PAULO MILER
 
Arouca: Que futuro para os jovens?
 
OPINIÃO | Será, por isso, necessário conjeturar um cenário pós-covid
 
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Vivenciam-se tempos espinhosos: a pandemia, em pleno eclodir da segunda vaga nos últimos meses, forçou-nos a cumprir restrições severas e a adotar redobrados cuidados no nosso dia-a-dia. Acresce a renovação sucessiva do estado de emergência, em função do elevadíssimo número de casos e, pior ainda, da sua constância, o que fez com que repensássemos, inclusivamente, as tradicionais celebrações natalícias e da passagem de ano, precisamente na época onde se exulta a família e se proporcionam o caloroso reencontro e a convivência presenciais. Um período deveras complicado, com efeitos nefastos e já com um certo grau de devastação, não apenas na saúde das pessoas, a qual se cataloga como prioritária, como também na economia, onde grande parte das empresas viram quebras acentuadas na sua faturação, sem apoios suficientes para a sua sobrevivência, que culminou e culminará na destruição de muitos postos de trabalho, com particular incidência entre os mais jovens, onde a taxa de desemprego já se apresentava como particularmente elevada.
Contudo, neste conturbado, doloroso e parcimonioso contexto, vislumbrou-se uma luz ao fundo do túnel que prefigura o ânimo e a esperança, contrastados com a angústia e a melancolia - o anúncio da boa nova da vacina e a sua distribuição no próximo ano, qual bonança entre a tempestade que perdura.
Será, por isso, necessário conjeturar um cenário pós-covid que, felizmente, a vacinação proporcionará, embora progressivamente, durante o próximo ano. Para isto contribui igualmente o advento da famigerada "bazuca" europeia que reservará uma avultada verba para Portugal visando, cremos, suster a crise deflagrada, preencher os cofres públicos já depauperados e relançar uma economia fragilizada.
Não é certamente novidade para ninguém que os jovens foram presa fácil no cenário económico arrasador que a pandemia edificou e que acabou por agravar a sua condição: a precariedade, a elevada taxa de desemprego, os salários baixos, a falta de condições para que possam singrar e auspiciar a autonomia, a estabilidade. E, convém lembrar, uma previsível ainda maior litoralização da oferta de trabalho, agravando mais ainda a desertificação do interior do país. Por isso, importa, desde logo, que se auscultem os jovens e que, neste momento, mais do que nunca, se dê corpo a uma estratégica vocacionada para a juventude, diagnosticando os principais problemas e proporcionando as melhores condições para o porvir que será decisivo para resgatar esta e futuras gerações.
Agir, não apenas a nível central, mas sobretudo a nível local, onde existe maior proximidade e contacto com a realidade juvenil, não apenas estudantil, como também de jovens empresários, de recém-licenciados à procura do primeiro emprego e de outros jovens trabalhadores qualificados. Fazer jus à própria essência da juventude que é, em si, um projeto de futuro: idealizar, diagnosticar, traçar um rumo, uma estratégia.
Para corresponder a estes imperativos desígnios, diversos municípios lançam mão dos seus Planos Municipais de Juventude, avocando-os e adaptando-os ao contexto atual, ou, para cumprir os mínimos exigíveis, registar nas Grandes Opções do Plano as preocupações face ao futuro para os jovens em face da calamidade que se verificou e que os coloca em cheque.
Em Arouca, infelizmente, nada disso existe. Não há uma estratégia de raiz pensada para os jovens arouquenses e estes são deixados à sua mercê, inexistindo um plano municipal de juventude que materialize essa estratégia e que pense a juventude arouquense no presente e para o futuro, incorporando as diversas áreas da atuação onde se movimentem, auscultando, para isso, as associações juvenis e forças políticas locais para auxiliar nesse levantamento. Bem sabemos que essa tarefa se afigura de difícil execução por motivos óbvios: a falta de promoção do diálogo, da concertação e da participação dos jovens por parte do executivo municipal deve-se sobretudo ao facto de não ter ainda implementado o órgão consultivo do município sobre matérias relacionadas com a política de juventude,
o Conselho Municipal de Juventude, que, à priori, daria voz aos anseios e preocupações dos jovens. A JSD Arouca, a este respeito, reiteradamente chamou a atenção aos executivos municipais socialistas para esse incumprimento legal, tendo apresentado, inclusivamente, uma proposta de regulamento em sede de Assembleia Municipal, o qual foi prontamente recusado e, até, com laivos de escárnio, desconsiderado. É simplesmente a prova do desinteresse continuado dos últimos executivos municipais, e do atual, com a juventude arouquense.
Desconhecendo o contexto jovem em Arouca, ficará certamente dificultada a tarefa de criar as condições para que se fixem no nosso município. Pensar-se-ia que, eventualmente, estaríamos a ser injustos e a referência à juventude estivesse contemplada em documentos como as Grandes Opções do Plano (GOP 2020-2023), que representam a estrutura do planeamento económico e social a nível local e a atuação do executivo municipal nos principais eixos estratégicos para os próximos anos. Desengane-se o leitor: no documento, não existe qualquer referência à palavra "juventude" ou "jovens". Depreendemos, por isso, que os jovens arouquenses não são a prioridade deste executivo municipal, nem nunca o foram!
Foi com agrado, porém, que notamos que algumas das bandeiras pelas quais a JSD Arouca batalhou e persistiu ao longo dos últimos anos, inclusivamente em Assembleia Municipal, nomeadamente a requalificação da Biblioteca Municipal e o aumento da verba alocada para as bolsas de estudo no ensino
superior, se encontram, agora, espelhadas nesse documento. Sinónimo de que, com perseverança, tudo se alcança. Porém, se a juventude é transversal a todo o documento, como poderia alegar a Senhora Presidente da Câmara Municipal de Arouca, então resta-nos concluir que, à semelhança das opções
nele inscritas, é, no mínimo, pouco ambicioso o futuro que se lhe traça.
Recentemente, teve lugar o Congresso da Cidadania promovido pela associação juvenil "HD", o qual se saúda, e que contou com a participação da Presidente da Câmara Municipal de Arouca, Margarida Belém, com o tema "Ativar a participação jovem de base local". Ora, por tudo aquilo que acima elencamos, e em face da nossa realidade, podemos fazer uso do adágio popular: "Bem prega Frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz".
Francisco Sá Carneiro disse-nos que "juventude é disponibilidade, em abertura para a construção do futuro". Em Arouca, falta, efetivamente, cumprir a juventude.
 
Arouca

Quinta, 28 de Janeiro de 2021

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"Os arouquenses estão preocupados com o preço da água, tal como eu estou"

Margarida Belém, presidente da CMA, em entrevista ao RV

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