CÁTIA CARDOSO
 
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OPINIÃO | A inexistência de uma sala de espetáculos continua uma lacuna imperdoável
 
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A cultura como se conheceu pode já não existir, as transformações do mundo e das sociedades,
transformam o próprio conceito de cultura e exigem que este seja repensado. Afinal, o que é, hoje, cultura? Vivemos numa Civilização do Espetáculo, conforme apregoou Mário Vargas Llosa, em que só importa aquilo que entretém. A ideia errada de que a cultura só serve para entreter tem vindo a ganhar mais força a cada dia e ninguém, dos que o sabem, é capaz de gritar que não, que a cultura, na verdade, serve é para educar e nos fazer refletir sobre os assuntos que realmente importam para evoluirmos como sociedade e como seres sociais, humanos e intelectuais.
Para isto, contribui a democratização da cultura, a ideia de que a cultura deve chegar a todos e de forma gratuita - sem mencionar o ultraje que a internet e as redes sociais representam para a cultura - e, claro, a massificação da cultura. Em A Civilização do Espetáculo - possivelmente um dos melhores e mais pertinentes livros deste século - Vargas Llosa defende que não se pode colocar em equivalência todas as culturas, por exemplo, cultura popular e cultura erudita. Apesar do exagero de acreditar que a cultura se esfumou, o autor não deixa de ter razão nas transformações apontadas. Diz-nos que no passado, "a cultura foi frequentemente a melhor forma de chamada de atenção para os problemas, servindo de consciência para impedir que as pessoas cultas ignorassem a realidade" mas que agora "é mais um mecanismo para ignorar os problemas e ignorar os assuntos sério".
Por isso, urge pensar a cultura: a que temos e a que ambicionamos. O turismo está afirmado. Está na altura de pensar (mais) na cultura.
É um campo complexo e no qual se sabe, à partida, que nunca se vai agradar a todos. Ainda assim, a cultura continua dependente de vontades, vontade de fazer acontecer. Parece-nos, às vezes, que há medo - do município de apostar na cultura; e dos munícipes de fruírem da cultura. Lidamos com a mágoa da ausência de uma agenda cultural regular que apresente as propostas para dois, três ou seis meses - porque não há propostas que o justifiquem. A inexistência de uma sala de espetáculos continua a ser uma lacuna que o tempo há de provar imperdoável, num território tão apregoadamente desenvolvido.
A cultura continua a andar atrelada e ofuscada pelo desporto (que não deixa de ser cultura, mas tem uma dimensão indiscutivelmente própria), pelos serviços religiosos (o que não devem acontecer num estado laico) e atécom o turismo (que já provou que não precisa de se atrelar a setor nenhum para se desenvolver e que, por isso, só retirará protagonismo a qualquer outra área a que seja associado). Tudo isto para parecer que se dá muito à cultura, ilibando-se da acusação de não se dar nada.
A gratuitidade continua a ser um dilema. As pessoas não estão habituadas a pagar para aceder a determinados eventos culturais e protestam se têm de pagar. Contudo, a gratuitidade gera desvalorização. As pessoas têm de estar dispostas a pagar a cultura, para que lhes possa
ser dada também a capacidade de atribuir valor aos espetáculos e agentes culturais (que indiscutivelmente o merecem!). A cultura tem de ser paga. Ser acessível não significa ser grátis.
Estamos dispostos a pagar por tudo: jantares requintados, férias de luxo... Quem se recusa a pagar por cultura deve recusar-se efetivamente a consumir cultura por não alcançar a capacidade de a compreender e interpretar. Não é, pois, para esses, que se produz cultura.
Para quem vê, enfim, o papel da cultura ocupar a dimensão principal da vida e da sociedade, esta será sempre uma questão presente e tudo será insuficiente.
Em Arouca, tem havido um esforço: nos últimos anos surgiram espetáculos fabulosos de que é exemplo a iniciativa Sons da Praça. Também os Sons da Água, que no ano passado não se concretizaram e que esperemos que voltem em 2020 pela excelência cultural que representam no território. A cultura popular, ainda bem, recusa enfraquecer-se com o desenvolvimento das gerações. Não pretendem estes Olhares ignorar aquilo que de bem se faz, mas antes alertar de que é (sempre) possível fazer mais.
Importa ainda referir que a descentralização da cultura deve ser um objetivo de todas as regiões, para que grandes espetáculos e espetáculos variados, do teatro à música, da dança às artes visuais, não sejam apenas para os grandes centros urbanos.
Também urge que a cultura não sirva apenas para entreter, que faça jus ao seu papel educativo e transformador. Por isso, devemos agora olhar para aquilo que estamos a fazer de diferenciador e continuar a arriscar. No fundo, a cultura erudita vai continuar a ser para minorias e a cultura popular levará sempre a melhor. Ainda assim, se tivermos opção de escolha é melhor.
 
Arouca

Segunda, 17 de Fevereiro de 2020

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