TEIXEIRA COELHO
 
Demissão da Irmandade do Santíssimo Sacramento e Almas
 
OPINIÃO | O presbítero torna-se pouco mais do que um funcionário
 
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A Irmandade do Santíssimo Sacramento e Almas da Paróquia de S. Bartolomeu de Arouca apresentou a demissão ao pároco em carta datada de Março passado "sem que até à data tenha recebido resposta" (RODA VIVA, 14.05.20). Motivo: "a imposição às Irmandades por parte da Diocese da aplicação da Tabela de Taxas e Tributos, nomeadamente no que concerne ao pagamento do tributo anual de 5% da receita bruta da Visita Pascal com efeitos retroactivos aos anos de 2017, 2018 e 2019".
Muitos, surpreendidos, encararão o facto com um encolher de ombros. Outros sentir-se-ão de algum modo envolvidos por este facto que afecta a vida da paróquia, da sua paróquia. A aparente displicência do pároco neste episódio pode levar-nos a pensar que se trata de um facto banal, sem relevância
na vida religiosa e social de Arouca.
Este facto é convite oportuno à reflexão.
É urgente repensar a paróquia. O modelo tridentino em que ainda vive ‘deu o que tinha a dar'. E só não o vê quem não quer ver ou prefere viver na cegueira. Sobretudo os jovens esperam uma paróquia com uma nova linguagem, que seja espaço de acolhimento, promotora de debate sobre os problemas do nosso tempo. Tudo isso como exigência da fidelidade à sua missão primeira: anunciar uma Boa Nova aos homens deste tempo que os resgate da "lógica predadora do mundo em que vivemos", desequilibrado, consumista e desrespeitador da natureza.
A Igreja não pode continuar prisioneira de rotinas de séculos.
O Vaticano II deu à paróquia um novo "referencial eclesiológico" que mudou radicalmente a sua configuração tradicional. A Diocese é Igreja Local, porção do Povo de Deus. A Paróquia é "parte", parcela ou célula da Diocese. A paróquia é congregação de fiéis confiados a um presbítero (vulgarmente chamado padre, sacerdote, abade...) que representa o Bispo. Sozinha não é Igreja. Centro promotor de comunhão torna presente de alguma maneira a Igreja de Jesus Cristo num determinado lugar.
A construção sempre inacabada da paróquia como comunidade é objectivo transversal a toda a sua actividade. Quando isso não acontece, a paróquia torna-se um centro de serviços religiosos e pouco mais. O presbítero torna-se pouco mais do que um funcionário.
O episódio da demissão dos membros da Irmandade do Santíssimo e Almas da Paróquia de Arouca remete-nos para a orgânica da vida diocesana pautada pelo Código de Direito Canónico e pelos Decretos que lhe são cumprimento dimanados do Bispo. Mas temos vivido na maior das opacidades no que a isto diz respeito. Quem na paróquia tem sido informado com oportunidade, transparência e pedagogia desse enquadramento orgânico, solidário e corresponsável da paróquia na Diocese? A Diocese vem agora reclamar retroactivos... o que leva a pensar que não têm sido tidas em conta as determinações
da Diocese desde há muito.
É certamente importante a transparência na gestão da vida económica tanto das dioceses como das paróquias. Mas não há transparência onde falta informação detalhada e acessível.
Que sabem os cristãos das dificuldades por que passa a Diocese e das causas que a levaram a tal situação? Deixo aqui uma sugestão para os interessados: leiam ou peçam ao pároco que divulgue a acta da reunião do Conselho Presbiteral da Diocese (reunião dos presbíteros da diocese convocada e presidida pelo Bispo) na Voz Portucalense, semanário da Diocese do Porto, para que a informação não fique, como é hábito, pelos "corredores do poder".
Uma última consideração. O dinheiro pode desfigurar a face da Igreja e até degradar a imagem de quem a serve.
Conta-se que uma vez um presbítero, após nomeação pelo bispo, resolveu ir ensaiar um primeiro contacto com o seu futuro campo de trabalho. Uma vez ali chegado, parou junto de um grupo de futuros paroquianos em conversa descontraída sobre a história da paróquia. "Então, ouvi dizer que vocês não têm padre?", lançou a pergunta, logo acrescentando: "Se calhar a paróquia não tem meios para manter um pároco?!". De imediato, um dos presentes, indignado com a insinuação, atalhou: "Mas qual é a paróquia que não é capaz de manter um homem à boa vida?".
Caberá a todos reconfigurar e revitalizar a comunidade paroquial para que não tenham cabimento afirmações como esta: "Afinal o dinheiro também parece ser mola real da Igreja".
 
Arouca

Quinta, 13 de Agosto de 2020

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"Ser padre é dar a vida, renunciar muitas vezes às minhas vontades, ouvir os sofrimentos das pessoas e sofrer com elas"

Misael Fermín Calderon, o novo vigário paroquial de Arouca

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