ARMANDO ZOLA
 
"Este parte, aquele parte..."
 
OPINIÃO | A consciência de Sampaio despertou num País assim desigual, assim estratificado
 
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"Provou que se pode nascer privilegiado e comprometer a vida na batalha pelos não privilegiados", é a expressão lapidar do actual Presidente da República dirigida ao seu falecido predecessor Jorge Sampaio.
Jorge Sampaio nasceu em "berço de ouro", de famílias distintas, com alguns ascendentes mesmo com fortes ligações ao regime anterior, teve educação esmerada, correu mundo, especialmente anglófono, ainda criança, foi jovem e homem informado e culto, cedo licenciado, cedo se destacou como advogado de mérito. O mais fácil ser-lhe-ia acomodar-se a esta sua situação de privilegiado num País, naquele tempo, de profunda estratificação social e económica, pobre, com muita miséria, de analfabetismo funcional generalizado, em que, paredes meias com os poucos que, bafejados pelo nascimento, pela vida ou pela acomodação, tantas vezes inescrupulosa, ao regime de então, quase tudo tinham, vivia a grande maioria dos despojados de quase tudo, mergulhada em desconhecimento, privações, sofrimento, trabalho árduo, conformada à sua sorte e raramente consciente das próprias privações e necessidades.
Todavia, a consciência de Sampaio despertou num País assim desigual, assim estratificado. Perante a gritante iniquidade, assumiu, ainda estudante universitário, como imperativo para vida, o dever da solidariedade, que proclamou e viveu intensamente até aos seus últimos dias. Foi "furacão ruivo", como lhe chamou também o Presidente da República, (precursor de um outro "furacão ruivo", Daniel Cohn-Bendit, líder, anos depois, do Maio/68, em França) na sua Universidade, na luta pela dignificação dos estudantes, pela democratização do ensino, pela abertura da universidade a todos em função do mérito e não da condição.
No cumprimento desse seu assumido dever de solidariedade, se manteve sem ceder, sem tergiversar, por toda a sua profícua vida, sempre como revolucionário esclarecido, firme, sensível, sereno, em defesa da paz e da liberdade assente na justiça social. Mesmo quando a vida, a olhos vistos, se lhe apagava, dia a dia, diante de nós, a todos alertava para o dever de solidariedade com os mais desprotegidos, nomeadamente os novos refugiados.
Quando cheguei à Universidade, era ainda o País desigual, tal como, anos antes, o conhecera Jorge Sampaio. A Universidade, existente ao tempo apenas em Coimbra, Lisboa e Porto, era frequentada por alunos oriundos, quase todos, de meios privilegiados. Deparei-me, em Coimbra, com uma plêiade desses alunos, esclarecida, apesar das circunstâncias, a qual, liderando, se insurgia contra a "universidade velha", discriminatória, elitista, que à elite franqueava as portas, fechando-as aos desfavorecidos. Eu, que não nascera em "berço de ouro", não podia, sob pena de me trair, de trair aqueles de que viera, de, ingrato, trair os insurgentes, deixar de a estes me juntar nessa caminhada por uma universidade para todos, num País para todos também. Só algum tempo após, já no decurso dessa caminhada, soube que, anos antes, em Lisboa, o então jovem Sampaio iniciara o mesmo caminho, que jamais abandonou, liderando, com vários outros condiscípulos, a sua precursora insurgência.
Fui seu mandatário concelhio nas eleições presidenciais. Num dos períodos eleitorais, esteve, em breve estadia, em Arouca. No jantar alargado, ocorrido então numa das salas do Mosteiro, coube-me fazer uma intervenção. Não recordo o que disse, mas expressei, por certo, como sempre fazia, o que sentia, o que pensava e o que, no momento, entendia ser preciso dizer-se. Recordo-me, porém, de, após essa intervenção, ao retomar, na mesa, o lugar a seu lado, ele me segurar o braço e dizer: "agora já percebo porque o elegem
os arouquenses". Recordo e não esquecerei as palavras e o ar de aprovação e simpatia com que as proferiu.
Jorge Sampaio partiu. Como, aludindo à emigração, cantava Adriano, "Este parte, aquele parte e todos, todos se vão", assim é na vida também. Partiu um Português dos Maiores. Permanecerá para sempre, como exemplo, na nossa memória. Merece estar, em breve, entre os Maiores e Melhores dos que figuram no nosso Panteão Nacional.
 
Arouca

Domingo, 24 de Outubro de 2021

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