ARMANDO ZOLA
 
Não há machado que corte
 
OPINIÃO | Houve outras corajosas e generosas acções estudantis subsequentes de que fiquei privado
 
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Canta, há muitas décadas, Manuel Freire, sem que a voz lhe doa, que não há machado que corte a raiz (eu aditaria, "nem a corrente") ao pensamento. A mundividência e a imaginação de cada um define-lhe os limites, mas cortar-lhe a raiz, ou a corrente, nenhum machado, nem nada, nem ninguém pode cortar. Correrá sempre livre, imparável, incontrolável e, mesmo quando o senhor do corpo que lhe dá vida intente manietá-lo, serpenteará como enguia por entre os lírios - como então lhes chamávamos - que bordejavam as águas do Arda, quando, em criança, por aí andava à sua cata.
Mas, isso que digo vem a propósito de quê? Estava eu, há pouco, a pensar no que escrever para este número do Jornal: sobre tema de um dos vastos assuntos, de âmbito local, ou outro, que tanto, e cada vez mais, nos preocupam, ou sobre coisa mais leve, agora que estamos ou estaremos, os que felizmente podemos estar, em tempo de férias e distensão? Em simultâneo, ia seleccionando os livros que, precisamente, levarei para férias (já em curso quando o jornal sair): dois - "Desilusão de Deus", de Richard Dawkins e "Einstein", de Walter Isaacson - de leitura mais exigente, três mais leves e o "Peço a Palavra", de Alberto Martins, sobre a Coimbra de 1969, e a cujo lançamento assisti, há menos de três meses, na mesma sala em que, cinquenta anos atrás, me encontrava e essa palavra foi pedida pelo ora autor, ao último Presidente da República do tempo da ditadura que, de modo nada dignificante, lha negou.
Ao seleccionar este último título, o fluxo do pensamento, livre e por si, conduziu-me a outro título, "Coimbra, 1969", de Celso Cruzeiro, que li (reli na sua maior parte) há dias e pelo qual constatei que, para além da grande manifestação estudantil que foi a final da Taça de Portugal de futebol desse ano, entre o Benfica e a Académica, houve outras corajosas e generosas acções estudantis subsequentes de que fiquei privado e em que, se pudesse e delas soubesse, nelas deveria e tanto gostaria de participar.
Seguindo por aí, lá me transportou o pensamento, sempre livre no seu trajecto, ao tempo em que, criança ainda, percebi que o meu único ascensor, como hoje se diz, social poderia ser a educação/instrução e o trabalho que a mesma me proporcionaria. Pedi então ao meu pai que me deixasse estudar para professor primário. Não me disse que sim, nem que não, mas entendi pela sua reacção que não recusava o pedido. Quando, concluída a instrução primária, chegou a altura de me matricular no Colégio, onde apenas alguns chegavam, por ter de pagar-se a sua frequência, o meu pai, para além de algumas recomendações que eu teria de cumprir, avisou-me que "se perderes algum ano, vais trabalhar", aviso que repetiu quando, mais tarde, lhe comuniquei que, na vez de ingressar na Escola do Magistério Primário, gostaria de prosseguir até ao então 7º ano do Liceu e, depois, alistar-me-ia, como voluntário, na Marinha e, em simultâneo, como voluntário também, cursaria, a expensas minhas, Direito. Fiz o 7º ano, a aptidão à Universidade, inscrevi-me na Faculdade de Direito e concorri para a Marinha.
O meu pai, ele próprio, abordou-me então (vi-lhe um discreto brilho no olhar): "não, não vais nada para a Marinha. Enquanto fizeres como até aqui, vais continuar a estudar. Mas não podes perder nenhum ano! Sabes os sacrifícios que fazemos para te pagar os estudos." Eu sabia: não era de sol a sol o trabalho dos meus pais. Era, todos os dias, desde muito antes de o sol nascer, até muito depois de o sol se pôr.
Cheguei à Universidade. Entre os estudantes, assentes em movimento organizado, fervilhavam, generosas, as aspirações de liberdade, de justiça social, de uma Nova Universidade onde pudessem aceder, não apenas alguns, mas todos, qualquer que fosse a sua condição. Eu sabia, e sentia, os que, querendo e devendo estudar, se quedavam, sem poder fazê-lo, por falta de condições. Logo aderi, participei activamente, estive naquela sala a apoiar o Alberto Martins, em 17 de Abril daquele já distante ano, fiz, como a esmagadora maioria dos meus condiscípulos, e militei para que se fizesse, greve a exames. Tinha então de voltar a casa para explicar aos meus pais porque, apesar de faltar a exames, julgava não ter traído o seu esforço e o seu aviso e para lhes dizer que, no ano seguinte, para compensar os gastos com o ano perdido, ficaria em Arouca e de Arouca haveria de fazer esse ano. Os meus pais e todos os meus mais chegados, sem um reparo, compreenderam e aceitaram.
Estando em Arouca, não pude participar naquela gigantesca manifestação de luta pela liberdade que foi a final da Taça de Portugal de Futebol de 1969, como não pude, a seguir, em Outubro, juntar-me aos meus numerosos condiscípulos, no apeadeiro do comboio, em Coimbra, para, em alta voz, rasgando a asfixia da ditadura, exigir a liberdade e reclamar o fim da guerra colonial, em uníssono com as cerca de cinco dezenas de colegas nossos que mais se tinham distinguido naquela luta desigual e que, por isso, a ditadura condenava e conduzia, de imediato, para a tropa, a caminho da guerra.
O pensamento continuou a fluir, mas o texto por aqui tem de ficar.
Para todos, boas férias!
 
Arouca

Quinta, 21 de Novembro de 2019

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A Frase...

"Pretendemos que a Junta possa ter maior autonomia e fazer um serviço melhor do que aquele que está a ser executado"

Vitor Arouca, da Assembleia de Freguesia Arouca-Burgo, sobre a proposta de transferência de competências, ao RV

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