CARLOS BARBOSA
 
Economia de partilha
 
OPINIÃO | As novas gerações acreditam que a vida é curta demais para ser pequena!
 
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A geração a que pertenço, entre os 40 e 50 anos (para não falar nas gerações anteriores), tem sido impelida a percorrer um caminho de desagregação e descolagem de valores de colaboração, e fundamentalmente de partilha. Quase como se vivêssemos isolados e desconectados uns dos outros.
A primeira fase do recente confinamento fez-me acreditar que algo poderia estar a mudar. Todavia, refeitos do susto, voltamos à perturbante normalidade.
Há dias, quando gozava um período de férias, fui assolado por uma questão que se prende com a utilização dos mesmos objetos por pessoas diferentes. Objetivamente o que me intrigava, era a razão que leva a que um mesmo objeto, usado poucas vezes, não possa ser partilhado, evitando um desperdício de recursos. Bem sei que, num contexto como o que vivemos, uma ideia como esta é tudo menos politicamente correta.
Isso reflete o paradigma em que temos sido criados. O deficit do valor da partilha.
No condomínio onde gozo alguns dias de férias, todos os proprietários têm as suas próprias espreguiçadeiras na piscina. Todavia, estas nunca são utilizadas todas ao mesmo tempo.
Isso implica que apenas uma parte é utilizada simultaneamente, havendo um claro desperdício de recursos. Daí a questão: Porque não adotar uma política de partilha, implicando a compra de menos de metade das espreguiçadeiras, gerando poupança de recursos?
Obviamente que esta questão olhada isoladamente é claramente inócua.
Porém, esta abordagem transpôs-me para outras realidades do quotidiano da maioria de nós.
Exemplo 1: Na rua onde vivo, existem várias casas com jardim, onde a relva necessita de ser aparada uma dúzia de vezes por ano. Contudo, apesar da sua pouca utilização, menos de 20 horas por ano, todas elas têm um cortador de relva.
Exemplo 2: Arrisco a dizer, sem grande risco de errar, que uma grande parte dos lares tem um berbequim ou furadora. Seguramente que, durante uma vida completa, esse instrumento não é utilizado mais de 10 horas. Então, porque não se partilham os custos da sua compra?
Aqui estão dois exemplos que refletem um paradigma que as sociedades, principalmente do sul da Europa, deveriam alterar. Temos de caminhar no sentido de uma economia de partilha.
Nos países do norte da Europa as sociedades têm sido forjadas com um maior desprendimento pela posse. Há alguns anos visitei alguns desse países e fiquei deslumbrado com essa dinâmica de partilha que presenciei. São as lavandarias pertencentes ao condomínio e partilhadas por todo o prédio, em que cada utilizador sabe quais as suas janelas horárias de utilização. São as negociações conjuntas de gás e eletricidade que geram economias de escala e consequentemente custos mais baixos. São as partilhas de tudo o que pode ser partilhado sob um propósito de poupança e até sustentabilidade.
São, pois, estas dinâmicas que estão na base dos novos modelos de negócio.
A existência do Airbnb ou da Uber, refletem essa dinâmica de partilha e desprendimento da posse. Esses modelos de negócio só existem porque há uma crescente valorização da experiência, em detrimento da posse. Da utilização, em detrimento da patrimonial.
Um estudo do Sharing Economy Directory, com alguns anos, mostra que existia nessa altura mais de 400 mil milhões de euros de bens que não estão a ser utilizados a nível mundial e que podiam ser partilhados, gerando um crescimento no PIB de enormes valores.
Estes novos modelos de negócio assentes em economias de partilha têm como base as dificuldades enfrentadas pela geração dos millennials (nascidos entre 1980 e 1994), que embora seja melhor formada é pior remunerada.
Segundo estudos recentes sobre esta temática, a economia de partilha valerá 1,34 biliões de euros em 2024, continuando a crescer apesar da pandemia.
No meu ponto de vista e centrando-me mais cá pelo nosso burgo, o poder autárquico tem um papel crucial no desenvolvimento e na educação dos mais jovens munícipes para a incorporação destes valores que serão cada vez mais tangíveis.
O que é que pode ser feito para cimentar estes valores? Ter políticas que fomentem, estimulem e incentivem a economia de partilha. Criar benefícios quer para as empresas, quer para os grupos de cidadão que consigam promover savings de recursos, quando partilhados. Criar espaços e plataformas que fundem interesses partilhados. Por exemplo, a criação de mais espaços de co-working que incentivem o empreendedorismo dos seus munícipes mais jovens. Fomentar a partilha de objetos comunitários. Muitas autarquias já estão a há algum tempo a ceder bicicletas partilhadas para promover a mobilidade e principalmente a prática de desporto.
Sei que este contexto de pandemia não favorece estas dinâmicas, mas quero acreditar que, em breve estaremos numa realidade mais possibilitadora destes valores.
A grande preocupação dos autarcas de municípios como Arouca deve residir na capacidade de reter e conquistar habitantes mais novos e contributivos. Pode e deve fazê-lo com estruturas e acessos, mas deve ter um foco crescente nestas dimensões.
Acredito que o nível de sofisticação das autarquias do futuro, passa pela valorização deste tipo de variáveis menos tangíveis, mas mais procuradas pelas novas gerações. Qualidade de vida, sustentabilidade, partilha, experimentalismo, disrupção.
São estas variáveis que vão reter e conquistar os munícipes mais jovens. As novas gerações acreditam que a vida é curta demais para ser pequena!

(texto publicado na edição impressa do RODA VIVA jornal de 2020.09.17)

 
Arouca

Quarta, 28 de Outubro de 2020

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