ARMANDO ZOLA
 
Natal de ontem e de hoje
 
OPINIÃO | À medida que os anos passam, à volta da mesa vão ficando cada vez mais cadeiras vazias
 
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Dos temas possíveis e actuais, é do Natal, porque está já aí, que hoje quero e devo falar.
Há muitos anos, era criança, o Natal, o Ano Novo, nunca mais chegavam. A espera desesperante pelos bolinhos de cabaça-menina que ninguém mais soube fazer como a minha avó, a quem sempre chamei mãe - foi um privilégio ter duas mães, quase três, esta última, que também ajudou a criar-me, felizmente ainda viva e protectora - a pressa expectante de ter um carrinho de corda que a "tia do Porto", para onde, muito menina ainda, fora servir, em alguns natais me trazia, as guloseimas que só nessa Quadra se tinham, a excitação das pequenas prendas que o Pai Natal, que eu sabia que não era, deixava no sapato ao quente da lareira, o som penetrante das campainhas, ao redor da igreja, na missa do galo, o estrelejar dos foguetes, ao bater da meia-noite, porque o Menino nascera, tudo precedido do bulício que provocava, à hora das carreiras, o movimento das camionetas da Feirense, umas atrás das outras, apinhadas de jovens, muito jovens, que, nessa altura, por alguns dias, regressavam ao colo e ao abraço dos pais que, muito crianças ainda, tinham deixado para, na Grande Cidade, trocar a sua débil força de trabalho, pela comida e pouco mais, tudo isso, todo esse fervilhar, feito de emoção, reencontro, alegria, ainda sem noção consciente de futuro e de seu limite temporal, levava a que se sentisse que entre a Quadra Natalícia de um ano e a do seguinte se interpunha uma eternidade.
Os anos passaram, as décadas sucederam-se, e o tempo de espera de um Natal até ao outro foi-se encurtando sempre, e cada vez mais. À medida que o horizonte da existência se nos encurta, assim parece encurtar-se também o tempo entre cada Natal. Não que cada Natal se torne menos agradável, sobretudo quando de vários lares, gente que é a nossa nos requisita para o reconfortante convívio natalício em família. Apenas as sensações são diferentes de outrora. Com o andar do tempo, de sob "o manto diáfano da fantasia" que fazia a alegria da criança inocente, foi emergindo, em crescendo, "a nudez crua da verdade", como diria Eça, que foi moldando a emoção consciente do adulto. A vida mingua quanto mais longa se torna, quanto mais se aproxima do seu inverno. Como no Inverno, também no inverno da vida os dias se tornam mais curtos, mas com uma diferença: enquanto o Inverno incessantemente se renova, o inverno da vida não se renova mais.
Por isso é que, à medida que os anos passam, à volta da mesa vão ficando cada vez mais cadeiras vazias, ou vazias de quem nelas se sentou, nos deu colo e em nós ficou, mesmo não estando lá. Por isso também, as sensações natalícias de agora são diferentes, e cada vez mais, das de outrora. As da criança eram feitas apenas de presente, as do adulto, quanto mais longevo ele é, mais feitas de memória e recordação se tornam. Agradáveis, sempre, porque Natal é convivência em alegria, é paz, é reconciliação, é vida, mas diferentes.
Dizia no início do privilégio que era ter duas mães. Agora, vazias suas cadeiras, enche-as, sobretudo no Natal, a memória, a recordação, boa recordação, que me leva a questionar, como Drummond de Andrade: "Porque Deus permite/que as mães vão-se embora?/Mãe não tem limite/é tempo sem hora,/...
E a procurar retribuir, como Eugénio de Andrade: "Não me esqueci de nada, mãe./Guardo a tua voz dentro de mim."
E ainda a implorar, como Torga: "Mãe:/Abre os olhos ao menos, diz que sim!/Diz quem vês ainda, quem queres./Que és eterna mulher, entre as mulheres./Que nem a morte te afastou de mim!"
Natal é também memória, é recordação, é viver. Natal é natividade, é também, e sobretudo, vida.
Para todos, um Feliz Natal e um Bom Ano de 2020.

(texto publicado na edição impressa do RODA VIVA jornal de 2019.12.12)

 
Arouca

Quarta, 29 de Janeiro de 2020

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