ARMANDO ZOLA
 
"Todo o mundo é composto de mudança"
 
OPINIÃO | A atmosfera cada vez protege menos a vida, os oceanos cada vez menos a consentem
 
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PERCEBEU e escreveu Camões, e cantou José Mário Branco, que "todo o mundo é composto de mudança".
Retorno à minha juventude para recordar que então se acreditava que um dia haveria de chegar em que tudo, para todos, haveria de abundar, como a água que corria livre pelas fontes, como o ar que, puro, se respirava, cada um tendo segundo as suas necessidades, cada um dando apenas o esforço que fosse deleite; haveria entendimento, solidariedade, paz, não subsistiriam nem polícias, nem armas, nem exércitos e nem Estados, por desnecessários.
O mundo mudou, mas não para esse dia. A água, mais rara, agora é fonte de lucro e sempre mais cara, o ar é cada vez menos respirável e o mundo menos habitável. São precisos cada vez mais polícias, os exércitos reforçam-se, assassinos, de matizes diversos, manejam armas cada vez mais sofisticadas, incontroláveis e letais, ceifando, com pesporrente gáudio, vidas humanas. Tantas de inocentes! Quantas de crianças! A atmosfera cada vez protege menos a vida, os oceanos cada vez menos a consentem, a Terra é cada vez mais cloaca ardente. O Papa Francisco apela, urbi et orbi, a que salvemos a nossa Casa Comum, António Guterres, no mais alto pedestal da Terra, rodeado de surdez, brada que, ou retrocedemos caminho, ou é inelutável o abismo, a pequena adolescente, de ar tímido, Greta Thunberg, sacrifica o seu presente de menina, erguendo-se contra a avidez e o cinismo dos poderosos, em defesa do futuro de todos. Os mais poderosos, mais belicistas, mais poluidores, usando suas tentaculares máquinas de propaganda, tentam ridicularizá-la, menosprezá-la, humilhá-la, desacreditá-la. Um mar, cada vez mais largo, de crianças, jovens e também adultos, ouve-a, junta-se-lhe. Aí, uma réstia de esperança para este Planeta em que, como em entrevista recente referia o já quase centenário sociólogo e filósofo Edgar Morin, as "angústias se multiplicam e a ciência, a tecnologia e a economia descontroladas conduzem não sabemos para onde."
PERCEBEU também, Válter Hugo Mãe, um dos mais lidos e talentosos dos jovens (tem 48 anos) autores portugueses, que "todo o mundo é composto de mudança" e, por isso, num breve trecho de ego-história, numa das suas mais recentes crónicas, no JN, escreveu: "Íamos de galochas para a escola e lamentávamos os guarda-chuvas que perigavam no vento. Raros de nós tinham impermeáveis, chegávamos a deitar mão de sacos de plástico mas, à entrada da escola primária, ensopados, éramos um só lamento e a normalidade. A sala aquecia com um mísero fogão a lenha, perto do qual deixávamos casacos e camisolas, às vezes os cadernos. Secávamos a roupa interior no corpo, brancos pijamas, enquanto tremíamos e medíamos a fúria do tempo pelas vidraças, ouvindo sobre matemática e palavras com mais de três sílabas. O temporal era o inverno inteiro."
Como mudou o mundo da escola do escritor para cá! E como se mudou da minha escola primária para a do escritor!
Para a minha, íamos, quase todos, descalços, sem guarda-chuva, mal agasalhados, sem pijama de qualquer cor, com um simples saco de serapilheira, feito carapuço, cobrindo cabeça e dorso. Ensopados, a tiritar de frio, pés que não sentíamos, mãos tolas, como dizíamos, secávamos a roupa, toda a que levávamos, no corpo. A lareira de tijolo, saliência inútil num canto da sala, não funcionava. Assim era de manhã e, outra vez, à tarde, naqueles invernos longos de chuva e frio.
A que distância estavam esses mundos, para pior, do mundo da nossa escola de hoje!
Vê-se que o mundo muda, mas não prossegue sempre no mesmo sentido: umas vezes, como canta Manuel Freire, "pula e avança/como bola colorida/entre as mãos duma criança", outras chega até à mais negra barbárie com "brinquedos" letais de fogo, em mãos assassinas, dizimando inocentes. Que possa vencer Greta, Guterres, Francisco! Venceremos todos nós.
 
Arouca

Quarta, 30 de Setembro de 2020

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A Frase...

"O município desinvestiu nos jovens"

Ricardo Martins, lider da Juventude Popular, em entrevista ao RV

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