PAULO MILER
 
Da utopia à realidade
 
OPINIÃO | Juravam bater o pé aos tiranos de Bruxelas, aos banqueiros
 
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Os helenos sempre foram pródigos no intelecto, na intelligentsia. Da mitologia, à filosofia, a berço das ideias políticas, Atenas sempre se posicionou como pináculo civilizacional. De facto, não é por mera leviandade que se alude ao mais elevado patamar, ao cume do metafísico: o Olimpo sempre foi
epíteto do pensamento e habitat imaginário dos antigos filósofos sábios gregos.
Da filosofia à política, uma transição natural. A perspetiva altiva própria dos eruditos pensadores da época investia-os no desígnio de idealizarem um protótipo, ainda, de organização das chamadas Cidades-Estado.
Todavia, reza a História que os sábios sempre tiveram como hercúlea a missão que o trono do seu conhecimento lhes incumbia. Talvez o "Calcanhar de Aquiles" tenha aqui a perfeita sintonia da sua simbologia - na verdade, nos primórdios da política, a utopia tomou conta de todos os instruídos,
seja por já se ocuparem das questões existenciais e, por isso, munidos da sapiência para a trivial
organização da sociedade, seja por se etiquetarem como educadores, precisamente pela sapiência
notória. A utopia trouxe consigo o ideal de organização política, mas também os percalços típicos que a imperfeição e a própria realidade infligem.
Dois dos maiores filósofos, sábios instruídos e pensadores gregos da História, Platão e Aristóteles, embora tenham erigido os princípios modeladores da Política, cujo espólio ainda vinga contemporaneamente, em determinada altura esbarraram na aplicação prática dos seus ideais políticos. Quando Platão finalmente envereda pela Política, sendo prático e não utópico, enquanto conselheiro e educador do Rei Dionísio em Siracusa, frustra-se na prossecução da sua missão, subversiva à tirania do Rei que o poder consumia. Desencantou-se, por isso, com a política. Semelhante sensação teve Aristóteles, cuja investida prática na política, também no papel de conselheiro e formador, neste caso, de Alexandre, o Grande, na Macedónia, ficou ofuscada pela notabilidade deste.
De inquestionável sabedoria, nunca foi particularmente sintomática a aplicabilidade prática da organização política teorizada. Precisamente porque, sendo a política dirigida para servir o povo, haveria que ser "terráqueo" e descer aos confins da realidade. Ficaram os vultos e, paulatinamente, foram surgindo novas correntes que moldaram as ideias políticas, em cenários menos utópicos e mais práticos, bebendo também dos princípios enunciados.
Pensar-se-ia que os gregos, estando na génese do pensamento político e no "Olimpo" do intelecto, pudessem estar, neste século XXI, na linha da frente enquanto exemplo de gestão política ou, ainda assim, sucumbir à herança utópica que os sábios lhes deixaram. Contudo, de 2010 em diante, foram anos horribilis para a Grécia. A par com Portugal, encontrava-se na cauda da Europa como um dos países mais endividados, chegando a assumir o estatuto de país mais endividado de forma ininterrupta. Numa situação caótica, a imposição de forte austeridade num país que cultivou durante anos a irresponsabilidade e o despesismo desmesurado despoletava os tumultos populares. E é neste contexto que o ano de 2015 marca definitivamente o compasso político grego, já depois de Portugal ter abandonado, com sucesso, o programa de ajustamento imposto pela troika, entram os gregos num exigente programa de assistência financeira. Uma época em que o emprego da palavra "austeridade" era corrente e ecoava por toda a Europa, já que simbolizava os redobrados esforços financeiros de famílias inteiras para equilibrar as contas públicas, para que o país não definhasse à mercê da irresponsabilidade governamental e, também, de um pós-crise cujos efeitos ainda se faziam sentir. Por isso, qualquer narrativa, por mais populista que pudesse ser, adotando o vernáculo dos dias de hoje, confluía nos anseios da população, compreensivelmente com as emoções à fina flor da pele por se verem fustigados de encargos financeiros. É então que entra em cena o Syriza, a extrema-esquerda entre as catacumbas dos dissidentes com a União Europeia, com um discurso, segundo os próprios, "antiausteridade", de rompimento com Bruxelas, anti sistémico. Juravam bater o pé aos tiranos de Bruxelas, aos banqueiros, assegurando que, pela via da dissidência, mormente pela repulsa pelo programa de assistência financeira nos moldes ditados pela União Europeia, sairiam ilesos e no rumo certo.
A vitória do Syriza nas eleições gregas foi exultada um pouco por toda a Europa. Inclusivamente, em Portugal, nos media e numa ala da esquerda reacionária, o regozijo era tal que nele depositaram as esperanças numa viragem "anti-austeridade", de afronta a Bruxelas e aos seus ditames, que desejariam perpetrar no nosso país.
Yannis Varoufakis, o "guru" da economia de Tsipras e um dos principais mentores do discurso de rutura, acabaria por abandonar o barco da "discórdia" ainda antes de poder aplicar, na prática, aquilo que idealizara. Desvaneceu-se o minotauro na quimera dos utópicos, com os vícios dos seus antepassados tão atuais como nunca. Tsipras, por seu turno, sentindo o chão da realidade terráquea, a expensas de um rigoroso programa de assistência financeira perante uma Grécia em pré-bancarrota, seguiu os ditames da União Europeia e a subserviência foi vista com desdém pelos seus antigos correligionários, que assim se viram traídos.
Há cerca de uma semana, as eleições legislativas na Grécia ditaram a maioria absoluta para a Nova Democracia, já com a saída do programa de assistência financeira. A utopia e uma dose de populismo desmedido ditaram a queda do Syriza, esfumaram os certames do rompimento com a moderação
e a prudência.
Pior que ser utópico e idealista, é certamente pregar sermão irrealista alinhavado à emoção de quem o ouve, pintando literalmente um quadro com um cenário sui generis.
Herdaram o vício da utopia, mas não se sentam no mesmo trono do Olimpo onde se situam os sábios filósofos.
 
Arouca

Segunda, 23 de Setembro de 2019

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