PAULO MILER
 
Memória e história
 
OPINIÃO | É quebrar uma linha contínua de evolução
 
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Friedrich Nietzsche disse-nos que o ser humano superior é o ser de mais longa memória. A memória que, segundo Koehler, é a marca de maior quilate valorativo que o homem possui, extravasando a própria inteligência no reduto das valências que o distinguem de outros seres. De facto, ao longo da História, o homem foi evoluindo nos seus pergaminhos, alinhavando o curso conforme as ações, os feitos, e, em particular, os erros cometidos. Os erros permitiram ao homem sublevar-se à fertilização e condição de um ser evoluído, dado que, como nos dita o adágio popular, é com os erros que aprendemos. Há, portanto, um passado, um pretérito, se quisermos, uma "bagagem" que o homem carrega consigo e que também o personifica. Incumbe-lhe não rasurar o mesmo, apagá-lo, antes aproveitá-lo para, num exercício de aprendizagem contínua, se tornar no ser humano superior a que Nietzsche aludia.
Reescrever ou reinventar a História é mexer com a nossa essência, desvirtuar as nossas origens. No fundo, apagar uma parte do que fomos, resvalando na memória seletiva à mercê de critérios de justeza relativamente aos quais desconhecemos a lógica inerente. É quebrar uma linha contínua de evolução, repleta de factos e de acontecimentos, que elevaram o homem à sua condição e que lhe permitem continuar a traçar a linha do presente e do futuro, olhando em retrospetiva para os erros (e até atrocidades), mas também para as proezas, à medida que se a traceja. Porque aqueles que querem reinventar a História, como se uma nova e cândida linha temporal e factual se iniciasse e tudo o resto - as atrocidades - se evaporasse, tenderão a cometer os mesmos erros e, pior ainda, a impedir que outros possam ver, ler e aprender com esses mesmos erros ou atrocidades. Neste caso, não permitir que possam julgar, por si próprios, atendendo aos factos ocorridos e documentados.
As últimas semanas foram, efetivamente, tumultuosas, com epicentro na morte de George Floyd em Minneapolis, nos Estados Unidos da América, que gerou uma onda de indignação, protestos e manifestações. O episódio da morte de George Floyd é abominável e merece o nosso repúdio, sendo que a causa subjacente às manifestações se apresenta como legítima nos EUA, sobretudo se aí considerarmos o problema crónico e histórico de agressividade policial e o racismo obstinado. Contudo, há contextos em que os meios não justificam os fins, e certamente que a desordem e as pilhagens provocadas por um grupo de insurgentes que se registaram não se coadunam com a imagem de um protesto que se quer pacífico e, simultaneamente e consequentemente, audível na eficácia do mesmo.
Depressa a onda de protestos e o caos instalado, com o mesmo propósito, se disseminou um pouco por toda a Europa, nas principais capitais europeias. E, como referimos, não há dúvidas de que a causa é nobree merece a sua exultação. Porém, não tendo por base o concreto contexto que se verificou nos EUA e que fundou a base do protesto, e sem uma linha orientadora concreta que sustente uma manifestação
que se pretenda "audível", tende a cair no abstrato e, com isso, tudo serve, infelizmente, de pretexto para a rebelião. Desta feita, os protestos despoletaram a tendência para a remoção ou vandalização de estátuas e monumentos de figuras históricas que, segundo diziam, estariam associadas ao colonialismo, racismo e escravatura. Eis que, na sequência dos tumultos registados, em Londres, se vandaliza a estátua de Winston Churchill e, até, em Portugal, a estátua de Padre António Vieira.
Há, por isso, um revisionismo histórico que se pretende instalar, menorizando as proezas e os feitos que as figuras descritas promoveram: Winston Churchill foi fundamental na luta pela liberdade, no verdadeiro combate histórico e imposição de derrota ao fascismo de Adolf Hitler; Padre António Vieira é uma das maiores figuras culturais e históricas do nosso país, notório defensor dos povos indígenas e dos direitos humanos. Por isso, antes presidiu à deterioração destes monumentos a ignorância do que propriamente a convicta e erudita luta, expressa nos execráveis rabiscos ali escritos.
Naturalmente que as figuras históricas eternizadas nos monumentos vandalizadas cometeram erros, alguns deles certamente atrocidades aos dias de hoje. No entanto, parte do estudo e do conhecimento - e não da ignorância - atender a um contexto histórico e, para além disso, a exultação específica dos feitos que se pretendem glorificar e certamente contribuíram para engrandecer a humanidade. Não será, certamente, pela danificação do nosso património histórico e mesmo a sua remoção que a História se apagará. Muito pelo contrário: é pelo conjunto dos factos (feitos e erros) que se aprenderá e se avançará no caminho da evolução.
A melhor formação cívica é a História. A longa memória torna-nos seres humanos superiores. Resta-nos fazer uso do conhecimento histórico para que nos tornemos a melhor versão de nós próprios.
 
Arouca

Quinta, 13 de Agosto de 2020

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