BRANDÃO DE PINHO
 
A propósito da conversão de parte do Mosteiro em hotel
 
OPINIÃO | Devemos dar graças pelo rumo da história
 
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Apesar de subsistirem ainda alguns argumentos - já não tanto para estar contra, mas para questionar os termos e condições daquela concessão e conversão -, julgo que os mesmos se desvanecerão muito rapidamente.
Com efeito, nos termos em que foi feita a concessão, a conversão que agora se iniciará dará lugar à utilização que, para além do que lhe será próprio, inegavelmente, melhor e mais duradouramente assegurará a recuperação, preservação e dignificação de uma parte substancial do nosso Mosteiro, há muito quase totalmente devoluta e, nos últimos 135 anos, nunca integralmente acessível e aproveitada.
Porque, em boa verdade, reconheça-se, nenhuma outra das soluções que, em teoria, têm sido aventadas ao longo dos últimos tempos, cumpriria uma recuperação e utilização, na dimensão e duração previstas, com as especificidades e restrições compreendidas no respectivo caderno de encargos, para uma finalidade que em nada desmerecerá a dignidade do complexo monástico e da história que lhe é
inerente. Muito pelo contrário! Pode até, e deve - pois outra coisa não faria sentido -, aproveitar aspectos e recuperar elementos dispersos dessa história como temática e decoração, recriando um cenário e ambiência de que não há memória.
De resto, e de forma a não desvirtuar a leitura do conjunto, tal como o conhecemos hoje, os termos da conversão proíbem expressamente a demolição ou remoção dos elementos existentes, a alteração volumétrica ou a modificação das fachadas, bem como a abertura de vãos ou o alargamento dos atuais.
Salvaguarda a preservação ou restituição das características originais, da escadaria de aparato exterior, do pátio interior e algumas das demais dependências, bem como do edificado anexo, fonte e zona de mata existentes na Cerca.
Por outro lado, ao contrário do que se diz e ouve, aquela nunca foi - senão muito ocasionalmente, mas jamais integralmente - uma parte aberta e acessível ao público em geral, como é a maior parte das Alas Norte e Poente. Razão pela qual a conversão em unidade hoteleira não irá devolver aquela Ala e Cerca à comunidade ou impossibilitar esse acesso e fruição em virtude dessa "privatização". Nem uma coisa nem outra, antes pelo contrário: a conversão prevista, para além de recuperar e valorizar, irá possibilitar, ainda que de forma condicionada à utilização própria ou autorização necessária, o acesso e fruição integral de espaços e dependências a que o cidadão comum jamais teve acesso.
Nem mesmo no período de decadência da vida monacal que se verificou entre 1834 e 1886 e, depois, de extinção e degradação, que se verificou até 1954. Com efeito, após a extinção do Mosteiro, aquela parte ficou ainda alguns anos reservada ao remanescente humano da comunidade religiosa sobrevivente à última Abadessa, composto por mais de meia centena de pessoas, a que se atribuiu também a posse provisória da Cerca, e a que se foram juntando depois, sob cedência e arrendamento, pessoas e famílias necessitadas de um tecto, o que formalmente sucedeu até 1926, mas se arrastou até depois de 1942, ano em que faleceu a benfeitora e guardiã Maria Rosa do Sacramento.
O que, apesar de tudo, obstaculizou a que ali se albergasse (para além de um ou outro serviço, como os CTT, aí instalados até 1963), um Centro de Assistência aos Alienados do Hospital de Rilhafoles, um Estabelecimento Prisional, um Asilo para Inválidos das Grandes Guerras ou o Hospital da Misericórdia,
entre outros. E evitou que aquela Ala, apesar da comiseração que nos ficou impregnada por séculos de influência cisterciense, tivesse sido descaracterizada e destinada ao acesso e permanência exclusiva
dos alienados, prisioneiros, inválidos ou enfermos e pessoal de alguma das respectivas instituições. O que poderia suceder ainda hoje por alguma delas, caso o incêndio de 1935 e o ciclone de 1941 não tivessem degradado ainda mais as condições daquela parte e colocado cobro àquelas intenções, obrigando a um investimento maior.
Mas mesmo depois da recuperação profunda realizada a partir de meados do século passado, motivada pela instalação do Colégio Salesiano, que ali funcionou entre 1960 e 1982, a que sucedeu a cedência provisória da parte nascente à Delegação da Direcção Regional de Agricultura do Norte, que ali funcionou de 1986 a 2006, e do primeiro piso e piso térreo da parte poente à Associação de Defesa do Património Arouquense e Centro de Arqueologia de Arouca, que ali estiveram, muito legitimamente, sediadas desde a década de oitenta até agora, nunca aquela parte esteve aberta e acessível ao público em geral, nem sequer na disponibilidade do município, que foi mero usufrutuário e administrador de 1900 a 1992.
Pelo que, sem referir outros aspectos do mais que essa conversão e utilização nos pode trazer, devemos dar graças pelo rumo da história, por aquela Ala estar hoje totalmente livre e disponível para uma utilização duradoura e de qualidade que, para além de recuperar e preservar também espaços totalmente devolutos e degradados, nunca integralmente acessíveis e aproveitados, muito contribuirá para a manutenção e dignificação do nosso Mosteiro. Oxalá avance e se concretize!
 
Arouca

Domingo, 05 de Dezembro de 2021

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