IVO BRANDÃO
 
Ainda a municipalização da cultura
 
OPINIÃO | Bem analisadas as coisas, todos ficam a perder
 
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Dizia alguém, em jeito de reflexão sobre estes tempos novos, que parecemos agora mais preocupados do que quando, em plena crise, chegou a faltar o que comer a algumas famílias. Talvez. E talvez porque, com alguma surdina, por pudor ou outra razão qualquer, isso está a acontecer outra vez, e uma das áreas que mais vem sentindo o fechamento social é a cultura.
A cultura vive muito do encontro, da presença do público, do contacto, da vida partilhada no espaço público, do que se possa promover nos espaços preparados para a produção de eventos, da passagem por locais identitários, como museus, monumentos, espaços de exposição, auditórios, etc. Hoje, a cultura vive uma espécie de paradoxo assassino. Porque tem à sua disposição o infinito da internet, mas perde, com isso, praticamente tudo o que faz parte do seu ADN, sem falarmos do retorno económico que, fruto de várias condicionantes, fica reduzido a praticamente zero.
Nesta equação, bem analisadas as coisas, todos ficam a perder. Ficam a perder os agentes culturais, porque não têm condições para estudarem e prepararem os seus trabalhos. Ficam a perder os espaços onde se dariam essas apresentações e todos os possíveis negócios que em torno deles gravitam. Ficam a perder os promotores de eventos, porque não conseguem trabalhar convenientemente a mediação que lhes cabe entre artistas e público. Fica a perder o público, porque se vê privado de momentos de fruição, aprendizagem, reflexão, crítica, de elementos que contribuem para a sua edificação, enquanto pessoas e cidadãos. Este é, portanto, um bom exemplo de como alguns sectores da economia facilmente paralisam, a um nível preocupante.
É aqui que pode (e deve) entrar aquilo de que muitos, até há alguns meses, pareciam ter um medo de morte: a municipalização da cultura. Poucos agentes políticos e sociais terão uma oportunidade tão flagrante como os municípios para poderem continuar a fazer alguma coisa pela cultura, neste país. Desde logo, porque estão mais próximos das populações, conhecem-lhes as realidades, conseguem mais
facilmente contornar as limitações e potenciar as facilidades. É certo que, em pleno contexto de pandemia, haverá prioridades mais prioritárias, passe a redundância, a começar pela assistência social e pelo apoio à prevenção. Mas o desenvolvimento de uma região, de um território, não pode deixar de estar na lista de prioridades de quem gere os nossos destinos. Este tempo pode (e deve) ser um tempo para voltar a reunir esforços, voltar a avaliar contextos e traçar, conjuntamente, prioridades. Se, há não muito tempo, uma preocupação da autarquia era a de conciliar a enorme produção de eventos do movimento associativo local, este será o tempo de, em conjunto com as associações, encontrarem formas alternativas de poderem manter a sua actividade.
Num contexto de desconfinamento, esta é a oportunidade de desconfinar o diálogo entre os vários agentes culturais locais, começando pela Câmara Municipal, como principal dinamizador. É a oportunidade de ir, caso a caso, fazendo o ponto da situação e, em conjunto, encontrar-se formas alternativas (ou, quando possível e desejável, tradicionais) de não deixar em quarentena, ou em alguns casos mesmo morrer, um património de que Arouca tanto se orgulha. Sob pena de, quando voltarmos a olhar para o lado, aquele bocadinho de beleza a que estávamos tão habituados já ali não esteja. E, dessa forma, não só fiquemos mais pobres no pão que temos na mesa, mas também no que nos nutre o conhecimento.
 
Arouca

Quinta, 13 de Agosto de 2020

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A Frase...

"Ser padre é dar a vida, renunciar muitas vezes às minhas vontades, ouvir os sofrimentos das pessoas e sofrer com elas"

Misael Fermín Calderon, o novo vigário paroquial de Arouca

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