BRANDÃO DE PINHO
 
Em busca da essência das Colheitas
 
OPINIÃO | Oxalá que o cancelamento do foguetório possa reverter em favor do incentivo aos agricultores e à agricultura
 
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Como se sabe, este ano também não se realizará a Feira das Colheitas. A instabilidade da situação pandémica que ainda estamos a viver e a alteração frequente das regras a observar em eventos públicos, bem como o tempo necessário para organizar uma feira com a dimensão e características que as Colheitas têm assumido nos últimos anos, levam a que a Câmara Municipal, mais uma vez, e à semelhança do ano anterior, tenha decidido não organizar aquela que é a maior e mais emblemática realização do concelho.
No entanto, desta feita, a Câmara prometeu assinalar simbolicamente a data com a promoção de um conjunto de dinâmicas descentralizadas com o intuito de celebrar a matriz rural fundadora da Feira. Poucos dias depois, divulgou dois concursos: do vinho verde e da melhor broa caseira.
Confesso que, ainda antes de serem divulgados aqueles concursos, temi por essa programação. "Assinalar simbolicamente" fez-me recear que poderia ficar muito aquém do que era possível ser feito ou ir em sentido diverso daquilo que se deveria fazer. Porém, com a divulgação daqueles concursos, açulou-me uma réstia de esperança e uma ínfima possibilidade de estar enganado. Oxalá que sim! Oxalá que o cancelamento do foguetório (deste e do ano passado) possa reverter em favor da essência das Colheitas, do incentivo aos agricultores e à agricultura.
Com efeito, como se sabe, é justamente nos concursos destinados a promover a retoma e aperfeiçoamento do lavor e produção agrícola que radica a Feira das Colheitas. Ainda antes da fundação, propriamente dita, já a entidade que a viria a promover, - a que se associava também a Câmara -, premiava, com crescente sucesso, entre outros, o aperfeiçoamento da raça bovina arouquesa, o aumento e melhoria da cultura de cereais e produção vinícola.
«Reinou grande entusiasmo entre os lavradores do concelho pela realização da denominada «Feira das Colheitas», certamente de carácter essencialmente agrícola, destinado a incutir nova vida e entusiasmo no ideal que norteia os homens bons dos nossos campos e a assegurar-lhes o carinho das entidades que a promovem. Iniciativa feliz e oportuna do Grémio da Lavoura e da Câmara Municipal, a Feira das Colheitas caiu admiravelmente no meio agrícola e tem o seu êxito plenamente assegurado. (...) Festa de
lavradores e para lavradores, esta «Feira» terá a animá-la e a dar-lhe vida o concurso entusiasta e a fé dos que, com a alegria no coração e a energia de uma vontade inquebrantável, se dedicam à tarefa abençoada de extrair da terra o pão nosso de cada dia.» in Defesa de Arouca, de 14 de Outubro de 1944.
O certo é que, se antes da década de quarenta do século passado os campos andavam desaproveitados e as produções agrícolas se caracterizavam por certa escassez, as décadas que se lhe seguiram evidenciaram um aproveitamento significativo da área agrícola, um aumento da variedade e qualidade dos produtos e uma maior aposta no desenvolvimento e melhoramento das actividades complementares, tudo contribuindo para um aumento e diversificação considerável das produções familiares.
Porém, nas últimas quatro décadas, - fruto da evolução dos tempos, do subsídio infecundo e de se nos terem descalejado e amolecido a mãos - tudo está a desaparecer a olhos vistos, estando já a agricultura familiar, maioritariamente, reduzida a pouco mais do que frutícolas e hortícolas de ao pé da porta. O cultivo e verdejante que ao longe aparenta prosperidade, não passa já de mera ilusão. São choupos de
decepado, não são mais vinhas de enforcado. É silagem, não são mais milheirais. É feno, não são mais cereais. Já em nenhum lado se completa o ciclo do linho e são cada vez menos as casas que completam os ciclos do pão e do vinho.
Mas, talvez seja sintomático, - embora contraditório para um concelho rural do interior -, da quase insignificante parcela do orçamento que o Município destinada à agricultura, pecuária e silvicultura.
Pelo que, se não se fizer muito mais pela essência das Colheitas, - na lógica de que só colhe quem semeia -, temo muito seriamente que, ainda antes de se completarem cem anos sobre a fundação do certame - que hoje nos envaidece pela sua dimensão, mas também nos distrai do essencial pela animação e foguetório -, os campos atinjam um estado muito mais estéril e deprimente que o estado em que se encontravam antes da década de quarenta do século passado.
Urge, pois, fazer mais, muito mais, para abrandar este processo, acarinhar os que se dedicam à tarefa abençoada de extrair da terra o pão nosso de cada dia, restaurar a alegria e vaidade a quem já só toca ou dança por jorna ou favor, e salvaguardar mais, muito mais, daquilo que está na génese da Feira das Colheitas.
 
Arouca

Sábado, 23 de Outubro de 2021

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