CARLOS BARBOSA
 
Aprisionados aos hábitos
 
OPINIÃO | Não nos deixemos prender a âncoras
 
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Com alguma frequência revisito a minha infância. Sentimo-nos sempre bem onde somos felizes.
Não posso dizer que tenho saudades da minha infância, eventualmente por entender que ela foi bem concluída. Terei quanto muito, saudades da indiscritível sensação de imortalidade que qualquer criança tem. Ou, a livre interpretação dos valores que quando se é criança possuímos. Valores aos quais não emparelhamos qualquer narrativa negativa, quando somos felizes.
A propósito de valores e por nos aproximarmos da época natalícia, há dias lembrei-me da felicidade que a maioria das crianças tinham, e julgo continuam a ter, em ir ao circo e deliciarem-se com a magia, o encanto e toda a teatralidade que o circo transporta.
Lembro-me, eventualmente como maioria das pessoas da minha geração, de ver chegar a Arouca, o comboio de viaturas que transportavam os artistas e os animais que iriam daí a uns dias, fazer as nossas delícias.
O sonho de poder ver os leões e tigres transportava um misto de medo e deslumbre. Os demais animais que de ano para ano iam chegando, como um upgrade, faziam crescer o nosso imaginário para uma outra dimensão. Imaginação, com uma tal competência que só as crianças alcançam.
Mas, o que me transportava para uma outra dimensão era a imagem do elefante. Mais ainda, a suavidade do seu poder. O andar que fazia estremecer os fracos alicerces da estrutura do circo. O olhar, por vezes assustado, mais do que assustador, com o qual nos fazia parar no tempo. Tudo isto era magia.
Com a sua força conseguia elevar do chão tudo que aparecesse. Arrastava carros, elevava mesas repletas e até dobrava barras de ferro. Algo que para uma criança de 8 ou 9 anos encarna todo a força e poder que é possível medir.
O encanto fora tanto que em certa ocasião, no final do espetáculo, fui ver o elefante que se encontrava preso a uma frágil estaca pregada ao chão.
Fiquei surpreendido. Não conseguia entender como é que se mantinha ali preso, quando com um décimo da força que descarregou anteriormente, seria muito fácil soltar-se.
Regressei a casa, mas não sem deixar de pensar em tal anormalidade. Dias depois consegui convencer o meu pai a voltar ao circo. O grande objetivo era desmistificar o que não me saia do pensamento.
Na primeira oportunidade que tive de me abeirar do tratador, questionei, com uma curiosidade que suplantava o medo.
- Como é possível manter o elefante ali preso, tendo a força que todos sabemos que tem?
Pelo que me elucidou, com contornos de alguma magia, que assim era porque o prenderam em pequeno, quando, entretanto, não tinha a mesma força. Nessa altura tentou soltar-se, mas como não conseguiu, manteve-se preso até hoje, sem nunca mais tentar. Não escondo que na altura não consegui entender como tal era possível. Não podia compreender que o animal fosse tão fraco, que nunca mais tivesse tentado a sua liberdade.
O tempo foi passando e estas memórias foram sendo substituídas por outras mais recentes, mais frescas e eventualmente mais lúcidas. Porém, num desses passeios pelas nossas memórias, quedei-me na alegria que o circo ainda transporta. Fui aprofundando e encontrei essa lembrança que hoje, num outro contexto e com uma outra visão, compreendi ser mesmo muito fácil agir como o elefante do circo.
Concluo que existe uma profunda conexão com a esmagadora maioria dos seres humanos. Quantos de nós não nos mantemos amarrados a hábitos que com um leve movimento conseguiríamos desprender? A âncora que nos prende e não nos permite mudar, apenas porque em determinada altura e num outro contexto a ela nos ligamos.
As coisas estão em permanente mutação. O nosso grande problema é que em muitas circunstâncias teimamos em olhar para o lado contrário a essas mudanças.
Quantos de nós resistem, mesmo que pequenas sejam essas mudanças? São essas crenças limitadoras que nos dificultam o crescimento, a valorização e a construção de uma vida mais feliz e desprendida.
Tal como diz Mia Couto, a nossa maior armadilha é julgarmos que as armadilhas estão fora de nós, assim como julgava o elefante do circo.
 
Arouca

Quinta, 28 de Janeiro de 2021

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