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IVO BRANDÃO
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Para quê complicar?
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OPINIÃO | Às vezes, basta apenas um soldado
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A história que se segue, foi-me contada, certo dia, pelo meu avô Elísio. O general de um exército, depois de conquistar uma determinada região, resolveu que precisava de manter um promontório vigiado. A zona costeira poderia ser facilmente invadida, e, se colocasse lá um soldado, veria o invasor à distância, e poderia reagir convenientemente. Com o passar do tempo, o general notou que apenas com um soldado não conseguia ter a área vigiada 24 horas por dia, pelo que resolveu alargar o pequeno pelotão para dois soldados, sendo que cada um deles deveria manter a vigia por 12 horas. Ora, tendo dois homens no local, precisava de destacar alguém para os comandar, para que nenhum se sentisse superior ao outro. Passou, então, a ter dois soldados e um comandante. A certa altura, os homens estava desgastados, e era preciso mais gente, para repartir o trabalho de vigia por vários. Foi, portanto, preciso mais altas patentes, para que a companhia ficasse hierarquicamente equilibrada. Com mais gente, começaram as discussões sobre quem deveria trabalhar de dia e de noite, quantas horas, que tipo de discriminação hierárquica e monetária deveria existir. O general, apercebendo-se da complicação que se estava a gerar por causa da vigia de um simples cabo, e vendo que estava a desperdiçar muitos homens, que eram necessários para combater em outras frentes, voltou a colocar apenas o soldado que ali havia colocado inicialmente. Qualquer semelhança entre esta história e algumas peripécias mais ou menos recentes, pode não ser mera coincidência. O debate, meio camuflado, meio às claras, que vem sendo feito sobre a regionalização, facilmente redundará em algo do género. Os nossos políticos estão a preparar-se para, dizem eles, em nosso nome, complicar a hierarquia, e lançar areia na engrenagem da administração pública. E preparam-se para fazer isso de forma cirúrgica, controlando o processo, e garantindo que os espaços criados serão preenchidos por quem indicarem, esvaziando de importância as únicas estruturas que trabalham, efectivamente, com maior proximidade aos cidadãos: os municípios. Também com a ponte suspensa, recentemente inaugurada, aconteceu algo semelhante. Resolveu-se complicar o que, aparentemente, era simples, lançando uma discussão frenética sobre se seria a maior do mundo ou não, metendo ao barulho assessoria de imprensa especializada. O ‘buzz' criado, até certo ponto sem sentido, não afastou os visitantes, e Arouca voltou a sentir o pulsar frenético de quando os passadiços entraram em moda. Pelo meio, começam a perfilar-se os cabeças de lista às próximas autárquicas. Algumas freguesias, já podem ir debatendo sobre quem será o melhor presidente de Junta. E, para a Câmara Municipal, o PSD já apresentou candidato, uma solução natural, dado o percurso que foi fazendo, nos últimos anos de Oposição. Exceptuando o debate truncado sobre os vídeos promocionais da autarquia, Vítor Carvalho conseguiu sempre elevar a qualidade das discussões. Conseguiu, também, eleger temas pertinentes para alertar os arouquenses de que algo era preciso fazer para melhorar, como foi o caso da água. Espera-se, no entanto, que não entre em redundância, repisando argumentos (alguns, por vezes, já desmontados), que não exagere na exploração do filão passível de crítica e que, isso sim, traga para o debate matérias que possam ser discutidas e vistas a longo prazo, e que não se esgotem nem no dia das eleições, nem, muito menos, num horizonte de quatro anos. E espera-se, ainda, que o partido assuma uma visão estratégica para mais de quatro anos, não se limitando, como vem sendo hábito, a ‘queimar' bons candidatos. A história que o avô Elísio me contou, sabendo-lhe nós o final, deve servir-nos para olharmos para as coisas à distância, para olharmos para o horizonte mais longínquo, e não nos limitarmos a remendar os rasgões (maiores ou menores) do dia-a-dia. Seja na possibilidade da regionalização, na gestão do que mais riqueza nos traz ou no debate autárquico que aí vem, não adiantará de muito iludirmo-nos com soluções imediatas. Às vezes, basta apenas um soldado. Complicar com uma companhia inteira, servirá para alimentar a máquina, durante toda a discussão. E, no final, voltaremos à solução mais simples.
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