ARMANDO ZOLA
 
Os fogos, os montes, a vida
 
OPINIÃO | Encargos que apressarão a ruína e o despovoamento do nosso País profundo
 
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Aproxima-se o período mais crítico dos fogos florestais, enquadrado este ano por duplas eleições: europeias, dentro de dias, legislativas, dentro de meses. Um tempo, por isso, de discussão de ideias, de programação de medidas, de equacionar o futuro. Um tempo e um enquadramento em que parece impor-se o aprofundamento da reflexão sobre os Fogos, os Montes, a Vida.
A vida mudou muito nestas últimas décadas: tínhamos um País rural suportado por um exército de gente esforçada e pobre, com muitos filhos, que, à força de duro trabalho braçal, amanhava a terra, roçava os matos e as carquejas com que fazia as camas dos gados, que estes transformavam em estrumes com que se fertilizavam os campos, e colhia a caruma e as lenhas, com que acendia e alimentava o lume com que se aquecia e cozinhava. Nesse tempo, aproveitavam-se para o gado, que dava alimento e ajudava no trabalho, todas as ervas, mesmo as dos cômoros. Nos campos e nos montes tudo se aproveitava para dar satisfação mínima às exigências daquela vida dura de então. Uns e outros, campos e montes, andavam limpos. Sem combustível, era difícil ao fogo romper através deles. Nos montes criavam-se as árvores que os donos mondavam ou cortavam para fazer a boda ou comprar o enxoval da filha que casava, para pagar os estudos do filho mais franzino ou de saúde mais débil, para acudir numa doença ou outro infortúnio da família, para comprar o fato e a roupa domingueira da prole, para custear o arranjo e a conservação da casa. Os campos eram alimento, os montes suporte e seguro de vida.
Mas tudo mudou: os braços fortes e numerosos que removiam os campos já não existem, ao lado ou sob as casas já não se acolhe o gado que consumia as ervas e fabricava os estrumes, os campos vão sendo cada vez mais montes, os montes cobrem-se de matos e silvas densos e impenetráveis, o fogo encontra neles o pasto com que devora, ano a ano, indomável, todas as suas árvores, toda a fauna que neles se acolhe e deles se alimenta, as casas e as pessoas que encontra, desprotegidas, na sua correria louca, enquanto carrega de poluição o ar e água de que carece para viver tudo o que é vivo e esvazia, com a indústria do fogo, ano a ano também, em milhões e milhões, os cofres do Estado.
E, perante isto, que fazem os governos? Obrigam, sem dó, nem piedade, a limpar os montes, logo que a vegetação atinge uma altura ínfima, mesmo não havendo gado a que a mesma possa servir de cama, nem quem a recolha, nem autorização ou possibilidade de a queimar, nem meios humanos, nem financeiros para os trabalhos. E esquecem, não sabem, ou não querem saber, que poucas semanas depois de feita a limpeza, as silvas, os matos e outra vegetação aí estão de volta a reclamar nova limpeza! Os montes, de suporte e seguro de vida, passaram a fonte de preocupações e insuportáveis encargos para quem deles mais precisão tem. Encargos que poucos, continuadamente, poderão cumprir. Encargos que apressarão a ruína e o despovoamento do nosso País profundo.
Perante tudo isto, mais uma vez se pergunta, porque não avançar antes com as centrais de biomassa? Porque não se canaliza, para o apoio à produção de energia nelas e para a recolha e fornecimento da biomassa, parte dos milhões e milhões ano a ano gastos na indústria dos fogos?
Seria, por certo, uma forma de promover eficazmente a limpeza dos montes, a defesa da floresta, a redução da fuga das gentes do Interior, a melhoria das suas condições de vida, a salvaguarda da paisagem, da natureza e do ambiente, o enriquecimento (ou não empobrecimento) do País como um todo.
Será que quem, nesta ocasião, se propõe definir e rasgar as linhas do nosso futuro próximo terá estas entre as suas preocupações primeiras? A ver vamos...
 
Arouca

Terça, 20 de Agosto de 2019

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