ANTÓNIO BRANDÃO DE PINHO
 
As vias de Arouca, na encruzilhada entre o passado e o futuro
 
OPINIÃO | É agora tempo de apostar de forma mais musculada na permanência e aumento dos nossos e do seu fácil acesso às oportunidades e ao futuro
 
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Quis o rumo da história, pese embora condicionado por alguma politiquice, que as efemérides e traçado das ligações rodoviárias de Arouca ao litoral, que hoje se reivindicam, se encontrem com as ligações que no passado se rasgaram, e que as dificuldades hoje sentidas e argumentário utilizado, por vezes, nos atirem cerca de século e meio para trás.
Quando há quase vinte anos começaram as obras do primeiro troço da então idealizada e prometida moderna ligação de Arouca ao litoral, completavam-se precisamente cento e quarenta anos sobre o início dos trabalhos do primeiro troço da ligação de Arouca a Oliveira, que viria a ser parte da actual EN224.
No entanto, apesar de volvidos quase vinte anos sobre o arranque das obras da ligação de Arouca à Feira, como se idealizou, «Via Estruturante» como se designou, ou «Variante à EN326» como acabou por se conformar, para em breve não ser uma coisa nem outra, mas, para já, apenas troços e trechos daquela velha aspiração, são ainda, quase integralmente, as velhinhas estradas da Monarquia Constitucional, melhoradas pelo Estado Novo, que nos levam ao litoral e que daí nos trazem até este nosso privilegiado destino.
Dentro de dois anos, quando estiver concluído o trecho agora em execução, que liga Escariz à A32, fica mais perto de se estabelecer a almejada moderna ligação de Arouca à Feira, mas ainda longe de estar concretizada, pois já não se prevê, e talvez nem se justifique, que se estabeleça a ligação do Nó de Pigeiros à A1, nem se sabe nada, ainda, sobre o troço compreendido entre a Ribeira de Tropeço e a Rotunda do Parque de Negócios de Escariz. A velhinha EN224, por Cambra ou Oliveira, cujo tráfego não é em nada inferior ao da congénere EN326, antes pelo contrário, contínua quase fiel aos caprichos do relevo e condicionada pelos apertos da cidade de Cambra, por um lado, e da vila de Carregosa, por outro, sem alternativa que daí e dos lentos nos desenvencilhe, sem somar mais uma boa dezena de quilómetros.
E, por isso, chegados aqui, julgo não ser de desperdiçar a oportunidade que o tempo de encruzilhada que vivemos, apesar de tudo, nos oferece, para se reivindicar a conclusão da ligação da Variante à EN326, entre a Ribeira de Tropeço e a Rotunda do Parque de Negócios Escariz; e a execução de uma Variante à EN224-1, da Farrapa (e não do Chão d'Ave) ao Nó de Carregosa da A32, tal como proposto recentemente pela AECA (Associação Empresarial de Cambra e Arouca), no âmbito da consulta pública do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).
Mais do que na atractividade dos forasteiros, é agora tempo de apostar de forma mais musculada na permanência e aumento dos nossos e do seu fácil acesso às oportunidades e ao futuro.
De contrário, mantendo-se o concelho por muitos mais anos como fica dentro em breve, com a parte poente relativamente servida, pouco difere a situação actual daquela que se vivia há cerca de cento e sessenta anos, quando a respectiva população reivindicava o restabelecimento do antigo concelho de Fermedo, também com o argumento de que se encontrava separado do concelho de Arouca pelo rio Arda e, apesar de sobre este rio existirem duas pontes comunicando os povos do extinto concelho com os de Paiva e Arouca, cabeça de comarca, não havia, contudo, uma boa estrada que lhes prestasse fácil e cómodo transporte com a sede do novo concelho, onde aqueles povos eram obrigados a cada passo a comparecer para os diferentes fins judiciais e administrativos. E, pelo menos enquanto não existisse ali uma boa estrada, não devia tal extinção operar-se, como defendiam.
O que é facto, é que não se tendo nestes últimos anos tomado outra iniciativa de coesão concelhia como aquela que então sossegou as populações do extinto concelho de Fermedo, e uma vez chegados a esta encruzilhada entre o passado e o futuro, em que deixamos a parte norte de Arouca abandonada a pouco mais do que meros caminhos asfaltados, por um lado, e em que nos resta pouco mais do que reclamar Variantes às antigas e caprichosas estradas que ainda nos servem, por outro; mais do que avançar, parece que as estradas nos fazem recuar, o que não pode deixar de nos beliscar para o atraso em que permanecemos nesse domínio.
Na sessão de 13 de Junho de 1867 da Câmara dos Deputados, Vicente Carlos Teixeira Pinto - talvez o deputado arouquense que até hoje mais se bateu pelos interesses da região de Arouca e, nomeadamente, pelas estradas que efectivamente se construíram, mas que, tal como os demais deputados da Monarquia Constitucional, foram esquecidos de homenagens póstumas e toponímicas -, insistia no tema, referindo, essencialmente, o seguinte:
«Sr. Presidente, é realmente lamentável o atrazo em que se acham os estudos e construção d'aquella estrada [de Arouca desde a Farrapa a Oliveira de Azeméis], que principiou em Arouca em 1861 (...). Eu bem sei, sr. Presidente, que a construção d'aquella estrada tem sido dispendiosa pelas obras d'arte e diffícil córte do terreno do leito, mas nem assim se póde justificar uma tal morosidade (...). A imediata construção do quarto lanço de Sequeiros à Farrapa, que pouco excederá a 2 kilometros é uma necessidade urgente, cuja satisfação se não deve protelar, eu lembro a v/ex.ª que enquanto não for construído este quarto lanço inútil fica o terceiro lanço desde a Pedra Má a Sequeiros que está a acabar de construir-se, porque desviando-se a directriz da nova estrada do leito da outra estrada no sítio da Pedra Má, finalizando esse terceiro lanço em Sequeiros no meio de uma serra não há d'ali saída para a Farrapa, e tem a viação desde a Pedra Má à Farrapa de fazer-se pela antiga estrada, sendo n'este espaço que se oferecem os maiores perigos e difficuldades, e que tornam mais custosos e caros os transportes de mercadorias de Arouca a Oliveira».
«Sr. Presidente, este ramal que anda em construção para Oliveira não dispensa o outro para S. João, que é o sítio para onde, segundo a lei de 15 de julho de 1862, se deve dirigir a estrada de Ovar; não é só pequeno o espaço, porque regulará a 2 kilometros até S. João, mas de mais a mais essa estrada de Ovar não deve nem póde parar em S. João, é necessário o seu prolongamento por Cesar a proximidades da antiga villa de Cabeçaes do extincto concelho de Fermedo, e ir entroncar na estrada de Arouca a Oliveira nos limites da freguesia de Rossas; é esta a única directriz de uma estrada de Arouca para o caminho de ferro na estação de Ovar; fornecerá às povoações do extincto julgado de Fermedo uma boa via de comunicação com Arouca, cabeça da sua comarca, do que muito precisam, e servirá de estrada para o Porto desde Arouca às imediações de villa de Cabeçaes e Fermedo; e esta directriz tem hoje muito mais rasão de ser depois da supressão do districto de Aveiro, e ter Arouca de passar para o Porto(...)».
«Mando para a mesa segunda proposta (leu), relativa ao estudo do primeiro lanço da estrada de Arouca ao Douro no sítio de Entre Rios, a entroncar na que deve seguir-se de Penafiel (...) Não sei se s. ex.ª sabe que já se fizeram três estudos e orçamentos sobre o primeiro lanço da estrada de Arouca ao Douro, recaindo esses três estudos desde o sitio de Santo António ao cimo do Arrozaio [Arreçaio]; (...) peço igualmente ao sr. Ministro mande estuda-la quanto antes, e mande pôr em construção esse primeiro lanço, que nada mais é que a continuação da estrada de Oliveira a Arouca; porque de certo a estrada não póde morrer em Arouca sem aquella saída para o Douro e Penafiel (...); essa estrada para o Douro e Penafiel por aquelle sítio, além das vantagens da viação publica, offerecerá a Arouca via de transporte para a conducção de madeiras e diferentes mercadorias para o Porto, e no concelho de Paiva uma comunicação com Arouca, cabeça de comarca».

É certo que a dinâmica e atractividade que Arouca viveu nos últimos anos, apesar de tudo, contradizem a desvantagem do concelho não ter ainda uma moderna ligação às principais vias do litoral. Porém, há algum tempo que essa dinâmica se denota a sucumbir face ao virtual e digital, por um lado, e forçada por certa instrumentalização do poder local, por outro, tudo contribuindo, com excepção do sector comercial e industrial (que em todo o caso precisa agora, mais do que nunca, ser incentivado e alavancado), para o esmorecer da genuína iniciativa dos arouquenses, que, em boa parte, terá acabado por claudicar face ao afunilamento das prioridades municipais e inesperada situação que estamos a viver.
Pelo que, será agora premente priorizar algo de mais estruturante, duradouro e sustentável, melhores e efectivas vias para novas e mais oportunidades. A conclusão da ligação da Variante à EN326, entre a Ribeira de Tropeço e a Rotunda do Parque de Negócios Escariz; e a execução de uma Variante à EN224-1, da Farrapa ao Nó de Carregosa da A32, parecem-me em linha com aquele propósito e, por isso, duas boas sugestões para o Plano de Recuperação e Resiliência que por aí vem. 2021-02-28
 
Arouca

Sexta, 16 de Abril de 2021

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"Temos de ter mais cultura democrática em Arouca, na Câmara Municipal e nas instituições"

declarações de Fernando Mendes no RV, onde anuncia a sua decisão de não se recandidatar à CMA

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