitas outras regiões do país, não havia famílias nobres no topo da hierarquia social. A distinção de classe fazia-se entre os caseiros ricos (com mais do que um foro) e os pequenos caseiros, mais pobres. No século XIX, depois da extinção das Ordens Religiosas, as terras do Mosteiro foram vendidas em hasta pública, tendo algumas famílias, de fora (porque o regime foreiro não permitia aos da terra enriquecerem) - por exemplo Rossas, que era dependente da Ordem de Malta e não da Abadessa, enriquecido o seu património através da sua compra, adquirindo assim um estatuto mais elevado na escala social.
A tertúlia contou com a participação de Armando Zola, Albino Oliveira, Carlos Gomes Ferreira, Jorge Gonçalves, e de um conjunto de intervenientes de entre as pessoas presentes, que deram o seu testemunho de como era viver em Arouca em meados do século XX.
A maioria das casas, fora da Vila, eram de dimensão reduzida, sem privacidade, e não possuíam electricidade, água canalizada ou esgotos.
Existiam muito poucas fábricas, apenas algumas serrações de madeira, razão pela qual os habitantes trabalhavam essencialmente na agricultura, utilizando instrumentos de lavoura rudimentares. A falta de trabalho e de rendimento no campo forçou muitos arouquenses a emigrar para o estrangeiro, com trabalhos sazonais ou não. Alguns foram tentar a sua sorte em África, mas tiveram que voltar depois do 25 de Abril. A Guerra Colonial também fez com que as terras começassem a ser abandonadas, por falta de homens para as trabalhar.
No entanto, durante a II Guerra Mundial, e por mais alguns anos, a exploração de volfrâmio chegou a empregar muitas pessoas de Arouca, que assim conseguiram melhorar as suas condições de vida.
Nas camadas sociais mais humildes os filhos eram considerados como "activos", uma força de trabalho para ajudar no amanho da terra. Não era bem visto ir estudar ("um estudante é um malandro"); na ideia dos pais, para subir na vida, os filhos precisavam era de aprender uma "arte" (carpintaria, construção civil, ...) e, assim, ganhar dinheiro. As raparigas ajudavam no campo, tratavam dos irmãos. Algumas iam servir, como criadas, no Porto ou outros locais, mesmo ainda crianças. Tinham menos acesso ao ensino do que os rapazes. Os próprios pais eram, na sua maioria, analfabetos, sobretudo as mulheres.
Ainda no que diz respeito à educação, as crianças podiam frequentar as várias escolas primárias do concelho, mas depois da 4.ª classe, para prosseguir os estudos, tinham que sair de Arouca, e, neste caso, a via menos onerosa era ir para o seminário, possibilidade evidentemente vedada às mulheres, mas poucas crianças iam além da quarta classe. Existia o colégio de Santo António para rapazes e na Vila o colégio de Santa Mafalda para meninas. Mais tarde, o Colégio dos Salesianos, teve um papel importante em Arouca. Só depois do 25 de Abril foi construída a Escola Secundária que acolhe actualmente mais de mil alunos e alunas.
A distinção entre camadas sociais reflectia-se também no vocabulário. Por exemplo, em relação às crianças: as mais humildes, eram "moço" e "cachopa", na camada intermédia "rapaz" e "rapariga", nas camadas mais altas "o menino" e "a menina".
O acesso aos cuidados de saúde era difícil. As vias de comunicação eram poucas e em mau estado de conservação, pelo que se tornava difícil socorrer as populações em caso de emergência. Muitas mulheres morriam no parto. As famílias eram grandes, com muitos filhos, mas a taxa de mortalidade nas crianças era também muito elevada.
A falta de vias de comunicação reforçava o isolamento de Arouca em relação às outras regiões do país e também o isolamento das próprias freguesias dentro do concelho. O "Fundo do Concelho" era colocado à parte, estando distante da vila de Arouca. Parte dos seus habitantes trabalhava nas fábricas dos concelhos vizinhos de Vila da Feira, S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis, mais industrializados. Por isso, e porque anteriormente integravam o antigo concelho de Fermedo (extinto por volta de 1836), os do "Fundo do Concelho" não se sentiam "arouquenses" - até tinham vergonha de dizer que pertenciam a Arouca - e não possuíam ligações com a Vila, onde só iam para tratar de questões burocráticas. No entanto, a partir dos anos 90 a situação mudou graças à intervenção da Câmara que se comprometeu mais com o desenvolvimento e na ligação com esta parte do município.
Apesar, ou talvez por causa da dureza da vida, as pessoas conviviam mais entre si. Entreajudavam-se nos trabalhos do campo, na construção dos caminhos. Também cantavam...
A solidariedade entre os arouquenses manifestou-se ainda mais com a criação de associações como os Bombeiros Voluntários, o Patronato, a AICIA e outras.
Nas últimas décadas "a evolução de Arouca foi espectacular" pois um "sistema injusto tem os dias contados".
Os participantes colocaram ainda algumas questões:
-A vida está melhor, mas perderam-se algumas coisas importantes, como os laços e o convívio entre as pessoas; a paisagem era mais ordenada/ trabalhada e mais segura (razão pela qual não deflagravam tantos incêndios incontroláveis como os actuais). Como recuperá-las?
-Será que actualmente se vivem dificuldades semelhantes às vividas há 50 anos? Por exemplo: o pagamento dos estudos, a necessidade de se deslocar mais longe para continuar os estudos, a falta de emprego...
-Em que medida as mudanças entretanto ocorridas afectaram a vida das pessoas que continuam a viver em Arouca, particularmente as que vivem na serra?
-Como fixar as pessoas em Arouca?
-Que estímulos se podem criar para que os jovens se fixem ou regressem a Arouca?
-Como é que os jovens vêm o seu futuro, em Arouca ou fora de Arouca?
-O que pode vir a ser o futuro em Arouca?
-Que experiências tirar do passado para que o futuro seja melhor?
A Associação organizadora prometeu continuar com os seus espaços de reflexão e ir ao encontro de outros lugares e novas ideias. CCD 2017-07-12
 
Arouca

Sábado, 22 de Julho de 2017

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A Frase...

"A 1 de Outubro os arouquenses vão eleger cerca de duzentos autarcas e não apenas o presidente da Câmara"

Francisco Gonçalves (CDU), durante apresentação da sua candidatura à CMA

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